O DIABO VESTE PRADA:


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Original: The Devil Wears Prada
País: EUA
Direção: David Frankel
Elenco: Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt, Adrian Grenier, Simon Baker, Daniel Sunjata, Gisele Bündchen, Tracie Thoms, Jaclynn Tiffany Brown
Duração: 109 min.
Estréia: 22/09/06
Ano: 2006


O alienígena e o espectador que quer vestir Prada


Autor: Cesar Zamberlan

Se um alienígena aterrisasse em São Paulo neste final de semana e buscasse por meio de dois filmes que estrearam nessa sexta, “O Diabo veste Prada” e “Os Amantes Constantes”, entender que civilização é essa. Certamente, sairia do cinema com a certeza que os filmes tratam de duas civilizações distintas, sem nenhum ponto de contato e que nem mesmo a expressão artística é a mesma, tamanha a distância entre os dois filmes.

Brincadeira à parte, a exposição de um mundo tão artificial e fútil talvez seja, para alienígenas na terra e fora dela, uma das melhores coisas de “O Diabo veste Prada”. Mas, o filme não toma um partido claro em relação ao que retrata. Afinal, como diz o próprio diabo, no caso a editora de moda, Miranda Priestly, interpretada, brilhantemente, como sempre, por Meryl Streep, quem é que não gostaria de pertencer a este mundo. Eis a questão chave do filme: as pessoas querem vestir Prada e se identificarão com o universo que o filme retrata, saíram do filme não indignadas e, sim, satisfeitas, saciadas de certa forma pelo que o filme mostra. Um filme crítico, ao estilo Altman e seu “Prêt-à-Porter”, afastaria o público. Fica-se então num meio termo que, na verdade, é conveniente e revelador.

Revelador porque mostra o glamour que envolve a edição de uma revista de moda capitaneada pela tal Miranda sob o ponto de vista de Andy, um aspirante a jornalista, criando uma identificação entre ela e o público. Andy é um patinho feio, mal vestida e meio gordinha para os padrões deste mundo que cai de pára-quedas no ambiente fashion. Ela procura apenas por um emprego que lhe garanta o aluguel e a uma certa visibilidade no meio para atingir seu sonho que é chegar a uma revista conceituada no meio jornalístico, uma New Yorker, por exemplo.

O espectador torcerá por ela. O filme busca e acerta em criar essa identificação entre a alienígena Andy e o espectador, afinal os dois aspiram à mesma coisa, sem ter a coragem de assumir tal aspiração, e para chegar a esse mundo glamuroso, ambos, farão uma espécie de pacto moderno com Mefisto: lhe servirão para serem servidos – a ambigüidade do verbo aqui é proposital.

O pacto se inicia com a perda do nome: Andy demorará a ser chamada como tal, ela é chamada por Miranda como “minha nova Emily”, ou seja, precisa superar alguns estágios dentro do pacto para ter como recompensa o nome. Quanto ao livre arbítrio, esquece, Andy vive em função dos desejos e necessidades da chefe, sem a possibilidade de escolha. Ela não governa seus passos, vive em função do trabalho do pacto.

O filme retrata habilmente esse mundo glamuroso e seduz o espectador com cortes rápidos, muito movimento de câmera, muita grua, muita mulher bonita, muito perfume, muita perfumaria, mas pouco respiro para a reflexão e para o cinema. O filme governa os passos do espectador tal qual o personagem de Andy é conduzido pelo toque opressivo do celular de Miranda lhe impondo as mais árduas e fúteis tarefas.

E como num rápido trocar de roupas, Andy e espectador acabam absorvidos, engolidos pelo pacto/filme. O estranhamento inicial vira deleite; o sofrimento, gozo. Nesse aspecto, o filme atira num alvo e acerta em outro. Se ficasse por aí, com a ascensão da personagem que simboliza a aspiração do espectador seria um ótimo e cruel retrato da nossa sociedade, se mostrasse como Miranda, Andy, você e eu somos iguais tudo bem; mas, não, Andy rompe o pacto. O filme a redime, ela consegue emprego num jornal – se é que trabalhar em um grande jornal pode ser visto como algo redentor -, mas não redime o espectador, pois este compartilhou o tempo todo do desejo de Andy, foi seu cúmplice no pacto. O espectador também quer vestir Prada e não está nem aí se o diabo existe ou não e se é preciso fazer um pacto ou não. Afinal, o pacto já está feito, selado e ninguém se envergonha de fazê-lo.

Quem não selou o pacto foi François, personagem de “Os Amantes Constantes”. Lembra? “Amantes” é o outro filme que o alienígena viu. Um filme de três horas, em preto e branco, sobre um mundo estranho, cheio de gente esquisita como Gauthier, não confundir com o estilista e no qual Prada, ou melhor, Pravda representava algo bem diferente, uma outra verdade.

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