A CASA DO LAGO:


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Original: The Lake House
País: EUA
Direção: Alejandro Agresti
Elenco: Keanu Reeves, Sandra Bullock, Shohreh Aghdashloo, Christopher Plummer, Ebon Moss-Bachrach, Willeke van Ammelrooy, Dylan Walsh.
Duração: 105 min.
Estréia: 18/08/06
Ano: 2006


"A Casa do Lago": um filme de Alejandro Agresti


Autor: Cid Nader

Antes dessa explosão cinematográfica que ocorreu nos últimos anos na Argentina, que resultou no surgimento de uma quantidade razoável de novos diretores com algo mais consistente a dizer, alguns com trabalho de nítido cunho autoral, num processo de causar inveja - pela dinâmica de ares renovados e idéias mil -, um jovem nome já havia surgido e firmava sua assinatura perante o cenário mundial, colocando o país vizinho na mira dos que garimpavam um bom cinema: Alejandro Agresti. Com um cinema que já apontava para a fuga da normalidade careta da capital como algo a ser explorado, ele foi a rincões esquecidos por um cenário cultural que sempre copiou o modelo europeu relegando o resto do país ao reconhecimento pelo folclórico, pelo pitoresco, e passou a mostrar um país que não era somente tango, futebol e churrasco. Em contrapartida, de maneira estranha à compreensão mais superficial, radicou-se na Holanda, e passou a ter seus projetos bancados justamente pelo capitalismo/artístico europeu que serviu de meca aos autores platinos por décadas.

Mas, continuou a filmar os seus; os mais desconhecidos entre os seus. Causou um certo "furor" com "El Viento Se Llevó lo Qué" - uma brincadeira com o título de "E O Vento Levou" -, fez a cabeça de outros com "El Acto en Cuestión", apresentou o não tão bom - mas super-valorizado - "Uma Noite Com Sabrina Love", e, sempre profícuo, ganhou um maior reconhecimento popular com "Valentín". Tem uma extensa obra, e quase sempre primou por filmar sua terra natal. Agora dá, talvez, o seu primeiro salto em direção ao grandioso cinema de penetração mundial com "A Casa do Lago".

Produção totalmente internacional, para um autor que sempre divulgou seu terreno, o filme é um remake de um grande sucesso coreano do ano de 2000, "Siworae" ou "Il Mare", rodado nos Estados Unidos e com a participação de um casal de protagonistas centrais capazes de fortíssimo apelo popular: Keanu Reeves (Alex Wyler) e Sandra Bullock (como a médica Kate Forster). Os mais apressados torceram o nariz ante a possibilidade de uma fita protagonizada pelos dois atores ter algo a mais para dizer do que simples e tolas palavras de amor puritano. Porém, esqueceram - ou não conheciam - as qualidades e as possibilidades artísticas que um produto originado das mãos de Alejandro terá a oportunidade de alcançar. A história escolhida, por si só, já apresenta possibilidades muito superiores a serem exploradas do que o roteiro de um filme de amor linear. Sim, é um filme de amor! Mas se passa em tempos diversos - cronologicamente diversos.

Existe um espaço de anos a separar os possíveis encontros do casal. Habitam a mesma casa, em anos diferentes. Aos poucos, por pequenas sutilezas como uma data num recado ou um frio inesperado, percebem que não habitam o mesmo tempo físico. Ela, que se tornou médica e num "presente" particular mora em Chicago, egressa da pequena cidade que habitara em anos anteriores - e da mesma casa, de interior devassado aos olhares, construída sobre um lago - e ele que, em seu próprio "presente",também habita a mesma casa, sobre o mesmo lago, raspando pelas mesmas histórias. Há um elemento de ligação mais palpável - digamos assim - entre os dois em seus próprios tempos: a cachorrinha Jack, que viveu com Kate em seu momento na casa e continua (ou continuava, ou continuou ...) a viver com Alex; em seu momento. Na realidade há um outro elemento palpável a ligar o caminho dos dois: a caixa de correspondência, diante da qual Agresti conseguiu criar uma das mais emocionantes cenas do cinema recente, com uma Sandra Bullock prostrada, quase a rezar, à espera de um milagre - emocionante; ousaria dizer que possível pela origem platina/latina do diretor que a concebeu.

O filme não pode ser entendido como uma obra baseada no simples ir e vir das situações - improváveis se pensadas racionalmente, mas de teor altamente ligado à liberdade poética que o cinema propicia. Até porque o diretor não o concebeu com a linearidade normalmente utilizada em obras que transitam dentro desses momentos não lineares. Por várias vezes os momentos se confundem a mais do que a tentativa de compreensão tenta desesperadamente delinear. Momentos que só se revelam aos mais atentos por pequenos detalhes de cenário, de vestuário, de expressões ou falas largadas a esmo. Alejandro Agresti construiu seu filme com delicadeza, bom gosto, fotografia exemplarmente limpa - não careta - e música de bom gosto ao extremo - uma característica do diretor. A bela e emocionante música do ex-beatles, Paul McCartney, "This Never Happened Before", poderia, até, ser considerada como a síntese da essência do filme. Mas, os movimentos de câmera - em 360 graus e até um pouco mais - também podem servir como tal síntese, a partir do momento em que o diretor coloca um ou outro dos atores em situações e locais anteriormente ocupado - por um ou outro -, num esperto e bem utilizado truque mecânico.

O filme tem lá sua paridade com a obra de Julio Méden, "Os Amantes do Círculo Polar", na maneira de contar a história de um amor que parece impossível, no momento de maior aproximação possível entre o casal - a céu aberto - em circunstâncias que poderiam ser de teor altamente traiçoeiro à torcida do espectador. E aí, nesse momento, os dois filmes voltam a se distanciar e os finais revelam-se absolutamente particulares. Pode-se dizer que algo essencial à trama não consegue ser satisfatoriamente dissimulado pelo diretor e revela-se, aos mais atentos, com o decorrer da película. Mas aí vem uma questão: descobrir isso é realmente importante? Se fosse um thriller policial, sim. Mas no caso, um deslavado filme de amor, pouco importa se algo for descoberto, ou se esse algo implicará em uma chance a mais. Importa, que Alejandro Agresti concluiu um dos mais belos filmes dos tempos atuais, e que sofrer por amor talvez seja o único sofrimento que compense.
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