MEU IRMÃO QUER SE MATAR:


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Original: Wilbur Wants to Kill Himself
País: EUA
Direção: Lone Scherfig
Elenco: Jamie Sives, Adrian Rawlins, Shirley Henderson, Lisa McKinlay, Mads Mikkelsen, Julia Davis
Duração: 105 min.
Estréia: 07/09/06
Ano: 2003


Triste


Autor: Cid Nader

A diretora dinamarquesa, Lone Scherfig, já andou flertando com o "Movimento Dogma 95" com seu filme "Italiano Para Principiantes", angariando um misto de aprovação e repúdio bastante compreensíveis pela origem específica das opiniões. Os que acreditavam no "Movimento" - um manifesto pelo cinema das origens, no qual Lars Von Trier e Thomás Vinterberg repudiavam qualquer tipo de ingerência "técnica" na realização de um filme, como utilização de trilha sonora ou luz artificial para a melhoria das imagens, por exemplo - vibraram pelo filme como um passo adiante na empreitada, justamente pelo fato de ser o primeiro dirigido por uma mulher dentro das rígidas normas impostas a seus possíveis seguidores. E alguns dos que não gostaram já vieram com o repúdio embalado e guardado debaixo do braço, como que a querer demonstrar claramente seu ódio a um "truque de marketing", engendrado pelo "espertalhão" e "ditador" Von Trier.

Com a morte precoce do Movimento - para deleite dos que nunca acreditaram nele - os cineastas que conceberam obras dentro daqueles parâmetros, passaram a adotar as medidas usualmente exercidas para a construção de um trabalho nos dias de hoje, e Lone Scherfig não vestiu o manto de "pureza eterna" abandonado pelos que a antecederam. Em "Meu Irmão Quer Se Matar" a música está presente, as luzes são caprichadamente utilizadas e o filme tem edição mais elaborada. Uma realização multinacional - Dinamarca, França, Reino Unido e Suécia -, mas de alma essencialmente nórdica, onde se percebem todos os signos que fazem daquela região do planeta uma das mais "pródigas" em suicídios e tentativas de. Conta a vida de dois irmãos adultos que tentam sobreviver, cada um à sua maneira, num país rico e civilizado, nublado e frio. Harbor (Adrian Rawlins) é daqueles que se deixa pegar pela tristeza e dificuldades impostas pelo mundo, não relativizando-as o suficiente - muito ao contrário -, o que resulta numa mente que imagina o suicídio como a melhor e mais prática maneira de solução dos problemas. Seu irmão, Wilbur (James Silves), que também carrega em si os mesmos dilemas e dificuldades, relativiza e consegue tocar a dura vida em frente, trabalhando na livraria herdada do pai, que morreu há não muito tempo. Num dado momento, uma terceira figura entra em cena, Alice (Shirley Henderson), como um elo de ligação - ou um amortecedor - entre os irmãos, ou mais ainda, entre o modo de encarar a vida, executado por cada um.

A diretora construiu um filme de andamento triste, bastante acentuado pelo uso da luz de inverno, de tom particularmente melancólico na Dinamarca e países adjacentes. Já começa pisando fundo no acelerador das tristezas, apesar de injetar alguns esquetezinhos cômicos na dura primeira seqüência. Construiu também dois personagens bastante bem delineados, com suas características facilmente perceptíveis e bem executadas por cada um dos atores. Consegue passar toda a sensação de um ser que trabalha num negócio deixado pelo pai - Wilbur - e que vem carregado, também, com toda a necessidade implícita de comportamento de um primogênito educado para seguir com as obrigações pertinentes à sua colocação na escala de importância familiar. Antagonicamente, fica evidente e bem delineada a figura do caçula, que pode se dar o direito de atentar contra a própria vida e evitar qualquer tipo de ligação mais rígida com o mundo da sobrevivência, já que estará sempre ali, para "protegê-lo", a outra figura, que substituirá a paterna; sempre e sempre.

Quando entra a figura feminina em cena, o filme ganha uma conotação de teor mais amplamente mundial e menos isolada. Existe a união formal entre o irmão mais velho e a mulher, ao mesmo tempo em que passam a existir outras possibilidades dentro das perspectivas habitualmente cultivadas como o único modo de futuro, na maneira imaginada pelo mais novo. A diretora engendra uma espécie de "golpe sujo" para apaziguar o conflito de aspecto "mais mundial", e encaminha o final de seu filme - que já havia transitado por duas vias bastante distintas e competentes - para uma solução facilitadora e covarde. Não imagino o que sobressairá e restará na cabeça do espectador após a exibição da película: se o clima cinza e melancólico de personagens que habitam um país frio e de aparência exterior triste; se a dispensa ostensiva de qualquer ligação ao "Dogma 95" ou se a falsa tristeza que, substituirá a tristeza principal, já próximo do final de um filme triste.
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