A DAMA NA ÁGUA:


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Original: Lady in the Water
País: EUA
Direção: M. Night Shyamalan
Elenco: Paul Giamatti, Bryce Dallas Howard, Noah Gray-Cabey, Jessica Graham, Cindy Cheung, Bob Balaban, Sarita Choudhury, Brandon Cook, Mary Beth Hurt, Freddy Rodríguez, M. Night Shyamalan, Brian Steele, Jeffrey Wright.
Duração: 110 min.
Estréia: 01/09/06
Ano: 2006


Mentiras verdadeiras


Autor: Fernando Watanabe

M. Night Shyamalan é um enganador. Não no sentido negativo da palavra; enganar, neste caso, pode ser visto como uma qualidade. O cinema clássico americano acredita essencialmente que a prática cinematográfica é a arte da ilusão. Aquele que melhor souber enganar é melhor cineasta. Shyamalan então consegue a proeza de trabalhar num território do cinema de gênero, ligado à indústria do entretenimento e a um esquema de publicidade milionário, tudo isso sem sacrificar suas crenças – a religiosidade é tema recorrente em sua obra -, sendo a mais importante, sua fé no cinema. Quando o personagem Vicky (interpretado pelo próprio diretor) está escrevendo um livro, a ninfa Story preconiza que aquela obra desacreditada irá mudar a vida de um homem, um futuro presidente dos Eua. Shyamalan, em meio a um panorama do cinema contemporâneo que cada vez mais se direciona ao não-narrativo hiperformal (principalmente os europeus), ainda acredita no cinema como forma de contar histórias, sendo estas fontes de inesgotável prazer.

Então talvez seja incorreto falar que Shyamalan mente, o que significaria que ele não diz a verdade. É mais apropriado dizer que ele subverte as convenções da tradição. Recorre aos elementos dos gêneros americanos somente para depois fazer um uso diferente deles. É dar uma pista para nosso imaginário viciado e saturado de códigos, para depois desviar o caminho que automaticamente esperávamos que ele seguisse. Antes que Story apareça, sua existência é sugerida por meio de diálogos e da trilha sonora de suspense. Espera-se que a criatura misteriosa seja ameaçadora. Quando finalmente ela é revelada, filmada, vê-se que ela é doce e bondosa, e veio com o intuito de ajudar. A mentira, enfim, é sempre relativa, pois só possui essa nomenclatura baseada naquilo que temos incrustado em nosso imaginário como sendo a verdade.

Shyamalan tinha uma grande responsabilidade após “A Vila”, filme considerado por muitos uma obra-prima. Claro, essa exigência é mais do público, da crítica, e dos grandes executivos da indústria, todos ávidos pelo consumo de produtos que possam satisfazer suas expectativas. Se quisermos ser justos, temos que nos desarmar de tudo isso a fim de receber de espírito – e olhos – aberto(s) seu novo filme. A fim de que suas mentiras para nós se tornem verdades, devemos olhar com a inocência da criança Joey (única criança com papel relevante no enredo).

A “Dama na Água” é um filme menor. Simples. Da grande vila e seus espaços abertos, para um condomínio fechado. Do grande grupo coletivo formado por famílias que habitavam suas casas, para uma reunião de moradores que residem em seus apartamentos, sem uma única família tradicionalmente composta (pai, mãe, e filhos). Do sentimento suspenso de conspiração global, para a sugestão de um mundo paralelo que afetará apenas a vida individual de cada um. Não há mais peregrinação da vila inteira pela noite soturna. Há apenas a aglomeração dos vizinhos em um banheiro para ouvir Story. E é justamente na diminuição de seus objetos que o cinema de Shyamalan encontrou uma forma, não de superar ou negar seu filme anterior, mas de dar continuidade à sua obra por meio de uma variação de escolhas. Pequenas escolhas. Grandes efeitos.

Story tem que voltar ao Mundo Azul. A criatura chamada Scrunt e os não menos maléficos Tartunics dificultam a realização de seu objetivo. Os moradores do condomínio talvez estejam predestinados a cumprir uma missão divina. Conseguirá Story atingir seu objetivo? Os seres humanos comuns da história terão mesmo um destino especial reservado a eles? No método Shyamalan, importa menos a resposta à essas questões do que o processo que leva a todas as resoluções do filme. A liberação de informações é gradativa, desvios de expectativas são constantes, e a câmera opera um jogo de revelar visualmente o que o texto verbal e o som sugerem aos poucos. Verdades mentirosas. Mentiras verdadeiras. É esse prazer do engano e da condução de um processo a conta gotas que diferem a Dama na Água da lógica totalizadora dos filmes de gênero de suspense mais tradicionais que, por subestimar o espectador, e por uma necessidade de segurança conferida por um sentido único, sempre explicam seus enredos de forma “redonda” em seus finais.

Essa forma de pensar é demolida simbolicamente por Shyamalan, na cena em que o bichano Scrunt devora o cético Sr. Farber, que não à toa é crítico de cinema cético e conservador. Claro, à primeira vista, a morte do crítico é vista como uma provocação gratuita de Shyamalan contra a crítica cinematográfica. Mas prefiro pensar nesta segunda leitura simbólica, a de que a cena é um ato natural – e talvez inconsciente – da afirmação do pensamento múltiplo e nunca fechado do cineasta.

No último plano, o Great Eatlon (a ave) resgata Story e parte de volta ao Mundo Azul. O cinema de Shyamalan alça vôo.

Sobrevoa um terreno pedregoso, o da indústria cinematográfica americana. Com bom senso para selecionar os clichês necessários, e com a exatidão para negá-los na hora certa e proporcionar novas descobertas. É extrair do conservadorismo suas potências criadoras. Shyamalan demonstra que essa conciliação é possível, atingindo o ponto de equilíbrio onde questiona a permanência dos códigos cinematográficos em nossas cabeças, ao mesmo tempo em que o faz de modo prazeroso, fluido. E, se olharmos como a criança Joey, aí sim sentiremos a força desta fábula simples.

Uma história de ninar. Coisa de criança? Certamente não, se aceitarmos o filme como uma metáfora da crença no imponderável geralmente perdida pelos adultos. Sem entrar no território das religiões, “A Dama na Água” sugere que acreditar nas histórias contadas pelo cinema e por outras artes narrativas ainda é possível. Porque tudo que passa, só se perpetua se é registrada em história. O que não o é, se perde no tempo. A veracidade dos fatos é o que menos importa, diante da força e da verdade dos sentimentos e das sensações evocadas pelo filme.

E saímos dele com a sensação de que coisas ocultas podem existir fora do cinema. Não bela ninfa Story, nem os bichanos Tartunics, mas sentimentos secretos que estão ocultos por trás das aparências e convenções verbais/visuais. Basta que olhemos melhor. Basta irmos ao cinema como o jovem Joey o faria.
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