O TEMPO QUE RESTA:


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Original: Le Temps Qui Reste
País: França
Direção: François Ozon
Elenco: Melvil Poupaud, Jeanne Moreau, Valeria Bruni Tedeschi, Daniel Duval, Marie Rivière, Christian Sengewald, Louise-Anne Hippeau
Duração: 85 min.
Estréia: 25/08/06
Ano: 2005


Sobre a areia


Autor: Cesar Zamberlan

Lembro como se fosse hoje da projeção de “Sitcom” na 22º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo numa sessão às 23h no cinema do Maksoud Plaza em 1998, sala aliás bastante interessante para ver filmes devido a sua inclinação e poltronas, era uma das melhores sessões da Mostra, pena que deixou de existir. Ozon na época era mais um dos desconhecidos da Mostra e não havia grande expectativa em relação ao filme, mas logo nos primeiros minutos de projeção já se percebia um cineasta talentoso e provocador. A projeção, no entanto, não chegou ao final devido a problemas, se não me engano, no projetor, mas o que se viu era bastante promissor.

Depois do corrosivo “Sitcom”, batizado aqui com o nome de “Uma Linda Família”, Ozon nos apresentou “Amantes Criminais” de 1999; “Gotas d´Água sob Pedras Escaldantes” de 2000, baseado numa peça de Fassbinder; “Sob a Areia” também de 2000, no qual ele dá uma guinada para um cinema mais sóbrio; o surpreendente musical “8 Mulheres” de 2001,com um elenco feminino inigualável: Catherine Deneuve, Isabelle Huppert, Emmanuelle Béart, Fanny Ardant, Virginie Ledoyen, Danielle Darrieux, Ludivine Sagnier e Firmine Richard e “Swimming Pool” em 2003, talvez seu filme mais fraco.

Esse ano, dois novos filmes do diretor chegaram a São Paulo “Amor em Cinco Tempos” de 2004 que continua em cartaz,as cenas de um casamento de Ozon, e “O Tempo que Resta” que é de 2005 e estréia nessa sexta.

Esse último tem um parentesco evidente com “Sob a Areia” de 2000, trata do mesmo assunto: a morte. No primeiro, Ozon falava sobre o enlutamento repentino. Charlotte Rampling, magistral, é Marie Drillon uma professora que está numa casa de praia com o marido quando este some misteriosamente. “Em o Tempo que Resta”, a morte aparece de outra forma, mas não menos repentina: Romain, fotógrafo de moda, recebe a notícia que tem um câncer terminal e que pouco tempo lhe resta.

Mas, diferente, de outros filmes que retratam o tema, o grande achado de Ozon, e talvez aqui exista uma aproximação com outros trabalhos da fase inicial do diretor, é a forma pela qual ele trata a questão, o cineasta não transforma a morte certa num ato espetacular de redenção do personagem. O personagem criado por Ozon é seco, antipático, arrogante e não cria nenhuma empatia no espectador. Fato que, num primeiro momento, nos afasta do filme, mas que nos leva depois a ver o filme de outra maneira.

Esse incomodo, presente em outros filmes de Ozon, coloca o espectador numa outra posição em relação ao filme e ao tema, com um distanciamento propicio a outro tipo de reflexão. A forma como o filme se concebe também passa por esse critério: tem a mesma aspereza nos cortes e nos enquadramentos. Ozon não facilita, tanto na forma como cria os personagens e na forma como encadeia as seqüências.

Vencido esse estranhamento inicial e com o espectador recolocado no filme mas sob um outro ângulo, outras questões são discutidas e a principal delas é a forma como Romain lida com a família, namorado e com seu passado, agora que a morte se aproxima. A aceitação da morte passa por um curioso processo de aceitação da própria vida que o personagem sempre negou, seja ao recusar o ar materno da irmã, ao não aceitar a hipótese de uma paternidade e ao se portar de maneira destrutiva em relação a tudo e a todos.

Longe de ser moralista, Ozon, ao punir seu personagem com a morte, mostra que é esse o sentido inexorável da existência, “a morte governa tudo”, diria a personagem de um outro filme em cartaz em São Paulo. A redenção, se é que existe, se dá num plano muito mais interior, o da aceitação do trágico da existência, do que num nível exterior, da superação heróica que comove tanto o entorno do personagem dentro do filme como o espectador fora dele.

Duas outras questões do filme precisam ser melhor exploradas, quem sabe com uma revisão do filme: a relação do personagem com seu eu criança que o diretor explora em vários momentos, Romain relembrando a infância, sonhando com ela ou vendo-se criança e o outro, relacionado a aceitação da vida pela certeza da morte, quando o fotógrafo ajuda um casal a ter um filho, momento aliás típico de um Ozon da primeira fase.

Ozon não nos entregou ainda a sua obra-prima, parece estar bem perto dela. A última imagem dele é a genial seqüência final de “O Tempo que Resta”, sobretudo a do plano mais aberto com o sol se pondo e as pessoas deixando a praia. Esperemos por “The Real Life of Angel Deverell”, seu próximo trabalho.
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