EL FAVOR:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Argentina
Direção: Pablo Sofovich
Elenco: Javier Lombardo, Victoria Onetto, Bernarda Pagés, Mariana Briski, Luis Margani, Betina Carón, Bettina Carón, Carlos María Carón.
Duração: 90 min.
Estréia: 15/09/06
Ano: 2004


Faça me o favor


Autor: Cid Nader

Novamente o cinema argentino. Novamente a confirmação de que nem tudo que é bom dura para sempre e nem tudo que vem do país dos “hermanitos” pode ser considerado acima de qualquer suspeita. A “nova onda”, uma denominação que procura encampar sob sua designação tudo de bom que vem sendo exportado pelos argentinos em matéria de cinema, cada vez mais demonstra que pode ter seus momentos de marola; de maré baixa. Uma enormidade de produções platinas tem desembarcado aqui em nosso país e somente com a constatação de tal quantidade de filmes é que temos podido notar que as excelentes são de qualidade indiscutível, sim, mas que a maioria acaba por sofrer um mesmo fenômeno mundial: o de trafegar por vias mais comuns e não tão inspiradas.

Só que esse “El Favor” padece dos maiores pecados imagináveis quando se trata de obra realizada para o formato cinema, e acaba por ser uma das piores coisas vistas nas telas nos últimos tempos. Antes de mais nada, vale lembrar que toda a essência do filme, o modo como foi construído, as opções adotadas para a narração da trama, o jeito de atuar dos protagonistas, a iluminação... enfim, tudo, remete o trabalho a obra de teor muito mai teatral do que cinematográfico. Nada excessivamente contra obras teatrais, mas quando falo de cinema imagino e desejo ver um produto realizado para ele, funcionando com o amparo de seus mecanismos, utilizando todas – ou somente algumas – as suas possibilidades e características intransferíveis. Mesmo quando uma obra for de essência e origem teatral – o que parece não ser o caso oficial dessa – adaptações e adequações serão sempre muito bem vindas, e o resultado final a ficar marcado em nossas retinas deverá ser o de um trabalho feito em película, projetado em tela grande e branca, w com alma de “produto do meio”. Existem grandes peças que foram conduzidas dos palcos para as telas e marcaram seu nome na história da sétima arte.

Os atores agem de maneira exagerada, com caras, bocas e caretas que ficam bem quando observadas à distância, na realidade longínqua e fisicamente real de um palco de teatro. O trato no modo de atuação, que será projetado e ampliado infinitamente na telona do cinema, é de outro nível interpretativo, com um cuidado muito mais específico, onde são exigidos movimentos mais comedidos e contidos; menos “pancake” e tintas mais leves, digamos assim, para não assustar o espectador. A opção adotada pelo diretor, Pablo Sofovitch, na construção “técnica” do filme, também contribui para a impressão de desacerto do trabalho: toda a encenação principal é contida dentro de pequenos espaços, onde os atores se esbarram e atropelam continuamente – numa lembrança óbvia do espaço cênico de um teatro -, fotografado de maneira ingênua, apressada, mal calculada, com erros evidentes de posicionamento de câmera, cálculos equivocados de iluminação e equívocos maiores ainda no momento da montagem.

A história discorre sobre a necessidade que se impõe um casal homossexual feminino, de ter um filho gerado por uma delas. O casal: Roberta (Victoria Onetto) e Mora (Bernarda Pagés). Para tal empreitada, a visita caída do céu do irmão de Mora: Felipe (Javier Lombardo). Todo um enrosco típico de pastelão começa a ganhar forma., com tentativas de sedução, bebidas potencializadas a não mais poder, explicações esdrúxulas e o surgimento da noiva grávida de Felipe: Faustina (Mariana Briski). A correria se impõe, os mal-entendidos e os sub-entendidos se avolumam, as caretas dos atores vão ganhando toda a dimensão da tela, e o mal está feito: temos “El Favor”.

Bem que o diretor tenta quebrar essa centralização da trama criando um evento externo, quando coloca coadjuvantes assistindo do lado de fora do apartamento – pela janela – os acontecimentos que se passam por lá. Mas o faz de maneira esporádica, meio que jogada ao léu, como que querendo demonstrar que aquilo não passaria de um pequeno exercício de “voyeurismo”, que se permitiu. Só que aí ele acabou incorrendo num novo erro, deslocando o foco da aparente linguagem teatral que conduz as ações internas, para uma linguagem de matiz publicitária – a luz, as reações e as pequenas aparições externas acabam levando toda a pinta de peça de propaganda publicitária. Resultado: tudo, menos cinema.

P.S.: e reparem que falar somente mal desse filme causa-me até um certo desagrado pela exuberância física e sensualidade emanada pela atriz Victoria Onetto. Um desperdício de “talento”.
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