O MAIOR AMOR DO MUNDO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Cacá Diegues
Elenco: José Wilker, Sergio Britto, Lea Garcia, Thais Araújo, Marco Ricca, Deborah Evelyn, Sérgio Malheiros, Clara Carvalho, Anna Sophia, Max Fercondini, Stepan Nercessian, Hugo Carvana, Silvio Guindane.
Duração: 106 min.
Estréia: 07/09/06
Ano: 2006


Deus não é brasileiro


Autor: Cesar Zamberlan

O lançamento de “O Maior Amor do Mundo”, novo filme de Cacá Diegues fez circular em listas de cinema na internet e em papos de cinéfilos uma discussão: Cacá Diegues é um grande cineasta? Ou foi um grande cineasta?

A questão, se por um lado revela uma certa maldade e até desrespeito com o cineasta de “Ganga Zumba”, “A Grande Cidade”, “Chuvas de Verão” e “Bye, Bye, Brasil”; por outro, se lembrarmos dos filmes recentes de Diegues, “Tieta do Agreste”, “Orfeu” e “Deus é Brasileiro”, parece até ter algum sentido.

Digo algum, porque receio que tal questão sirva mais para escancarar uma certa arrogância por parte da crítica e até dos cinéfilos ao impor um juízo tão peremptório em torno de uma filmografia em construção, com bons e maus momentos, como qualquer outra, do que para servir de parâmetro a avaliação do novo filme.

Com certeza, tal questionamento mais atrapalha que ajuda a leitura de “O Maior Amor do Mundo” e revela também uma certa dificuldade que existe, nos mais diversos setores ligados ao cinema, quando se depara com um novo filme de um cineasta de renome do cinema brasileiro.

Por mais que se tente esconder, não há como negar que certos cineastas devido a suas atitudes políticas, filiações estéticas e postura gozam de maior ou menor prestigio no meio e isso influi numa critica menos ou mais generosa em relação aos seus filmes. Isso obviamente não deveria ocorrer, a crítica deve ser isenta, baseada em critérios técnicos etc e etc. Mas isso nem sempre ocorre.

Feito esse longo preâmbulo, assumo que não tenho simpatia alguma pelo cinema recente de Diegues. Seus últimos filmes pareciam apostar em paisagens turísticas e exóticas como garantia de sucesso de bilheteria, um Brasil bonito e maquiado em detrimento a um cinema mais verdadeiro, autoral e que trouxesse alguma contribuição a uma discussão política ou formal envolvendo o país ou o próprio cinema.

Cacá Diegues parecia ter dado um bye, bye ao cinema que praticou e se deixado seduzir por cifras, possibilidade de um grande público e até mesmo maior visibilidade no mercado externo. Com essas impressões, fui ver “O Maior Amor do Mundo” e vi algo bem diferente do que eu imaginava. O filme por esse aspecto me surpreendeu e é, sem dúvida, o mais autoral e mais expressivo de Diegues desde “Quilombo” que é de 1979 ou “Bye, Bye, Brasil” que é de 1978.

Mas isso, no entanto, não significa que Diegues tenha reencontrado seu melhor cinema. “O Maior Amor do Mundo” tem muitas qualidades, não por acaso foi premiado como melhor filme no recente Festival de Montreal, mas é também bastante irregular, sobretudo no seu aspecto formal. Chega a irritar alguns movimentos de câmera com os do primeiro encontro de Antonio (José Wilker) com Zezé (Lea Garcia). Além desse - ao meu ver, o mais gritante - há outros movimentos de câmera, planos e cortes que nada acrescentam ao filme, não ajudam a construir um sentido, ao contrário, causam um ruído, afastam o espectador do filme. Os que prezam a forma como imperativo para um bom filme, desprezando outras questões que o filme possa trazer: o seu conteúdo e ideologia, certamente, destruirão o filme e não sem alguma razão.

Mas, se pensarmos de maneira um pouco mais equilibrada, pesando forma e conteúdo, “O Maior Amor do Mundo” tem, sim, seus atrativos. O principal deles é que Cacá Diegues faz um filme mais sujo e, sem maquiagem, retrata de maneira mais honesta os personagens que agora prevalecem sobre a paisagem antes exótica e turística; consegue, ás vezes, com mais impacto, outras vezes de forma não tão bem sucedida, surpreender com rupturas na narrativa, seja com flashbacks, seja com registros mais realistas e documentais, evitando a narrativa mais convencional e fácil. Ousa um pouco, flertando com um outro tipo de cinema.

Um dado muito interessante do filme é o ponto de contato entre o personagem de José Wilker, um astrofísico brasileiro que fez sucesso nos EUA e volta para ser condecorado pelo governo, com o legista vivido por Ricelli no recente “Brasília 18%” de Nelson Pereira dos Santos e o personagem de Eduardo Tornaghi no “Príncipe” de Giorgetti. Todos os três são reconhecidos pelo seu trabalho no exterior e ao voltar ao Brasil, não conseguem mais reconhecer o país que deixaram e nem acertar as contas com o seu passado.

Esse olhar do cientista ou intelectual legitimado lá fora que não consegue com a sua razão compreender ou apreender a nova realidade do país parece, de certa forma, exprimir a mesma dificuldade destes cineastas, Cacá Diegues, Nelson Pereira e Giorgetti, de aprender e compreender o Brasil de hoje.

Se o cenário é diferente: Brasília, no caso de Nelson Pereira dos Santos; Rio, no caso de Cacá Diegues e São Paulo, no caso de Giorgetti, o quadro é o mesmo: personagens deslocados, céticos em relação à vida e ao país, que tentam se acertar com o passado, mas têm a vista turvada entre a realidade e a loucura e só fazem esbarrar em mortos vivos nesse tatear em busca de uma saída.

Mas no filme de Cacá Diegues, o social e o político são mais moldura que quadro. Dos três, é o menos preocupado em fazer um retrato do país, mas talvez seja o que se sai melhor nesse sentido. A coincidência entre a data de nascimento do personagem e a derrota do Brasil para o Uruguai na Copa de 1950 serve para embaralhar a história do personagem às relações sociais de uma cidade cindida entre ricos e pobres, morro e praia, brancos e negros, relações que se modificaram consideravelmente nos últimos 50 anos, mas que conduzem ao mesmo impasse, a mesma impossibilidade de síntese.

Antônio, personagem de José Wilker, é fruto desse antagonismo, é um pouco desses dois mundos e não é de mundo algum. Ao buscar sua verdadeira origem na Baixada Fluminense, visto que a morte se aproxima, o olhar desencantado mais revela a verdadeira situação dele e dos personagens que o rodeiam do que mascara a sua condição e a nossa, espectador, trágica condição.

Em outras palavras, Diegues deixa claro que Deus, além de não ser brasileiro, não está nem aí com a gente. A forma como Antônio se livra do corpo de Mosca (vivido pelo ótimo Sérgio Malheiros), por exemplo, é trágica por essência. E entre estar morto ou vivo e morto-vivo o filme nos diz que só no resta o amor, mesmo que breve.

Existe um belo filme em “O Maior Amor do Mundo”, um filme a ser descoberto se o olhar for mais generoso, um tanto quanto condescendente e menos preconceituoso. Não é uma obra-prima, não é um filme de apuro formal, é sim bastante irregular, mas é também poético e belo.
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