MIAMI VICE:


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Original: Miami Vice
País: EUA
Direção: Michael Mann
Elenco: Colin Farrell, Jamie Foxx, Li Gong, Luis Tosar, Naomie Harris, John Ortiz, Barry Shabaka Henley, Ciarán Hinds, Elizabeth Rodriguez, Justin Theroux
Duração: 134 min.
Estréia: 25/08/06
Ano: 2006


"Miami Vice" - a confirmação de que Mann já é uma escola; uma referência


Autor: Cid Nader

Michael Mann já pode - ou deveria - ser considerado um autor e não apenas um diretor dentro da história do cinema. Diretor de tez absolutamente autoral, vem confirmando com o passar dos anos um estilo próprio que privilegia, sim, um apuro técnico danado, um cuidado exagerado com a construção das cenas de ação, uma maneira muito própria e particular de revelar as cenas de violência ou velocidade que recheiam seus filmes - afinal de contas sua obra, invariavelmente, tem observado o sub-mundo, feito dele seu centro de estudos, de análises, e é sabido que transitar por esse "eco-sistema" requer um pouco mais de determinação física, digamos assim, um pouco mais de "um olho no gato,o outro na sardinha". Acontece, que essa sua espécie de fixação em filmar tal fatia do cotidiano americano, extrapola a simplista observação de carros que explodem, sangue que jorra, perseguições fantásticas, para melhor definir-se como um ato de observação do ser humano envolvido por todo esse entorno radical; o agente de suas histórias - que podemos também compreender como único ou todo um grupo que o diretor analisará, isolando um a um, e emprestando definitiva importância a cada componente dele - é na realidade, sob uma visada mais minuciosa e atenta, o grande fator de importância de sua obra; é o ser que deflagra o gatilho ou pisa no acelerador, mas que comparece ao filme recheado de angústias e, normalmente, isolado num contexto de arregimentação social mais amplo.

"Miami Vice" não escapa dessa regra comum aos trabalhos anteriores desse diretor americano que demonstra ter um certo pé na insanidade quando encara o momento de realização de suas obras - aparentemente, por notícias e histórico, Michael Mann costuma despirocar quando filma, envolvendo-se de tal maneira na construção de seu trabalho que poderia facilmente confundido com um de seus personagens angustiados, solitário se necessitado; apesar de o resultado final sempre demonstrar que uma obra regida por um altíssimo controle da situação foi concretizada e que nada do que vemos na tela foi feito sem um mínimo de rigor. O filme, oriundo de uma série televisiva do início dos anos 1980, reativa em nossa memória aquele setor no qual adormeciam os detetives Ricardo Tubbs e Sonny Crocket que, no caso atual, são interpretados pelos atores Jamie Foxx e Colin Farrell - aliás uma brincadeirinha: nos tempos atuais, com um humor televisivo regido por piadas de duplo sentido, vide Pânico ou Casseta e Planeta, os sobrenomes de nossos queridos detetives de plantão são um prato cheio para paródias. Mann já fazia parte do projeto nos tempos do seriado como produtor executivo mas que, dizem os entendidos, na realidade, cumpria o papel de pai intelectual da série. Ao retomar de maneira mais abrangente o "petit" para si, resolveu que no cinema ele teria a liberdade de dar saltos maiores, esquecendo dos cerceamentos naturais que o veículo televisão impõe aos seus produtos e enveredando por territórios muito mais complexos, nos quais poderia ousar em denúncias que extrapolam o complexo Condado de Miami para enveredar pelo razoavelmente mais complexo relacionamento internacional que gere o mundo das drogas.

Os dois detetives são designados para assumir o papel de traficantes de droga, após o assassinato de alguns agentes do FBI, numa emboscada, e conhecem o extremamente bem organizado esquema de um chefão do crime, Arcángel de Jesús Montoya (Luis Tosar), que é gerenciado pela bela e sensual Isabella (Gon Li). A trama atravessa as fronteiras e parte em busca das mecas das drogas, passeando pela Colômbia, Paraguai, Brasil, Cuba e algo mais, numa corajosa e talvez afobada maneira de avaliar quem são os verdadeiros financiadores dessa grande indústria mundial - imagino que Michell Mann tenha talvez sido um tanto "mono-analisador" quando não cita os Estados Unidos como o grande comprador, e incentivador, de tal comércio; apesar de não ter inventado inverdades quanto aos que acusa durante o filme. A trama ultrapassa as evidentes fronteiras físicas para ser realizada, mas ultrapassa também as fronteiras individuais de vários de seus personagens, ganhando contornos especialíssimos quando um relacionamento se inicia entre Crocket e Isabela, fazendo com que as características aparentes da personalidade de cada um se transformassem com o passar do tempo, e fazendo com que setores adormecidos ou entorpecidos ganhassem corpo, sobrepondo-se às camadas mais evidentes que determinam o comportamento cotidiano - aliás, essa é uma das características do trabalho de Mann com seus personagens, o que faz com que seus filmes ganhem nuances e sombras para quebrar a chapada luz que unifica personagens em outros filmes de ação. Um dos momentos de excelência do filme é resultado justamente do relacionamento dos dois: em meio a um tiroteio que acontece próximo do final, as expressões de dúvida e evidente conflito de sentimentos que se apoderam do personagem vivido pela belíssima e sensual Gong Li, são tão nobremente filmados, tão belamente repassados para nós, espectadores, que já valeriam o ingresso. A partir desse momento específico o seu contorno facial muda de expressão, estupendamente - méritos, óbvios, também que só conseguiriam ser obtidos por uma grande atriz.

Por falar em momentos de excelência, "Miami Vice" é pródigo neles. Quando Mann deposita uma pequena câmera de alta-definição no banco traseiro de um carro, que será destroçado por balas juntamente com seus ocupantes, uma das aulas do mestre é contada - o realismo obtido é tão verdadeiro e acachapante que a reação mínima obtida após seu término é a de um som de suspiro de alívio na sala de projeção. A maneira como filma dois aviões sem pleno vôo, com imagens captadas de um outro, criam uma espetacular sensação de leveza, de que algo mais leve que o ar pode existir mesmo em máquinas possantes. Outros grandes momentos são obtidos quando foca suas lentes em lanchas velozes que cortam o oceano, filmadas de cima, de lado, de longe, chegando ao cúmulo de captar conversas e as respectivas expressões faciais de quem está dentro da lancha a mais de cem quilômetros por hora como se filmasse um bate papo no saguão de um hotel tranqüilo. Tecnicamente, as cenas filmadas à noite são de um primor e "clareza" inacreditáveis - e olhe que uma boa parte do filme é rodada à noite. Outro grande exemplo de rigor estético acontece numa cena desenhada para chocar sem o apelo do óbvio enojante, quando um caminhão passa por cima de alguém e o que se vê é um traço vermelho sendo riscado no asfalto.

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