VOO UNITED 93:


Fonte: [+] [-]
Original: United 93
País: EUA
Direção: Paul Greengrass
Elenco: Christian Clemenson, Trish Gates, Polly Adams, Cheyenne Jackson, Opal Alladin, Gary Commock, Nancy McDoniel, David Alan Basche, Richard Bekins, Susan Blommaert
Duração: 90 min
Estréia: 01/09/06
Ano: 2006


"Vôo United 93" - sofrimento humano


Autor: Cid Nader

Quando mais se espera um filme que venha carregado de clichês para elevar o emocional às raias do insuportável, para que a dor do momento retratado seja sentida bem fundo pelo espectador mais distante - geograficamente e em idealismo -, para que qualquer um se sinta atingido como se fosse vítima presente no local e no momento, enfim, para que nos compadeçamos piedosamente pelo lado atingido naquele instante específico, o esperto e competente diretor britânico, Paul Greengrass, vem e realiza um trabalho com bastante de situações "clichesísticas" sim, mas de uma qualidade técnica tão primorosa que, se visto somente por esse quesito, o filme já mereceria um respeito tal na avaliação, que o histórico no gênero não indica. Acontece que o diretor não contentou-se em realizar uma obra de fortíssima qualidade visual, aprofundando o tema, opondo as duas realidades e suas razões, e mais, comprovando ao final da história que assuntos tão relevantes não podem ser tratados de modo simplesmente maniqueísta, dual, ao configurar uma trama que avalia algumas pontas a mais do que somente as duas mais evidentes nesse iceberg da complexidade humana.

Não que o filme fuja do esperado e manjado direcionamento à ação vertiginosa e às virtudes da raça ianque, mas o faz no momento exato, em setores estanques do filme, que é dividido em vários outros e atinge um grau de avaliações e possibilidades mais diversas e intrigantes que o comum em trabalhos similares. Filmado quase que o tempo todo com câmera "nervosa" na mão, com momentos de virtuosismo nauseante pelo excessivo e rápido deslocamento dos focos captados pelas câmeras, o diretor conseguiu demonstrar que essa "urgência" nas imagens, por vezes, tem sua razão de ser e nem sempre pode ser considerada como modismo gratuito. Ele quase nunca deposita suas lentes sobre um tripé, conseguindo captar de muito perto olhares, tremores e "pensamentos" dos que transitam pela película, evidenciando a "alma" de todos os personagens, antes mesmo de suas manifestações por atuação.

Quando inicia o filme perseguindo os momentos de preparação dos supostos realizadores dos atentados de "11 de setembro", o faz de maneira quase reverencial, lembrando dois filmes recentes que abordaram o tema terrorismo islâmico e a causa palestina: "Paradise Now" e "Invasão de Domicílio". De um , "chupou" os momentos de preparação antes do embarque mostrando que elas vinham sustentadas por forte - talvez único - apelo religioso, quase que recriando a cena de depilação de um homem-bomba. Do outro, usou toda a maneira de criar a tensão pretendida pelo filme com o comportamento muito semelhante da tal câmera na mão, já citada, e sua obsessiva procura das situações. Eu arriscaria dizer que o diretor viu os dois filmes. Os momentos "reverenciais", ou de respeito, se alongam por todo o decorrer das ações e, raramente, Greengrass tipifica ou caricaturiza em demasia os personagens - quando o faz, não é de modo a diminuir demais uns ou glorificar a mais, outros. Numa cena perto do final do desfecho da ação, inclusive, confronta os dois lados que se preparam para um inevitável embate e professam sua fé através de orações, realizadas com o temor do que acontecerá a seguir. Senti nisso um sinal de reverência e respeito.

"Vôo United 93" funciona exemplarmente como filme de ação; de suspense; de temor. Agitado inicialmente pela opção da câmera ágil, seu ritmo é dinamizado mais ainda pela sucessiva ação dos cortes e montagens, que embutem uma cena à outra sem tempo para respirar, criando universos paralelos em torno de uma, teoricamente, única história. Todos os momentos de preparação para o que viria a representar o mote condutor da trama, parece terem sido originados de cartilha sobre a maneira de proceder na construção de um filme do gênero. Mas essa construção "cartilhinesca" foi feita com muito tino e conhecimento de causa. As cenas nas torres de comando, nos momentos anteriores ao início da execução dos atos, quando se descobre aos poucos o que está ocorrendo, quando se passa da pasmaceira inicial ao estado seguinte que é o da ação heróica, os primeiros e, obviamente, tranqüilos momentos no avião, a utilização de cenas reais dos aviões que se chocam com as Torres Gêmeas, a inclusão fundamental dos militares - que se comportam o tempo todo de modo apatetado, fraco e burocrático -, a corretíssima atuação da enormidade de coadjuvantes e seus termos técnicos,enfim, todo esse entorno "pirotécnico" necessário a filmes de ação, são da melhor qualidade.

No final do filme, quando os inevitáveis atos de heroísmo - advindos da antevisão de uma morte certa - passam a encher a tela de adrenalina, nos vemos a torcer e comportar como seria o resultado a se esperar de um competente filme do gênero. Por mais que tenhamos nossas restrições à agressiva política exercida pelos Estados Unidos, mundo afora, o filme fala de seres humanos e consegue fazer com que percebamos o quão complexo é radicalizar os sentimentos e colocar todo mundo no mesmo pacote. Não somos e não agimos de maneira "única". Podemos até a ser omissos, podemos até nos fazer ignorantes, mas por vezes o fazemos por conveniência ou por ato impensado. O que importa, no fundo, é o fato de sermos humanos - no sempre desejável bom sentido do termo - e nem sempre compactuarmos com as atitudes oficiais; com as atitudes institucionalizadas. O que importa, no fundo, e isso o filme deixa transparecer - melhor, traz à tona - é que homens e mulheres sofrem e sofrerão por atos e rixas imaginados e cultivados por estâncias superiores.
Leia também:


O dia em que a terra parou