DOIS É BOM TRÊS É DEMAIS:


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Original: You, Me And Dupree
País: EUA
Direção: Anthony Russo, Joe Russo
Elenco: Owen Wilson, Matt Dillon, Kate Hudson, Michael Douglas, Seth Rogen, Amanda Detmer
Duração: 108 min.
Estréia: 15/09/06
Ano: 2006


Humor nem demais, nem de menos


Autor: Érico Fuks

Alguns valores sociais modernos tão incentivados pela sociedade de consumo norte-americana vêm sendo questionados, pelo menos nas entrelinhas de alguns filmes recentes. Pode parecer um contra-senso, ou talvez um aviso da necessidade de um breque nessa busca desenfreada por status e conforto. Como entender então que a indústria do entretenimento que lança um pacote de produtos coligados aos filmes é a mesma que prega a negação da modernidade, a exemplo da animação “Carros”, ou coloca a indústria da moda como um lixo resultante da futilidade, como em “O Diabo Veste Prada”?

“Dois é Bom, Três é Demais”, dirigido pelos irmãos Anthony e Joe Russo, mesmo que seja uma comédia romântica leve e morna, também engrossa o caldo de películas que fazem repensar alguns ideais urbanos. Os recém-casados Carl e Molly Peterson (Matt Dillon e Kate Hudson) estão curtindo a nova vida matrimonial. Ampla casa nova, privacidade, essas e mais algumas vantagens da vida a dois caem por água abaixo com a presença de Randolph Dupree (Owen Wilson), um sem-teto e desempregado que escolhe aquele templo espaçoso para passar alguns dias enquanto se ajeita na vida. Embora Carl seja um profissional bem-sucedido seguindo uma carreira promissora, trabalhando na empresa de seu sogro, o multimilionário Sr. Thompson (Michael Douglas, nitidamente constrangido em seu papel), não dá para o recém-marido recusar a estadia daquele que durante o colégio foi seu melhor amigo.

É o estilo de vida ingênuo e desencanado de Dupree, somado a alguns pequenos acidentes aqui e ali, que fazem com que a vida dos pombinhos comece a virar um inferno. A falta de sincronicidade entre o ganhar-dinheiro e o viver-a-vida, marcada pelo desajuste de ponteiros, faz com que o lar doce lar vire palco de pequenas desavenças.

Embora a premissa do plot seja a de associar a imagem de Dupree ao caos domiciliar e à desordem conjugal, é a ele que os diretores dedicam os melhores momentos do filme. A vida dos Peterson é retratada como algo estável e chato demais. Já os Russo dão um tratamento mais generoso à figura do abúlico desengonçado. É ele quem conquista a simpatia dos vizinhos de qualquer idade, é ele quem se dedica com mais fervor às coisas simples da vida. Sua personalidade é mais complexa: ao mesmo tempo em que se dedica a um ato de amor amanteigado (talvez numa alusão ao então conturbado aos padrões da época “O Último Tango em Paris”), passa noites em claro cantando apaixonadamente Barry Manilow. Dupree é a volta idílica aos ideais hippies. Anda de bicicleta, leva uma vida meio natureba, não liga muito para o dinheiro advindo do trabalho. É o contraponto divertido ao yuppie fora de forma, que não sabe mais manobrar uma prancha de skate. “Dois é Bom, Três é Demais” chacoalha sem chocar. É um pequeno e cafona safanão que prega o resgate a um american way setentista e oitentista que se perdeu. Mais livre, menos planejado. Nem que pra isso tenha que recorrer a alguns manjados tombos de telhado e incêndios em sofá.

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