INTERVALO CLANDESTINO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Eryk Rocha
Elenco: Documentário
Duração: 95 min.
Estréia: 11/09/2006
Ano: 2006


Tirar imagens da pedra


Autor: Fernando Watanabe

Época de eleições. Um documentário “político”. Claro, estratégia de lançamento meticulosamente programada a fim de melhor posicionar o filme no contexto dos acontecimentos do país. O curioso é que “Intervalo Clandestino” trabalha numa lógica oposta a essa dos “grandes fatos sociais do país”, ou melhor, os fatos que a mídia de massa tem por ofício constatar, retrabalhar, e tornar grandes. Porque algumas coisas só existem se possuem imagem, mesmo que esta seja distorcida. Outras, como cada brasileiro(a), de fato existem; só não possuem imagem.

A eleição 2006 seria, segundo essa lógica da comunicação de massas, um grande evento, importante e definitivo para o futuro do país. Mas o filme diz que essa eleição passará, assim como todas as outras passaram, e muitas ainda virão. Nada mudará.

Não se utiliza em nenhum momento o tradicional modelo sociológico, aquele no qual o documentarista já possui uma certeza sobre o mundo e sai à caça de amostras (seres humanos) que provem sua tese. Em "Intervalo Clandestino", nem mesmo há a presença de um narrador atuante no som over. A narração é construída pela câmera e montagem.

Uma câmera que não pesquisa grandes quadros sociais (as cenas das massas são sempre desfocadas, abstratas); procura rostos e corpos, individuais. Closes de olhos, peles, rugas e células de homens e mulheres calejados pela vida. Uma pesquisa epidérmica. Um cinema de pele.

A montagem dá ordem (ou desordem) a um caldeirão de vozes que, às vezes esbravejam, às vezes se resignam; até mesmo se silenciam. Quando, em determinados momentos, a edição de som aumenta o volume e acentua a mistura de vozes da população, fica claro quem são os personagens do filme: rostos, olhos, bocas que se esforçam em exprimir sua existência, mas que, diante do Poder, terminam por serem sufocadas e perdidas em meio à multidão.

Diferentemente do que se esperaria de um filme “político”, não se tenta desvendar os meandros dos bastidores do Poder. Tão pouco o filme se serve da tela como ringue de um debate ideológico. O filme se interessa pelos seres humanos, acima de tudo, acima de qualquer conceito abstrato como “direita”, “esquerda”, “Jesus”, ou “democracia”. O abstracionismo está em suas cores, luzes e sons.O que nos surpreende é que, um grande tema é trabalhado por meio das coisas pequenas, dos corpos daquelas pessoas abordadas na rua, cujos nomes aparecem e somem nos créditos finais. Créditos esses que dão o mesmo tamanho da letra e tempo de duração na tela iguais, tanto a Leonel Brizola, quanto a João da Silva. Não há estrelas que se destaquem no filme. A fama não existe. Na vida real, não há a menor possibilidade de show. Para quem quiser ver exibicionismo teatral, basta a televisão, revistas e jornais (com poucas exceções).

O filme então não discute; mostra. Em raríssimos momentos declara didaticamente seu pensamento. Sua filosofia já está materializada em produto fílmico, e isso basta. São imagens que tendem ao abstrato, trabalhando com foco/desfoco, manipulação de cor, jogo de luzes, o que curiosamente dialoga com o curta metragem “De Glauber para Jirges”, de André Ristum. Mas, antes que uma mera brincadeira de um esteta, esse tecido de cores e luzes disformes são utilizados conceitualmente, de forma a dar um tratamento poético/sensorial a um tema duro e seco, no caso, o cotidiano das pessoas de baixa renda. O filme se concentra em fazer a arte surgir de onde menos se espera. A procura pela beleza nos detalhes mais improváveis.

E isso com certeza já é alvo de duras críticas, que tentam destratar o filme por ser “hiper–formal” e “alienado em sua própria arte”. Tenho que concordar, a proposta do filme é limitada. Não propõe soluções para o Brasil. Não espera resolver 500 anos de História em pouco mais de 90 minutos. Nem mesmo denuncia à la Michael Moore os podres da política. Então, o que resta? Restam as vozes dissonantes de cada personagem do filme. Restam as imagens e sons orquestradas com surtos de um talento que está para se confirmar. Restam algumas pessoas filmadas em sua individualidade, que o filme acredita ser maior e mais sincera do que qualquer tipo de ideologia totalizadora. Ou, talvez não reste nada, como a primeira imagem do filme sugere (uma tela preta). Talvez, “o” brasileiro (e não o povo brasileiro, conceito generalizante) nunca teve imagem, pois o cinema nacional poucas vezes soube retratá-lo de forma cúmplice.

Após essa sessão, sair pra rua e dar de cara com a realidade é atordoante. Não porque o filme, por meio de seu espetáculo sensorial abstrato, nos alienou da realidade e agora é hora de voltar ao cotidiano. Mas sim porque é espantoso como, ao se desvencilhar de grandes idéias e conceitos, "Intervalo Clandestino" está extremamente conectado à realidade concreta do nosso dia-a-dia, é extensão e produto bruto dela. Somente por meio da realidade prática, das necessidades humanas mais simples e das pequenas idéias, é que aquelas imagens e sons puderam surgir na sala escura.

O verdadeiro Poder, enfim, está nos corpos e nos desejos de cada um.

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