ELEIÇÃO - O SUBMUNDO DO PODER:


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Original: Hak seh wui
País: China
Direção: Johnnie To
Elenco: Simon Yam, Tony Leung Ka Fai, Louis Koo, Nick Cheung, Siu-Fai Cheung, Suet Lam, Ka Tung Lam, Tian-lin Wang, Maggie Siu.
Duração: 101 min.
Estréia: 22/09/06
Ano: 2005


Antiguidade e modernidade fundidas


Autor: Cid Nader

Existem escolas de cinema que podem assim ser definidas por sua origem geográfica, por divisões solidamente fronteiriças - antes de época, estilo, ideais, comportamento construtivo, métodos revolucionários... Quando se fala no cinema de Hong-Kong, vem à nossa mente, automaticamente, um cinema de ação, pancadaria, grupos de bandidos e oficiais da lei alternando-se frente à ação, lutas marciais e sangue, muito sangue. Não que Johnnie To realize um cinema totalmente oposto em história a ser contada para os ocidentais, ele realmente trafega pelos mesmos temas que caracterizaram e criaram identidade ao cinema de seu país, mas a maneira, o modo de utilização das ferramentas, o aprofundamento – quem olha superficialmente não consegue perceber – do tema, a calculada referência estética a ser deixada, esses quesitos e mais alguns outros, fazem de seu trabalho algo à parte e notavelmente marcante dentro do cinema de ação mundial.

Em “Eleição – Submundo do Poder”, o diretor parece não ter pressa na maneira utilizada para nos contar o processo de escolha de um novo chefe para uma das tríades que dominam o submundo do pequeno país satélite. Essas tríades equivalem – de modo bem rasteiro – ao que a máfia representa na Itália, com a diferença da ancestralidade e longevidade de situação semelhante em país tão mais antigo no modo de preservar as tradições. Hong-Kong seria um típico exemplo do que há de mais moderno no mundo capitalista, não fosse a enorme força gravitacional exercida pela pátria/mãe vizinha, a grande China – é nítido, durante todo o transcorrer da trama, o poder que exerce o grande vizinho sobre o pequeno país e os seus, de onde são extraídas as simbologias que teimam em acompanhar o desenvolvimento do pretenso modo moderno de comportamento da gangue, que anseia por um “bastão” de madeira como símbolo inequívoco de poder do novo chefe a ser escolhido. Soa bastante estranho que tal escolha tenha caráter de matiz democrática, inquestionável a princípio, dentro de um mundo que anda paralelo à lei e as à ordem comum.

Mas, voltando a falar na opção “lenta” adotada para contar essa história, To demonstra a todo momento do filme que é diferenciado na comparação com outros diretores de seu país, e dá aula, a qualquer um, mundo afora, no modo de conduzir suas câmeras e no modo de costurar sua trama. O andamento é de ritmo incessante – num contraste interessante à calma do filme – com câmeras que não param de se movimentar, quase sem uma única tomada fixa, fato que cria atmosfera e “cativa” o público quase que de maneira hipnótica; o incessante vai-e-vem das imagens poderia facilmente ser comparado ao do pêndulo que é utilizado para acalmar, prender e conduzir quem olha fixo para ele, na mão de um profissional. Se o movimentar das câmeras é incessante, cabe ressaltar, então, que o andamento narrativo é que está num patamar um tanto diferenciado ao usualmente realizado na região e também no pregresso do próprio diretor. Só que não deixa de ser eletrizante ou violenta a maneira de fazer justiça entre os componentes que divergem entre quem tem de ser o escolhido como novo chefe da secular tríade: Lok (Simon Yam) ou Big D (Tony Leung “Ka Fai”). Alguns parâmetros remetem inquestionavelmente ao ocidente quando se verifica a polícia como o elemento “fazedor” de justiça e defensor da lei que rege a vida dos comuns, por exemplo; ou quando se nomeia os personagens com nomes (ou apelidos?) ingleses. A maneira e comportamento das “gangues” também tem seu equivalente aparente na máfia e esse ranço de cheiro ocidental poderia ser entendido como uma legítima e compreensível ligação de Hong-Kong ao lado branco/capitalista da Terra. Mas quanto mais o filme avança, quanto mais conseguimos penetrar no cerne das situações, percebemos que o que rege realmente a trama é a ancestralidade resgatada de velhos comportamentos, medos e respeitos, das antigas populações chinesas, senão: apesar de toda a estrutura e riqueza do sistema das tríades, nota-se que o poder de ter nas mãos um velho bastão impõe caráter muito mais amedrontador e respeitável do que qualquer outra coisa; a velha e grande China é o local onde – obviamente – se encontra escondido tal signo de superioridade e respeito. Os episódios de enfrentamentos e questionamentos remetem a situações típicas da época das grandes dinastias – soterradas em sua história, na aparência, de um lado pela massificação e unidade do ser criada pelo comunismo como único e inquestionável poder da grande China e de outro, pela ágil e “encantadora” modernidade imposta a HK pela grana, a maneira de captá-la e o modo de usufruí-la.

É um filme que mergulha com garbo e elegância numa piscina, cheio de piruetas e trejeitos bem cumpridos, com imagens bem capturadas de toda essa estruturação estudada e repassada dignamente para a tela. Mas não omite toda uma história rica em humanidade – perversa ou temerosa – como algo que motivou tal salto ornamental. Impossível se sair do cinema, após tal experiência, sem ficar definitivamente marcado por um odor de tempos antigos no país feudal, ou sem se lembrar por um bom tempo da reação de alguns macacos, num pequeno bosque, acompanhando “incrédulos” e assustados uma terrível seqüência de violência que definirá quem é o líder, afinal. Impossível não se lembrar, também, da inquestionável cena dentro de uma prisão, com um plano geral definitivo e genial. Ou de um dos componentes que repete cantilenas – como se fossem orações – nas quais evidencia preferir mil castigos a perder o poder da guarda do bastão sagrado. Sem falarmos em uma grande seqüência onde a “pauleira” come solta, para não fazer feio a nenhum filme do gênero.
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