OS AMANTES CONSTANTES:


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Original: Les Amants réguliers
País: França
Direção: Philippe Garrel
Elenco: Louis Garrel, Clotilde Hesme, Julien Lucas, Eric Rulliat, Nicolas Bridet, Mathieu Genet, Raïssa Mariotti, Caroline Deruas-Garrel
Duração: 178 min.
Estréia: 22/09/06
Ano: 2005


"Os Amantes Constantes": a consciência que faz sofrer


Autor: Fernando Watanabe

Deixemos “Os Sonhadores” de lado. Bertolucci faz parte do cinema como tradicionalmente o conhecemos. Garrel não. Talvez por isso o primeiro fez um filme de fetiches e fantasias chocantes, enquanto o filme aqui em questão trata de outra coisa. Um filme sobre a derrota das idéias e a autonomia das pessoas. O fracasso ou a realização incompleta do Maio de 68, do amor, da arte, e como as pessoas são agentes ou pacientes desse processo. “Os Amantes Constantes” é um filme feito de binaridades dotadas de ambigüidades e a primeira sobre a qual nos deteremos é a ambigüidade acerca do motor do filme.

A grande motivação dessa situação decadente vem de fora para dentro, isto é, a história é maior do que os personagens e não resta a eles alternativas que não a de tomar atitudes oportunistas/individualistas e sobreviver? Quando todo o grupo dos jovens se reúne na casa de Antoine, podemos deduzir que ele é o perfeito anfitrião: rico, fornece o ópio e abriga os colegas em seu recinto. A comunidade de jovens constituída em torno dele pode ser justificada por pura conveniência. Quando ele parte para a África, o grupo se desfaz. Também quando Lilie abandona François e vai para os Eua atraída pela oportunidade de ascensão profissional, podemos ver essa atitude, em última instância, como o privilégio do dinheiro e do sucesso em detrimento do amor puro que ela sente por François. É a derrota do abstrato pelo concreto. A derrota das crenças face às necessidades urgentes e práticas do cotidiano. A derrota da utopia da liberdade individual pela consolidação de um capitalismo financeiro avassalador que a todos corrompe. Enfim, “a vida é assim” mesmo? Há alguma saída?

O suicídio de François materializa narrativamente e imageticamente a grande pergunta que o filme faz: vale a pena viver essa vida? E mais ainda, neste mundo tal qual ele se apresenta? O poeta François responde que não, mas é leviano deduzirmos que essa é a resposta do cineasta. A recusa de François em continuar vivendo é principalmente um contra-ponto exemplar frente a todos os outros personagens que seguiram outros caminhos convenientes. Ainda, tal suicídio pode ter como causa a perda do amor (Lilie, que partiu). Não se sabe ao certo. Já a resposta de Garrel, não podemos saber e, “Os Amantes Constantes” tem aquilo que só as obras de grande valor possuem: suspende a pergunta no exato momento em que a resposta parece estar ali do lado, ali na próxima imagem após a última tela preta e o som em over de Lilie: “François morreu no Hospital”. Corte, os créditos sobem, e não há mais nada. A pergunta foi levada até a exaustão. O que é suficiente.

A grande questão estética do filme está nos corpos. A câmera e a montagem suprimem descrições espaciais para se concentrarem nas pessoas. Não à toa, dificilmente temos idéia clara das locações do filme. Já os rostos dos personagens, estes se fixam em nossa memória. São as linhas, os traços, a pele deles que ambientam a história, e não a arquitetura. Pessoas que vêm e vão, que se fazem imagem para logo depois sumirem do enquadramento. Pessoas que se movem. Pessoas que não se movem.

As autoridades burocráticas são sempre representadas por personagens estáticos, que pouco se mexem. Os policiais da cena do confronto são filmados de costas, em um plano fixo e, apesar da longuíssima duração do plano, eles quase não saem de suas posições de combate coreografadas e de pouca movimentação. Os policiais que atiram bombas o fazem como um gesto puramente mecânico (com o mesmo enquadramento de câmera reiterativo). Os juízes do julgamento de François são praticamente imóveis. Velhos. A lei, enfim, é uma instituição estagnada no tempo. E não se condena os homens que servem e que são usados de forma inconsciente por esse sistema. Garrel não nomeia verbalmente esses personagens, e nenhum deles (fora os inspetores que cobram o imposto) ganha destaque individual durante a história. Conclusão: os policiais e a lei são símbolos, metáforas que remetem a todo um sistema que subjuga as pessoas. As autoridades podam a autonomia das pessoas ao mesmo tempo em que abdicam de suas próprias liberdades, afinal, também são seres humanos. No tribunal, é belo o plano em que a câmera vai até François e enquadra ao fundo um jovem policial olhando François com curiosidade.

A amiga de François que o abriga quando ele chega do confronto todo sujo e fatigado, o acolhe com carinho, demonstrando seu cuidado quase maternal com o amigo. Porém, ela não pode mais dar atenção a ele, ela tem que trabalhar, e a câmera não mais a consegue reter. A exemplo da partida de Lilie e do amigo Antoine, as necessidades materiais falam mais alto do que os sentimentos.

O movimento dos corpos também pode ser ambíguo. Na casa de Antoine, a lassidão dos personagens fumando ópio na verdade é emocionalmente mais movimentada do que a cena de dança da festa. Quando François fuma, vários inserts de tormento (flashbacks ou sonhos) vêm a sua cabeça. Já a dança ao som de “This Time Tomorrow” não deixa de ser uma alegria melancólica, preconizando que aquela condição humana do pós - 68 evocada pelo filme permanece e permanecerá para sempre de alguma forma. A indignação que tortura está no ópio. A contemplação de um estado das coisas que não muda está na dança.

E, numa leitura puramente plástica e superficial - não usando este termo de maneira pejorativa, apenas uma leitura “branca” do filme -, pode-se desconsiderar toda a questão ideológica intelectual que interpretamos de forma deliberada e enxergar Os Amantes Constantes como um tributo a esses corpos. Quando a câmera filma Shad parada, mão no queixo, chorando, não sabemos o motivo daquele ato dela (a insatisfação com o Mundo?). Mas vemos que aquela imagem é impressionante.

Todas essas binaridades ambíguas (História x Indivíduo, movimento x não-movimento) é reforçada pelo uso do preto e branco de alto contraste. Recurso que costuma distanciar e estilizar, aqui tal distorção se mistura a uma encenação hiper-naturalista dos personagens e dos cenários. Um estranhamento que acentua a dubiedade do comportamento dos personagens, a alternância do branco com o preto está ligada de forma orgânica à dúvida das pessoas em privilegiar ora seus sentimentos, ora suas necessidades. Gauthier (o amigo estilista) diz: “Temos que distinguir a alegria de se usar roupas coloridas da necessidade de se usar o preto”.

Difícil falar de “Os Amantes Constantes” de uma maneira que não a redutora, pois, além da larga duração do filme (180 min), ele é múltiplo de sentidos, e não pode ser definido apenas como um postulado de uma tese decadentista, ou uma mensagem de esperança (ou desesperança). É melhor pensarmos nele como uma obra produtora de múltiplas interpretações, de múltiplos sentimentos, de múltiplos corpos. De um grande sofrimento. Como assistir ao filme? Se deixar embriagar pela sua beleza exterminadora ou tentar articular seus significados intelectuais? Ou de ambas as maneiras (é aí que sua força se afirma por completo)? “Os Amantes Constantes” convida a sofrer, por intermédio da beleza. Talvez, ainda sejamos românticos nesse ponto. Ao ver este filme, uma última ambigüidade que advém da natureza de nossa leitura do filme se instala: a alegria de descobrir uma beleza que o cinema ainda pode criar, misturada à tristeza fulminante do que ela significa.
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