LEMMING - INSTINTO ANIMAL:


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Original: Lemming
País: França
Direção: Dominik Moll
Elenco: Charlotte Gainsbourg, Laurent Lucas, André Dussolier, Charlotte Rampling
Duração: 129 min.
Estréia: 25/08/06
Ano: 2005


Ozon veio pra ajudar


Autor: Érico Fuks

Há uma proximidade absurda entre este mais recente trabalho do diretor Dominik Moll e seu anterior, “Harry Chegou pra Ajudar”. Existe em tese uma sociedade amalgamada na perfeição, e basta uma formiguinha pra destruí-la. Alain Getty é um engenheiro obcecado por tecnologia e vive um casamento perfeito típico de comercial de margarina com a suave Benedicte. Moram num imóvel de alto padrão e, quando chega em casa, só falta dizer “honey, I’m home” versão gaulesa. A rotina tranqüila do casal é abalada quando Alain convida para jantar em sua casa seu patrão, Pollock, e sua mulher, Alice. No meio do preparo dos pratos, um incidente complica tudo: a pia está entupida por um raro roedor da Escandinávia, o “lemming” do título.

Titubeando entre o surreal e o bizarro, Moll vai aos poucos destruindo a perfeição sólida das estratosferas sociais com um mínimo de movimentos e partículas teoricamente inofensivas. A exposição e venda de uma microcâmera autônoma conectada a um laptop do início do filme, que mais parece um besouro eletrônico, mostra o quanto o conforto propiciado pela alta tecnologia chegou ao ridículo. É a força hercúlea dessas minúsculas aberrações capaz de desmoronar qualquer estabilidade que o indivíduo procura pra si e pro meio social em que vive.

O filme ganha força com a presença de Alice que, óbvio, veio pra atrapalhar e não pra ajudar. A atriz Charlotte Rampling beira a perfeição ao reproduzir uma senhora desagradável, tão mesquinha quanto mediúnica. Parece cega, parece feita de gelo. A penúltima cena em que aparece é antológica.

Embora traga alguma semelhança consigo mesmo, é em Ozon que o diretor espelha sua influência e admiração. As complicadas relações sociais estão mergulhadas num vazio de vontade de viver. O luxo que não sacia o tédio pode ser reparado em “Swimming Pool” e “Gotas d’Água...”, por exemplo. Mas é em “Sitcom” que o diretor cola este ratinho encrenqueiro. O núcleo fechado familiar que toma outros contornos com a presença supra-real de um mamífero coadjuvante ao contexto neurótico é a prova mais viva da referência. Ambos são discípulos buñuelísticos desse teatro do absurdo cujos alicerces estão tomados por cupins. Um já provou seu talento. O outro tá seguindo seu caminho dentro dos forros e dos canos da sociedade de alto padrão.
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