O SOL - CAMINHANDO CONTRA O VENTO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Tetê Moraes e Martha Alencar
Elenco: Documentário
Duração: 90 min.
Estréia: 11/09/2006
Ano: 2005


O sol do velho mundo


Autor: Cid Nader

A inteligência brasileira - o pessoal do mundo das artes - foi um dos setores que mais batalhou contra o momento de exceção vivido pela nação nos tempos da ditadura militar - período que se iniciou no ano de 1964 e encerrou no início dos 1980. Contra o governo exercido pelo militarismo de extrema direita, duas frentes de batalha se destacaram: aquela executada como tática de guerrilha - que enfrentava o inimigo utilizando o mesmo tipo de "armamento" e a mesma virulência, isto é, agindo no mesmo terreno; a outra foi deflagrada de forma mais sutil pelos artistas e setores da igreja progressista, com a utilização de discursos que variavam do sutil - algumas letras de música ou peças teatrais e cinematográficas - ao mais explícito, executado, normalmente, por publicações escritas. É certo que todas essas manifestações contra o regime não seguiam, obrigatoriamente, esse modelo que descrevi acima; havia momentos em que os papéis se misturavam ou trocavam de posição.

Nos momentos próximos que antecederam o período mais cruel e recrudescente do golpismo militar, que impingiu o "AI-5" (1968) a uma nação que não imaginava algo pior a acontecer, surgiu o jornal carioca "O Sol" (1967), contando com a colaboração dos maiores expoentes de nossa cultura à época. Vale lembrar que o momento foi um dos mais profícuos em qualidade artística na nossa história, determinante para novos movimentos artísticos, com a criação de novas escolas e modelos que perduram até hoje devido ao seu alto grau de excelência, e que marcaram a presença do país no cenário mundial como um produtor de arte da mais alta qualidade, fruto de uma espontaneidade sem par.

Artistas, jornalistas e escritores abraçaram a causa lançada junto com o aparecimento do jornal, iluminaram novas possibilidades contra o obscurantismo e aqueceram o cenário contestatório. Os artistas e intelectuais envolvidos perduraram até hoje, mas o jornal teve uma existência fugaz - cerca de seis meses. O documentário realizado por Tetê de Moraes surge para recontar a história de tal empreitada, que teve sua fase de sangue pulsante já há quarenta anos. Uau! Ela nos mostra um esticado desfilar de figuras conhecidas que colaboraram com o impresso e fez notar que a passagem dos anos é cruel ao aspecto físico das pessoas. Passam pela tela Arnaldo Jabor, Zuenir Ventira, Caetano Veloso, Fernando Gabeira, Chico Buarque, Ziraldo, Ruy Castro, Helena Ignez, Cony, Ítala Nandi, Hugo Carvana etc, etc, etc.

Mas os grandes momentos do documentário são alcançados, justamente, pelo simples desfilar de pessoas públicas, com um apelo de atração razoavelmente limitado aos espectadores mais velhos - existem as sete ou oito figuras mais conhecidas pelo público mais jovem, certamente, mas senti duvidosa a sua capacidade em angariar um interesse mais atento dessa fatia imprescindível dos espectadores. A diretora mostra toda a festa do reencontro de maneira muito dominante na construção do filme, dificultando o ritmo que deveria privilegiar mais a tentativa de estabelecer contato com os ignorantes quanto ao assunto. Toda aquela camaradagem demonstrada na tela, apesar da sensibilidade do reencontro contida nela, passa a impressão de interessar mais aos que já conhecem a história do jornal e de seus colaboradores, afastando - ou dificultando - o interesse de um público mais potencialmente necessário a ser alcançado.

Quando se faz um documentário de temas semelhantes, imagino que o autor queira passar à frente uma história desconhecida. Uma dinâmica que evidencie a revelação, escorada em aspectos atrativos - pode ser no ritmo, pode ser na montagem, pode ser até na captação das imagens -, seria algo de bom tom a ser executado - ou ao menos tentado. O que de qualquer maneira não invalida, totalmente, o resultado final do trabalho, que consegue passar - ao menos para alguns, ao menos para os que querem rever tal momento - um pouco da importância histórica de um momento específico de nossa história recente.
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