FLORES DO AMANHÃ:


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Original: Xiang Ri Kui
País: Hong Kong/China/Holanda
Direção: Zhang Yang
Elenco: Joan Chen, Zhang Fan, Ge Gao, Wang Haidi, Zifeng Liu, Haiying Sun, Hong Yihao
Duração: 109 min.
Estréia: 07/06/09
Ano: 2005


Flores Murchas


Autor: Érico Fuks

Revolucionário, só o tema. “Flores do Amanhã”, novo filme do diretor Zhang Yang (“Banhos”, “Abandono do Sucesso”), narra a trajetória de Xiangyang de maneira bem linear. O ano é 1976, época da pós-Revolução cultural e das significantes transformações na China. A morte de Mao Tse Tung dá fim à tirania no país que procura se adaptar às novas regras de mercado mundiais. É o começo de uma transformação que irá determinar se a maior potência mundial conservará sua linha política comunista ou irá aderir ao capitalismo light. Mas o filme coloca a questão política apenas como pano de fundo de uma saga familiar. O pintor Gengnian passou anos preso num campo de trabalho, onde teve suas mãos deformadas. Sem mais nem menos, volta para casa para morar definitivamente com sua esposa Xiuqing e, de tabela, com seu filho de nove anos, Xiangyang, que, além de não reconhecê-lo, sente-se incomodado com a nova presença em sua vida. Nesse conturbado relacionamento entre a criança e o estranho no ninho nota-se um paralelo com a situação do país, onde os impulsos artísticos e de libertação, centrados na criança, sofrem as punições diante da presença da autoridade. Recusando-se a aceitar seu talento para pintura, Xiangyang deixa um explosivo destruir sua mão – uma tentativa desesperada de copiar o defeito de seu pai e destruir seu sonho de ver o filho na carreira artística. Enquanto isso, uma série de eventos conturbados cria uma China desligada de seu passado e de suas tradições.

O filme é dividido em três etapas da vida de Xiangyang, demarcadas na tela por fundo preto e lettering do ano em questão. Assim como numa revolução, qualquer que seja, cada período é representado como uma quebra em relação à fase anterior. A infância do protagonista é marcada por uma obediência contrariada. Há uma cena em que o garoto sente-se impedido de fazer suas necessidades no banheiro que registra bem esse fato. Já a adolescência é mostrada como um período de descobertas, principalmente afetivas. As primeiras ilustrações artísticas retratando o primeiro amor revelam uma China ensaiando impulsos em que a criatividade está diretamente ligada à libido. Já a terceira fase do filme mostra um Xiangyang adulto, careta, casado e bem-sucedido profissionalmente. Volta a ser um indivíduo engajado no sistema (desta vez, supostamente por opção própria), sem demonstrar maiores explosões pessoais e procurando reatar ligações truncadas do passado. Questões macroambientais como natalidade, casamento arranjado e obtenção de casa própria ganham maior ênfase neste trecho do filme. Mas tudo é pincelado en passant. Yang centra seu filme em tons melodramáticos mais íntimos. Abandona sua experiência de dirigir clipes de música underground para mergulhar em sons mais cartesianos. O percurso da trilha sonora não acompanha essas modificações pessoais e sociais, variando muito pouco sua escala monótona e insistente. Há alguns hiatos no entendimento do desenrolar dos fatos, com questões que não são suficientemente explicadas. Se o tratado político estivesse em primeiro plano, não haveria problema algum colocar esses acontecimentos num patamar secundário. Mas como tudo é muito delineado dentro de uma narrativa tradicional mais realista e monocromática do que fantasiosa, certas lacunas soam subjetivas demais. Acrescenta-se a isso uma força maior do conteúdo histórico do que das imagens propriamente ditas. Existem alguns tropeços na montagem entre plano e contraplano, principalmente quando há mudança na profundidade de campo dos atores. É um defeito menor, mas somado ao quadro geral indica que essas flores do amanhã não cheiram nem fedem.

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