MENINA MÁ.COM:


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Original: Hard Candy
País: EUA
Direção: David Slade
Elenco: Patrick Wilson, Ellen Page, Sandra Oh, Jennifer Holmes, Gilbert John.
Duração: 103 min.
Estréia: 22/09/06
Ano: 2005


Sadismo e perversão


Autor: Marcelo Miranda

Em tempos de casos de pedofilia sendo divulgados em todas as partes do mundo, é compreensível que um filme como "Menina Má.Com" seja avaliado sobre este prisma - o de um potencial estudo sobre essa prática. Porém, o longa de estréia de David Slade está sendo visto de forma equivocada. Não parece ser sua intenção criticar ou questionar a pedofilia, e sim apresentar um pequeno conto de horror envolvendo um homem de 32 anos e uma garota de 14. Inevitavelmente o filme cai no tema controverso do sexo com adolescentes, mas jamais se fixa nele. Usa-o, na verdade, como mote para uma história de sadismo e perversão. Pedofilia como centro da narrativa e motor dos acontecimentos e angústias foi muito melhor tratado no recente "O Lenhador".

Então, fiquemos com a perturbação das imagens de "Menina Má.Com". Engraçado o fato de o diretor, nos créditos finais, agradecer a Tony Scott. Afinal, em seus piores momentos, o filme de Slade se parece com os recortes mil-por-hora de Scott. Porém, o cineasta foi esperto em não simplesmente tentar ser um discípulo do colega veterano e fez um trabalho muito próprio, em que a câmera sempre pregada no rosto dos personagens (a ponto de várias vezes cortar parte das cabeças) transmite a sensação de sufocamento que o filme pede.

Nada mais coerente a um enredo em que praticamente toda a ação está concentrada dentro de uma casa. O desejo é que a câmera se abra e mostre o ambiente com maiores detalhes, mas isso raramente acontece. Mesmo na cena mais incômoda do filme (envolvendo uma castração), Slade se fixa nas expressões, ao mesmo tempo em que provoca curiosidade quando "ameaça" mostrar o que de fato está acontecendo. Há quem compare "Menina Má.Com" a "A Morte e a Donzela", de Roman Polanski. Porém, talvez haja maiores semelhanças com o cult injustamente pouco lembrado "Louca Obsessão", de Rob Reiner, em que Kathy Bates encarnava Anne Wilkes. Ela era a fã de um escritor que mantinha seu ídolo num torturante cativeiro - e o filme inclui aquele momento antológico em que ela dá uma marretada no pé do escritor.

Pois Hayley, a protagonista de "Menina Má.Com", é uma versão jovem de Anne Wilkes. Ellen Page encarna com boa dose de inocência, cinismo e maldade essa menina nada sociável, sem torná-la mera caricatura maniqueísta. O diretor não cai na besteira de buscar explicações para o comportamento dela - nada de família desunida, uso de drogas, abuso na infância e afins. Hayley acredita estar cumprindo uma missão e vai ultrapassar limites para conseguir vencer. Ela se torna uma das criações mais sádicas do cinema americano contemporâneo sem que para isso tenha motivos "psicologizantes" a explicarem seus atos.

Pena que David Slade não se contente em criar uma garota apenas perversa. Ele insere uma justificativa aos atos dela. Não dá causas, e sim conseqüências, tornando o filme perigosamente próximo ao moralismo e simplismo. Ainda assim, não fosse sua câmera nervosa e a ótima criação de personagens, "Menina Má.Com" passaria por um filminho de tortura. Mas ao inverter as posições habituais de "vilão" e "mocinho" e não dando certezas sobre praticamente nada, o longa cresce e se torna digno de atenção e algum respeito.
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