CLICK:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: EUA
Direção: Frank Coraci
Elenco: Adam Sandler, Kate Beckinsale, Christopher Walken
Duração: 98 min.
Estréia: 11/09/2006
Ano: 2006


Adam Sandler num profundo conto de fadas


Autor: Cid Nader

Quando se ouve o nome, Adam Sandler, risos incontidos passam a causar espasmos involuntários em uma grande parcela de cinéfilos apaixonada pela comicidade desenfreada, e um tanto escatológica, normalmente exercida pelo ator. Pródigo em alavancar alguns filmes com a sua presença é alvo preferencial de alguns diretores que necessitam alcançar objetivos que só poderiam ser atingidos com a presença única e insubstituível do ator. Paralelamente, existe uma necessidade ancestral de se categorizar filmes e “Click”, apropriadamente, é definido como “comédia” pelos distribuidores, colunas de jornais e cartazes afixados nas salas de cinema. Não imagino se Sandler optou por atuar nesse filme baseado nas possibilidades engraçadas que estão, sem dúvida, atreladas ao desenrolar da história. Mas, ouso imaginar que ele talvez tenha optado por dar mais um passo na direção oposta do que determinou sua existência e crescimento no cinema mundial – a comédia – em direção de possibilidades mais dramáticas; como se numa tentativa de mostrar que é um ator de espectro mais amplo, não “apenas um comediante exagerado”.

Frank Coraci, o diretor, não desenhou uma obra que possa ser classificada, como certeza única e simplista, por comédia. Seu filme transita por áreas do comportamento humano – dos desejos, também – que advêm de regiões muito mais profundas; distantes do que nos apresenta o pensamento lógico como as únicas existentes. Quando imaginou um controle remoto com poderes além da conta, que simplificaria os momentos de dificuldades pelos quais seu personagem principal, Michael Newman (Sandler), teria que passar, realizando desejos, como um gênio da lâmpada, sem nenhum tipo de empecilho temporal para atrapalhar, invadiu possibilidades não facilmente identificáveis com um poder semelhante e oculto ao dos contos de fadas. “Click” remete seu personagem principal ao fantástico mundo do “tudo realizado a um simples toque de botão” e, nesses momentos iniciais onde tudo parece correr às mil maravilhas, nos entrega um Adam Sandler pisando os terrenos muito seguros – para ele - da comédia exagerada e sem limites. Mas, como numa boa parábola, a “moral da história” se montará inexorável com o decorrer da história e os quintais mais escondidos da mente passarão a se sobrepor aos momentos de triunfo fácil.

Se o ator embarcou nesse trabalho – e se foi a opção do diretor, também –, dá para se tentar entender que tenha sido de maneira pensada e que no processo de amadurecimento - ou procura de um reconhecimento mais “gabaritado” - perseguido tal filme poderia acrescentar pontos valiosos. Ele se sai bem, tranqüilamente. Se existiu mesmo uma necessidade de auto-afirmação mais ampliada de sua parte – e creio que isso não se fazia necessário -, “Click” é o tipo de trabalho apropriado. Recheado de nuances, transitando entre a comédia e o drama interiorizado, sem dúvida o filme um grande palco para a exibição de Adam. Mas falando um pouco mais da própria obra, a opção em usar o carismático Christopher Walken, no papel de Morty, significou uma grande cartada do diretor. Walken representa muito bem a figura emblemática da “lenda”; atua de maneira muito particular e empresta seu método de trabalho em benefício do filme. Seus trejeitos contidos, sorrisos de boca “traçada” e olhar de peixe morto, valorizam demais a profundidade - o não explícito - que se fazia necessária para se passar o verdadeiro recado da obra.

Mas, apesar das boas escolhas para os papéis dos protagonistas centrais, Frank Coraci não foi plenamente feliz no resultado final. O filme tem similaridade com outras obras em diversos momentos. Poderia citar “De Volta Para o Futuro” como um similar, mas creio que num dado momento ele se manifeste mais como espécie de irmão de “Peggy Sue”. Só que o filme de Coppola tem uma “alma” mais singela nos momentos de possível comparação. Quando volta ao passado, um clima de saudades pelo que se perdeu por conta da ação natural do tempo toma todos os espaços sensoriais no filme interpretado por Katleen Turner. E a possibilidade de tal paridade emocional ser alcançada em “Click” não se concretiza, mostrando, que em dados momentos, outras necessidades se fizeram prioritárias para o diretor – inclusive a do uso das técnicas de rejuvenescimento ou envelhecimento -, inibindo um aprofundamento de tema tão interessante. Uma emotividade com ar de mais gratuidade do que o necessário deveria ter dado lugar a soluções menos pirotécnicas; mais centradas. De qualquer maneira não deixa de ser um trabalho interessante: pela mescla obtida entre o riso e o profundo, entre o desejo fácil e a realidade. Sobrou ousadia – pela opções de diretor e ator - e faltou um pouco de contenção.
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