O ABISMO DO MEDO:


Fonte: [+] [-]
Original: The Descent
País: Inglaterra
Direção: Neil Marshall
Elenco: Shauna Macdonald, Natalie Jackson Mendoza, Alex Reid, Saskia Mulder, MyAnna Buring, Nora-Jane Noone, Oliver Milburn, Molly Kayll.
Duração: 99 min.
Estréia: 15/09/06
Ano: 2005


“Quem tem medo do escuro?”


Autor: Leonardo Mecchi

Os filmes de terror, por se reportarem diretamente a uma de nossas emoções mais primitivas (o medo), colocam-se como um desafio para a análise crítica a partir do momento que, quando bem realizados, extrapolam a lógica e atuam diretamente no irracional do espectador. Quando não se tem repertório suficiente no gênero (como admito ser meu caso) para discutir como determinado exemplar se relaciona a seus cânones e princípios, ficamos reduzidos às sensações causadas pela obra e como nos relacionamos a elas. Nesse sentido, “Abismo do Medo” é extremamente bem sucedido no que se propõe, construindo um clima distante dos filmes americanos de massacre ou os terrores orientais sobrenaturais a que estamos habituados no circuito brasileiro.

“Abismo do Medo” parte de uma premissa relativamente simples: seis amigas se unem numa expedição para explorar cavernas nos EUA e acabam presas em uma delas, onde estranhos acontecimentos começam a vitimá-las uma a uma (expor o enredo mais do que isso seria negar ao leitor o prazer do filme). A partir disso, o diretor britânico Neil Marshall constrói um drama de horror sufocante, que se equilibra eficientemente entre o terror psicológico e o físico (o filme não economiza no gore quando necessário) e que habilmente deixa o espectador no limite da tensão durante toda a projeção.

O filme é econômico na apresentação de suas personagens (reduzindo a psicologia e individualidade das seis amigas ao mínimo necessário para o desenvolvimento da história) e no estabelecimento das relações que iremos acompanhar. Uma vez dentro das cavernas, é aí que suas armas são mostradas. Presas sob a superfície, e precisando se esgueirar por uma rede de túneis cada vez mais estreitos em busca de uma saída, o grupo é submetido a situações extremas, que vão minando a confiança e a sanidade daquelas amigas.

Marshall atua diretamente da percepção do espectador, trabalhando luzes, sombras e, principalmente, ruídos de forma primorosa, estabelecendo um clima de tensão crescente que, ao transformar o escuro da sala de cinema em uma continuação da escuridão da caverna, joga o espectador para dentro daquele ambiente sem que nenhuma resistência seja possível.

Fotografado em um claustrofóbico cinemascope, com uma edição de som e imagem prodigiosa e utilizando com precisão o limiar do enquadramento como espaço para a projeção de nossos temores, Neil Marshall constrói com “Abismo do Medo” um filme que – se peca em alguns momentos pelo excesso na transformação das pacatas amigas em verdadeiras Ripleys redivivas (além de “Alien”, o filme faz referências a outros clássicos como “Apocalypse Now”, “Drácula” e “O Iluminado”, entre outros) e na utilização de algumas sub-tramas desnecessárias – consegue deixar o espectador à flor da pele durante toda a sua duração. Se for escolher um único filme de terror para ver em 2006, que seja “Abismo do Medo”.
Leia também:


Este era o melhor filme de horror do ano?