CAFUNDÓ:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Clóvis Bueno e Paulo Betti
Elenco: Lázaro Ramos, Leona Cavalli, Leandro Firmino, Flávio Bauraqui.
Duração: 101 min.
Estréia: 22/09/06
Ano: 2005


“Cafundó”- Onde o mundo começa


Autor: Liciane Mamede

Há dois momentos bem demarcados em "Cafundó" e cada um deles apresenta um conjunto de características que merecem ser destacadas de forma separada - embora, obviamente, tratemos aqui de uma única obra, cujas forças e/ou fraquezas tem de ser procuradas em seu conjunto.

A insistência nessa questão se explica pela própria estrutura da narrativa. Há no filme duas propostas muito perceptíveis. Na primeira parte, conhecemos João Camargo, o escravo recém-liberto, suas dificuldades para se adaptar à nova condição e as descobertas que faz a respeito de um novo mundo para além das paredes da fazenda onde trabalhava. Na segunda parte, ganha espaço a figura de João como líder religioso e a construção dessa trajetória.

Se o primeiro bloco é particularmente interessante pela proposta de retratar o começo da traumática inserção dos negros na sociedade de classes brasileira, com um discurso sintético, porém extremamente eloqüente, a segunda é prolixa, prefere se empenhar em relatar (muitos) fatos. Os significados menos óbvios que poderiam emergir de aspectos da vida do líder se perdem em um emaranhado de acontecimentos de ordem religiosa e política.

Tal opção compromete, porém não torna o filme menos interessante, principalmente porque, em sua primeira metade, a obra consegue dar ao personagem uma dimensão histórica consistente que não se perde por completo na segunda. O cuidadoso olhar que assume sobre o notório líder religioso permite ainda reavivar o mito sem alterar-lhe a face humana.

Graças à libertação dos escravos e a sua suposta ascensão à categoria de “cidadão livre”, as ruas do interior do estado de São Paulo, mostradas no início de “Cafundó”, estão borbulhando uma efervescência cultural que inclui não só diversas expressões de religiosidade, mas também diferentes maneiras de se vestir, agir e pensar. João está exatamente no meio disso, entre o início da decadência do modelo rural e um modelo industrial que apenas começa a despontar; entre a liberdade, assegurada pela lei, e a opressão velada (ou nem tanto) imposta pelos preconceitos de cor e de classe. Assim, surgiram também focos de resistência e alguns grupos que preferiram o isolamento.

É o caso da comunidade quilombola em que a mãe de João passa a viver. Nela, ainda são praticados livremente alguns rituais africanos. A convivência com tais práticas parece ser decisiva para os rumos que, mais tarde, seu filho seguirá.

Questões complexas e traumáticas relativas à formação da sociedade brasileira estão expostas de forma direta, consistente e sintetizadas no personagem do ex-escravo e futuro líder religioso João Camargo e em sua trajetória. O discurso de “Cafundó”, portanto, molda-se utilizando bem os elementos que assimila na trama.

Por ter construído de forma sólida seu caminho, o filme de Paulo Betti e Clovis Bueno adentra bem as fronteiras do metafórico. Não é difícil pensar João Camargo como uma espécie de personagem-síntese de um povo que se encontra em processo de construção/busca de sua identidade – identidade esta que, como o filme insinua, também existe em função da formatação de uma religiosidade amorfa em rituais, símbolos e crenças específicas.

É bom deixar claro que o filme não se engaja explicitamente em um discurso excessivamente metafórico, muito menos quer dar respostas à complexa e, muitas vezes, problemática, história de formação da sociedade de classes e da religiosidade do povo brasileiro. “Cafundó” coloca-se, acima de tudo, em função de sua trama, o que vem depois é fruto da crença do discurso na história que conta e nas posições que assume.
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