TRAIR E COÇAR É SÓ COMEÇAR:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Moacir Góes
Elenco: Adriana Esteves, Cassio Gabus Mendes, Ailton Graça, Bianca Byington, Mônica Martelli, Otávio Muller, Marcia Cabrita, Mario Schoemberger, Thiago Fragoso, Cristina Pereira.
Duração: 92 min.
Estréia: 25/08/06
Ano: 2006


"Trair e Coçar, É Só Começar" – pode ser coceira de raiva. Como um tique nervoso, sabe?


Autor: Cid Nader

Por vezes fico imaginando se seria mais interessante deixar de comentar sobre a performance de alguns filmes brasileiros que já se mostravam produtos que não iriam resultar em boas obras, antes mesmo de seu lançamento, quando confirmo que a "catástrofe" antevista se concretizou. É muito chato falar mal de produtos cinematográficos gerados nesse nosso país que não privilegia o veículo e, quando o faz, normalmente agracia quem menos precisaria de tais benécies - diretores consagrados, engajados no sistema, que conseguiriam os proventos necessários junto à iniciativa privada ao simples mencionar de seus nomes. Mas, deixando os desvios analíticos de lado e centrando o foco da discussão no produto pertinente, o que quis dizer com esse preâmbulo meio insano e choroso foi que ao saber que a peça de extremo sucesso teatral que originou esse produto estava sendo filmada maus agouros passaram a dominar meus sonhos.

Não basta ser sucesso no teatro para gerar, automaticamente, obra cinematográfica consistente - muito ao contrário, pois o trabalho de adequação tem de ser realizado com competência, serenidade, sabendo-se que a transformação de linguagem e a mudança de veículo requerem minucioso processo de transporte e gente correta para executar tal empreitada. O diretor Moacir Góes não é homem de televisão - um fato que tem acometido o cinema com resultados deficientes pela intrincada e particular maneira de se transitar em cada uma das duas "instituições" - portanto, por lógica, de um dos males possíveis de contaminação deveríamos estar livres; quando cito a televisão no meio desse enrosco teatro/cinema, o faço pela origem dos atores que protagonizam o filme. Mas também não está entre os diretores capazes de proezas espetaculares que resultem em obras inesquecíveis. Ao aceitar filmar a peça, assumiu um risco – o da comparação – que deveria ter trabalhado na cabeça antes do início do trabalho.

O roteiro adaptado para o cinema foi feito por Marcos Caruso, um dos autores da peça. Já imagino, de cara, que tal escolha não represente um bom ponto de partida para um possível distanciamento entre filme e teatro. E, de fato, o que resultou foram situações repetidas, recheadas de diálogos e situações de bom tamanho para ser representada num palco. Na entrevista coletiva, outra coisa que chamou a atenção foram os exagerados “salamaleques” dirigidos à atriz e protagonista central da comédia, Adriana Esteves, por Moacir. Passou a impressão de ser obra encomendada para o desempenho da atriz e que tudo teria saído a seu contento. A dramatização é pífia, o desempenho da protagonista de Olímpia – a empregada peça chave – chega a ser constrangedor, incomodando em momentos em que ela executa uma dancinha recheada de trejeitos inventada por ela, com muito orgulho – por palavras da própria atriz, percebe-se seu extremo orgulho por tal sacada (a dancinha). Além do mais, a maneira imaginada para se arrancar gargalhadas de platéia ou cinéfilos – que é a de uma suposta exaberção das “poucas qualidades” de quem exerce a profissão de empregada doméstica, rebaixando-as a seres de pouca capacidade mental ou, quando não, que a utilizam para ludibriar e se safar de futuras broncas – é de uma simplificação de conceitos absurda, que beira o segregacionismo. Não quero agir como os norte-americanos, que imaginam pecado em tudo se culpando demasiadamente por erros contra a dignidade humana (num patamar mais amplo) e esqueceram que existem fronteira entre obra e realidade, entre comédia e verdade racista, criando o tal do politicamente correto que é utilizado, por vezes, de maneira rancorosa e irracional. Mas que o texto excede em liberdade ou ingenuidade, excede.

Quando se briga tanto pelo cinema brasileiro, quando vibramos pelo aumento das produções e pelo conseqüente “abrir de portas” de mais salas a essa produção, a idéia principal é a de que tenhamos obras mum pouco mais dignas de serem assistidas – mesmo com erros -; que não venham, por origem concepcional, com máculas previstas.
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