ANJOS DO SOL:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Rudi Lagemann
Elenco: Antônio Calloni, Chico Diaz, Otávio Augusto, Vera Holtz, Darlene Glória, Fernanda Carvalho, Bianca Comparato, Mary Sheyla, Caco Monteiro, Antônio Gonzalez, Evelin Buchegguer.
Duração: 96 min.
Estréia: 18/08/06
Ano: 2006


Sol que chove mas não molha


Autor: Érico Fuks

Os créditos finais do filme assumem que o trabalho é inspirado em relatos oficiais divulgados por organizações humanistas e reportagens jornalísticas, mas não é baseado em nenhuma história verídica específica e particular. Menos mal para o diretor e roteirista Rudi “Foguinho” Lagemann, que foge um pouco dessa tendência de inflar sua contundência ao cinema respaldando-se em situações verdadeiramente acontecidas. Trata-se sim de um filme que procura fazer uma reflexão sobre a escuridão da prostituição infantil e, portanto, balizar críticas que dizem respeito à omissão dos órgãos públicos em trazer soluções para esse problema social tão antigo. Em época de eleição este filme vem a calhar, pois traz à luz solar uma questão tão preterida quanto o desmatamento da Amazônia ou a escravidão mirim, pois sabemos que, nesse período pré-sufrágio, assuntos metropólicos como a segurança e o desemprego rendem mais votos. Mas, por outro lado, “Anjos do Sol” recebeu todo um tratamento ficcional que o distancia dos plantões de polícia e o aproxima de narrativas mais noveleiras e folhetinescas. Até porque, a não ser para os gringos que se espantam com um “Favela Rising” da vida, este filme redunda fatos calejados e mergulha num contexto em que as verdades noticiosas são mais bruscas e mais ásperas que a opereta dramatizada.

“Anjos do Sol” inicia-se em uma trajetória roadmoviana acompanhando o destino de Maria, abandonada pelos pais que não têm condições de criá-la e vendida a um caixeiro viajante por míseros trocados. Neste intróito recheado de participações especiais de atores consagrados (a começar por esse mercantilista vivido por Chico Diaz), mostra-se o quão imenso é quão seco é este país, que permite longas caminhadas sem nada oferecer durante seu percurso. É o paradoxo deste Brasil da seca e da urna eletrônica: gigante em sua natureza e paupérrimo em suas oportunidades de vida. Maria passa de mão em mão a mercenários inescrupulosos, como se fosse mercadoria contrabandeada de uma carga pesada e triste das rodovias esburacadas nordestinas. Quanto mais peregrina, mais distante fica da cidade grande e, de tabela, de sua família nada acolhedora.

Aí está um ponto a seu favor. Enquanto que normalmente esse tipo de filme-trajeto busca de uma forma ou de outra a liberdade, caracterizada por diferentes tipos de motivações, “Anjos do Sol” caminha progressivamente para o aprisionamento. A jornada de Maria culmina com sua chegada a um prostíbulo precário e imundo, propriedade privada do sórdido cafetão vivido pelo ator Antônio Calloni. São suas atitudes exageradas que apimentam um pouco mais a trama. Dá TV e perfumes baratos a suas rameiras, mas deixa todas elas trancafiadas em seus quartos pulguentos. Estupra todas as marinheiras de primeira viagem pra depois rezar pra Virgem Maria pagando seus pecados. Numa cidade ensolarada fora do mapa entende-se melhor o valor cáustico e irônico do título do filme, talvez a melhor coisa de todo este trabalho. Roga-se por um anjo capaz de salvar a alma de toda essa tribo condenada, mas esse arcanjo salva-vidas nunca aparece. Nesse presídio de segurança máxima erguido nos cafundós de lugar algum, as preces não chegam aos ouvidos divinos.

“Anjos do Sol” resume-se a um trabalho reciclado dentro de um contexto Vidas Secas com ares de cinema iraniano. A miséria social fotografada sob os olhares de uma criança, a pureza que se perde ou se reavalia no percurso, são alguns traços recorrentes na cinematografia médio-oriental citada. Adiciona-se a isso um pouco da violência latino-americana do lado de cá do globo e pronto, tem-se um filme particularmente brasileiro para ser visto por platéias globalizadamente universais. Mas o maior problema do longa é essa vontade de mixar formas e idéias, evitando cair em rótulos. É mas não é um filme-denúncia, pois se utiliza de verdades escondidas porém atenua a força dessas manchetes com um tratamento narrativo mais teatralizado. Mescla o vigor das atrizes com pouca experiência interpretativa, talvez o lado persa mais “verdadeiro” do filme, com o domínio e as hipérboles de nomes consagrados frente às câmeras, numa atitude compensatória que busca o equilíbrio dramático. Lagemann parece que filma com camisinha. Sai pela tangente ao dosar a sirene da polícia com os solfejos do rádio de pilha. Com esse vai-pra-lá-vai-pra-cá, escancara mas não assume maiores responsabilidades diante desse problema grave, diluindo o impacto da película. Isso dá a sua obra uma baixa temperatura cinematográfica. “Anjos do Sol” é morno e sujeito a instabilidades, angelicalmente assexuado demais pra falar de coito sociológico.

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