O SABOR DA MELANCIA:


Fonte: [+] [-]
Original: Tian Bian Yi Duo Yun
País: França / Taiwan
Direção: Tsai Ming-Liang.
Elenco: Lee Kang-sheng, Chen Shiang-chyi, Lu Yi-Ching, Yang Kuei-Mei, Sumomo Yozakura
Duração: 112 min.
Estréia: 01/09/06
Ano: 2005


"O Sabor da Melancia" - não é sensual.


Autor: Cid Nader

Dizer que Tsai Ming-Liang trafega com seu cinema por caminhos tortuosos, os quais o ser humano - sempre procurando a beira do abismo para lá andar arriscadamente - insiste em percorrer, parece óbvio para quem já assitiu a pelo menos dois filmes seus. Esses caminhos não são de traçado reto e exclusivo, têm sim inúmeras vias secundárias: como a solidão, a desesperança, a carência afetiva, as incertezas e os medos sexuais. Seus personagens têm como meta a ser atingida a mais simples felicidade - isso poderia soar piegas se fosses exercício tentado por outro diretor. Acontece, porém, que esse diretor, malaio de nascimento e taiwanês na essência, não está a fim de facilitar as nossas vidas, cinéfilos e fãs de seu trabalho, que mesmo ressabiados e prevenidos quanto ao teor das histórias contadas por ele, quanto ao resultado de um novo filme, acabamos por nos encontrar, repentinamente, ao final desse seu "Sabor da Melancia", desamparados - novamente -; sem chão.

Ouvi várias opiniões após assistir ao filme, que não me levaram a conclusões mais bem delineadas - não digo que quisesse facilitações explicativas ou de caráter mais linear para me situar quanto ao sofrimento humano que a obra evidencia, mas queria, ao ouvir tais opiniões, um pouco mais de certezas sobre o que me foi contado e cantado pela obra. O trabalho do grande Tsai está - ou simplesmente continua ? - bastante amargo, descrente, sofrido, num contraste acachapante às risadas incomodadas que consegue arrancar da platéia em diversas ocasiões - é evidente que o diretor tem um humor atípico que ele infiltra em cada um de seus filmes, e não em pequena monta -, com situações de movimentos apatetados, e com seus números musicais de visual colorido e nostalgicamente "chinês saudoso de um capitalismo ocidental glamuroso que gostaríamos de preservar". Aliás, mais uma de suas características "estranhas" é o gosto pelos momentos musicais/coreografados, com os quais ele já havia delineado um formato atípico para "O Buraco" - talvez seu melhor filme; com certeza o único que aponta para um final de esperança e redenção.

A água está presente - ou melhor, ausente - como sempre. Taiwan passa por um período de seca histórico. Sob sol causticante os dois personagens principais vagueiam, em buscas muito particulares, que confluirão a um mesmo ponto; num dado momento. Eles já haviam se encontrado em outro trabalho do diretor - "Que Horas São Aí" - mas nesse momento cumprem funções bastante diversas em relação àquele outro filme. Schiang-Chyi ( Shiang-chyi Cheng) de volta da França para Taipei, carrega garrafas de plástico para procurar água em locais públicos. Reencontra, por acaso, Hsiao-Kang (Kang-sheng Lee), que agora é ator de filme pornô. Um romance sofrido inicia entre os dois - o amor, também, parece algo recolhido de profundezas muito complexas quando aflora nos filmes de Tsai.

E aí a coisa pega. Nesse filme, o relacionamento que irromperá entre os dois é levado às raias da tortura, da dor. Apesar dos momentos cômicos que surgem nos primeiros momentos do reencontro, a sina a ser seguida não aponta nada de lúdico ou facilmente belo. O filme entra numa espiral ascendente de sofrimento físico e espiritual. Torna-se o mais ostensivamente denso trabalho do diretor, entregando um peso ao espectador difícil de ser carregado. Os instantes de dor superam a comicidade e a musicalidade implantada a fórceps no trabalho, para revelarem-se os únicos que interessam - o diretor deixa isso bastante evidente.

Se em seus trabalhos anteriores uma complexidade exacerbada fazia o papel de "cicerone", algo em sua estrutura narrativa indicava caminhos de compreensão de motivos. A estrutura desse, quebrada demais aos sentidos, não deixou com que os meus, avaliativos, formulassem-no de maneira razoável. Imaginaria que com outros também pudesse ocorrer o mesmo, mas, surpreendentemente, ouvi opiniões que o acolhiam de maneira "inequívoca" como obra de alto teor sensual e "obra de amor" sem igual. Ou estão doentes, ou estou isolado, ou o mundo doentio já não parece tanto assim para algumas pessoas que estão se acostumando a ele - infelizmente, digo.
A solidão e o desejo de um porto, o sexo violenta e profissionalmente praticado, a explosão num jorro de todos os desejos, fazem dessa, obra mais incômoda que "O Rio", seu filme, até então, que mais em mim havia provocado dúvidas, incertezas, temores. Por ser obra de Tsai Ming-Liang respeito é bom e ele merece. Mas está longe de ser sua melhor obra.

P. S.: se enveredarmos pelo caminho que indica naturalmente "água/sexualidade", portanto "ausência de água/sexualidade represada", chegaríamos a uma conclusão: nuvens carregadas. Quando foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, 2005, "Nuvens Carregadas" foi o título provisório do filme.
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