ESPELHO MÁGICO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Portugal
Direção: Manoel de Oliveira
Elenco: Leonor Baldaque, Luís Miguel Cintra, Glória de Matos, Diogo Dória, Lima Duarte, Marisa Paredes, Michel Piccoli, Susana Sá, Leonor Silveira, Ricardo Trepa.
Duração: 137 min.
Estréia: 07/09/06
Ano: 2006


"Espelho Mágico" - esse é grande


Autor: Cid Nader

Existe uma discussão, me parece que eterna - aliás como parece ser o destino desse ancião -, sobre a qualidade das obras de Manoel de Oliveira. Existem os que as defendem, incondicionalmente, como obras-de-arte irretocáveis, de qualidade superior, sempre e acima de qualquer suspeita. Têm também os que quase sempre saem correndo em desabalada carreira, ao simples tilintar da sonoridade que - "decodificada" e transformada na onda sonora característica da nossa compreensão - ressoa e constrói aos nossos ouvidos o nome do velho diretor português. Manoel de Oliveira é, com certeza, um dos grandes diretores da história do cinema, com obras para lá de imprescindíveis em seu currículo, mas que comete imprudências também, por vezes sérias; principalmente por serem seus filmes bastante calcados nos diálogos e nas discussões. Conversas cultas, de caráter histórico, sociológico, religioso ou antropológico, como o pretendido pelo diretor cada vez mais em suas obras, requerem razoabilidade na escolha dos assuntos e bom tino para suas utilizações, o que nem sempre ocorre, fazendo com que, em alguns filmes, Manoel aparente querer nos empurrar conclusões infantis e pueris, com o ar esnobe do culto português - ou francês, que também muito lhe caria bem - por exemplo.

Não devemos nos esquecer, também, que Manoel tem um bom-humor muito peculiar, por vezes tão fino que passa despercebida a intenção jocosa dentro do texto - ou do contexto -, fazendo com que a ironia se dilua e forme impressões e avaliações errôneas por parte de um público novo, que não tenha tido acesso à obra anterior do diretor. No início, Oliveira era mais explícito, mais cru; passava seu recado - sempre recheado de referências - de maneira mais clara e "visual". Com o passar do tempo e a necessidade de exteriorizar o conhecimento adquirido ao longo dos anos, seu cinema tornou-se mais "oral", mais explicativo, mais didático, mais francês, portanto mais prolixo. E justamente aí, em minha opinião, começou a correr mais riscos de não conseguir trabalhos com mais coerência e correção em seu fechamento. Sei que alguns de seus fãs não concordam de modo algum com a possibilidade de imaginar algum trabalho de resultado inferior na extensa obra do português, mas sei, também, que quando nos apaixonamos por alguém ou por algum autor, vendamos os olhos e tapamos os ouvidos - inconscientemente -, evitando percebermos escorregadelas ou "escorregadonas".

Nesse "Espelho Mágico" acontece, por momentos, esse "fenômeno do mau da prolixidade/francesa" que acomete o diretor por vezes mas, mesmo assim, temos à nossa frente um dos grandes filmes do diretor. E quando isso acontece, podemos perceber o que é, na realidade, uma obra superior executada por um grande mestre, num grande momento. Contrastando com a opção pela "pobreza" estilística utilizada nas cenas de interior - cenários muito próximos da realidade, com cores "comuns" e luz pouco expressiva - o filme consegue criar deslumbramento em nossas retinas, quando transpõe as portas para fotografar um pôr-do-sol de um amarelo esmaecido que, confesso, poucas vezes vi igual, por exemplo. A história - adaptada de um romance de Agustina Bessa-Luis, "A Alma dos Ricos" - nos remete a momentos de teor religioso, quando contrapõe extensas discussões sobre a provável origem "rica" de Nossa Senhora, num argumento defendido pelo teólogo e pesquisador bíblico, Heschel (Michel Piccoli), em momentos de discussões na casa de Alfreda (Leonor Silveira), que passa a nutrir a necessidade de se confrontar com a Virgem Maria; logicamente, ansiando por uma aparição. Na casa de Alfreda se ouve muita música - paixão de seu marido - e circulam figuras díspares, que acabam sendo importantes para compor um painel pouco habitual, e que convergirão para executar uma situação de discussão entre "diferentes"; situação bastante usual na maneira de Manoel encarar o cinema e "democratizar" um pouco de seu conhecimento.

O diretor organiza de maneira competente toda a trupe de personagens, que ao final servirão de muleta para satisfazer o desejo de Alfreda, sem deixar de conceder características específicas a cada um. Realizou um filme que vai se tornando cada vez mais belo, visualmente., - ao avançar da película - culminando com um momento de beleza exemplar, quase ao final, quando passa a utilizar uma câmera - olha o espelho aí - que "olha" de baixo, de dentro ou reflete - como queiram -, deslizando suave e lentamente, as belezas de Veneza ou o caminho que Jesus teria percorrido até o calvário, em Jerusalém. Realizou um filme que vai se tornando cada vez mais belo, pela santificada obsessão de Alfreda e pelo modo em que todos se superam para concretizar sua mais bela obsessão.
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