TORRE GÊMEAS:


Fonte: [+] [-]
Original: World Trade Center
País: EUA
Direção: Oliver Stone
Elenco: Nicolas Cage, Michael Pena, Maggie Gyllenhaal, Maria Bello, William Mapother, Frank Whaley, Jon Bernthal, Morgan Flynn, Jay Hernandez, Armando Riesco, Alexa Gerasimovich.
Duração: 125 min
Estréia: 29/09/06
Ano: 2006


O Resgate de Jéssica 2


Autor: Fábio Yamaji

Um evento inesperado e violento força a divisão de uma comunidade entre necessitados e salvadores. É o cenário perfeito pra explorar temas como solidariedade, superação, justiça, controle emocional, racionalidade. E todos os seus opostos. Configuração clássica dos filmes de catástrofe, como se nota em “Titanic”, “Poseidon”, “Impacto Profundo” e tantos outros. O gênero ganha uma variação quando um terceiro grupo acompanha o drama de longe e não pode influir; geralmente os familiares dos necessitados. Casos de “Apollo 13”, “Mar em Fúria”, deste “As Torres Gêmeas” e o filme televisivo “O Resgate de Jessica”, que passou no Supercine no início dos anos 90 e depois entrou em reprises na Sessão da Tarde da Globo.

Cito este telefilme porque sua trama tem a mesma ambição do novo Oliver Stone (ou a falta de), mesmo que ambos se passem em contextos opostos. Em “Jessica” não existe um aspecto político, um fator explicativo ou uma intenção objetiva ligada ao drama que se acompanha. O bebê Jessica McClure simplesmente brincava no quintal de sua casa quando caiu num poço de 9 metros de profundidade. Um acidente doméstico - grave, mas banal. A história se desenvolve em torno deste único fato e o objetivo é resgatar a menina com vida. Enquanto a criança chora, parte da comunidade se mobiliza para encontrar a melhor solução de salvamento, e parte se aflige com a incerteza sobre um final feliz. O mesmo acontece em “As Torres Gêmeas”, e nada mais. Com a diferença que neste caso trata-se de um dos acontecimentos mais importantes da história das civilizações.

Depois de um inexplicável “acidente” num dos gigantescos prédios do World Trade Center em Manhattan, uma equipe da Polícia Portuária de Nova York se dirige até lá, para resgatar os feridos. Já dentro do prédio, recolhendo equipamentos pra iniciar os salvamentos, os policiais ficam sabendo que a outra torre também fora atingida. Caos, dúvidas, informações inexatas e pouca ação. Enquanto circulam pelo subsolo entre as duas torres, são surpreendidos pela queda da primeira delas. Em meio ao desmoronamento refugiam-se no hall dos elevadores. Dois dos homens sobrevivem milagrosamente, mas ficam presos às ferragens e blocos de concreto. São eles o sargento John McLoughlin (Nicolas Cage) e o policial Will Jimeno (Michael Pena). Um terceiro policial, Dominick Pezzulo (Jay Hernandez), tem mais sorte e escapa ileso dos escombros - mas fica com a difícil missão de libertar seus colegas, antes de fugir para salvar a si próprio. Não resiste quando a segunda torre vem abaixo.

As esperanças de John e Will, que resistem com vida, diminuem drasticamente. Não choram como a pequena Jessica, mas como ela, ficam impossibilitados de qualquer reação. Nada resta a fazer senão trocarem palavras de conforto e encorajamento, durante uma dezena de horas. Lá fora a situação é semelhante ao telefilme: acompanhamos o desespero das famílias dos policiais e a perseverança dos homens do resgate. Donna McLoughlin (Maria Bello) tenta se controlar na frente dos 4 filhos, consolada pelas amigas. Allison Jimeno (Maggie Gyllenhaal) está grávida do segundo filho e compartilha o drama com a numerosa família de Will. Não sabem se os seus maridos foram pro WTC; não sabem se continuam vivos.

O fuzileiro Dave Karnes (Michael Shannon) passa por cima de ordens superiores e insiste em procurar sobreviventes nos escombros, mesmo depois do anoitecer. Juntam-se a ele oficiais da Unidade de Serviço de Emergência, dispostos a arriscarem suas vidas para salvar os que agonizam no fundo de valas a vários metros da superfície.

São situações que renderiam seqüências de muita emoção naturalmente. Passam longe disso. O que vemos é uma sucessão de pieguices e frases que deixam no chinelo os mais cafonas dos melodramas latinos. O riso chega a ser inevitável. E o clima de velório toma boa parte do filme. Portanto, não espere uma cena sincera e grandiosa, de estraçalhar o coração, como o antológico momento final do sargento Elias em “Platoon”, do mesmo diretor (Você se lembra do helicóptero, dos vietcongues, de Willem Dafoe levando tiros pelas costas, do adágio para cordas de Samuel Barber? Snif, snif…).

Fica nítido que a intenção de Stone é somente relembrar o momento altruísta do americano comum no fatídico 11 de Setembro. Algo de valor, claro, mas insuficiente diante de uma história que pede uma leitura mais racional e crítica. Ainda mais quando contada pelo diretor que se notabilizou pelas suas teorias conspiratórias. Oliver Stone está irreconhecível, e mudou pra pior.

Ambos inspirados em personagens reais, “O Resgate de Jessica” e “As Torres Gêmeas” chegam ao mesmo resultado, apesar de terem partido de fatos tão diferenciados em importância histórica e potencial dramático.
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