CAFUNÉ:


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Original: idem
País: Brasil
Direção: Bruno Vianna
Elenco: Priscila Assum, Lúcio Andrey, Dilma Lóes, Tessy Callado, Carlo Mossy.
Duração: 70 min.
Estréia: 01/09/06
Ano: 2006


Por que tanta bronca?


Autor: Cid Nader

Alguns primeiros trabalhos no cinema consagraram definitivamente seus realizadores - mesmo que não tenham atingido o mesmo nível na seqüência da carreira. Ouvi reclamações fortes e ataques contundentes contra esse primeiro filme de Bruno Vianna. As críticas insinuavam que o diretor não sabia filmar, que não havia conseguido dirigir com destreza os atores, que alguns trejeitos de montagem eram apenas "trejeitos" mesmo - truques -, que o roteiro era capenga e contava uma história fraca na sua maneira de encarar o encontro de dois mundos muito distantes entre si no Rio de Janeiro - apesar da proximidade física. Mal humor exagerado contra um jovem em início de carreira.

Retratando a cidade maravilhosa na década de 1990, o filme trata de cruzar e juntar o casal de protagonistas logo nos primeiros momentos. Na praia - como não - o rapaz muito cara-de-pau, representado por Lúcio Andrey, aproxima-se de duas garotas para pedir uns "tapinhas" no "baseado" que partilhavam tranqüilamente - uma delas interpretada por Priscila Assum, será aquela que se aproximará e compartilhará o trajeto do filme junto a ele. Logo de cara, uma das cenas mais engraçadas obtida graças aos trejeitos e caretas do ator que, desprevenido ante a aparição de um policial, terá uma solução nada usual para dar cabo do que resta do cigarrinho. Mas ao mesmo tempo em que esse primeiro insite de humor arranca boas risadas, uma desconfiança perpassa rapidamente, colocando-nos em dúvida quanto à capacidade de representação do rapaz. Durante todo o filme essa dúvida persistirá, ante os olhares de olhos semi-cerrados, expressões corporais introvertidas - por vezes parece que dará um jeito de sumir dentro de si mesmo - e alguns cacoetes reincidentes - mas, aí já desponta uma evidente qualidade do diretor que demonstra saber utilizar-se desses "problemas" inatos do ator revertendo com capacidade o jogo, e extraindo virtudes dessa composição; numa demonstração de que sabe como resolver "problemas" na mesa de edição.

Enquanto a história progride, momentos de certeza quanto ao melhor modo de conduzi-la vão ganhando corpo e dando cara própria e particular ao produto que vemos crescendo. Bruno Vianna não se arma do discurso mais rancoroso que prega o isolamento entre os vários lados da sociedade como maneira mais correta e engajada de posicionamento. Cria, sim, uma espécie de interlúdio que apaziguará as diferenças, de maneira que sua história de amor, desníveis e personalidades próprias siga um rumo muito seu. Um rumo que evita o confronto - é lógico que se percebe o esforço para isso - mas que não mascara; utiliza-o espertamente.

O filme tem personalidade, gostem dela ou não. Tem bons momentos musicados e capricha na paisagem de cartão postal da cidade. Isso poderia ser ponta contra? Talvez, mas nada tão grave. Ao evitar as dificuldades da junção dos dois mundos, passando por sobre elas de maneira leve - irresponsável, esbravejaram alguns -, e colocando cada um dos dois protagonistas vivendo a realidade do outro a seu tempo, não passou a impressão de que o seu trabalho é uma peça alienada. Nem todo mundo é político o tempo todo - seria muito chato um mundo assim. Esperar que a unicidade social possa ser uma meta a ser alcançada, pode até parecer piegas, mas acho louvável quem tente por vezes fazer crer que é possível.

Imagino que somente o futuro poderá revelar, verdadeiramente, se o diretor cometeu um engano nesse seu primeiro trabalho ou se o que construiu foi uma singela peça de amor quase impossível. Cedo demais para criticá-lo tão violentamente, até porque, aquela cena final num pedalinho, sob as luzes de natal do Rio de Janeiro é um pequeno achado.
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