CAFÉ DA MANHÃ EM PLUTÃO:


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Original: Breakfast on Pluto
País: Irlanda/Reino Unido
Direção: Neil Jordan
Elenco: Cillian Murphy, Liam Neeson, Rutt Negga, Stephen Rea
Duração: 135 min.
Estréia: 11/09/2006
Ano: 2005


Tudo sobre minha mãe


Autor: Leonardo Mecchi

Neil Jordan coloca desde o início de “Café da Manhã em Plutão”, com seus pássaros-cronistas, todas as cartas na mesa: estamos diante de uma narrativa nitidamente fabular, onde exigir um alto grau de realismo ou verossimilhança seria, no mínimo, desonesto para com o filme. Kitten – protagonista cuja precocidade na definição de sua identidade sexual nos lembra Jonathan Caouette, diretor de “Tarnation” – narra sua própria história em flashback, numa espécie de diário da Swinging London dos anos 70, o que empresta à narração um caráter próximo ao onírico e fantasioso, pois fruto da memória pessoal de um personagem cuja visão de mundo é bastante peculiar.

Tendo sido abandonado ainda bebê, Patrick “Kitten” Braden cresceu numa cidade do interior da Irlanda em meio a atentados do IRA e conflitos com sua escola católica e a mãe adotiva, em função de sua personalidade afiada e uma predileção em vestir-se como mulher. Quando sua cidade natal tornou-se pequena demais, Kitten parte para Londres em busca de sua verdadeira mãe e é nesse percurso de busca e (auto)descoberta que se detém a maior parte do filme.

Embora guarde semelhanças temáticas com “Traídos pelo Desejo” – filme que consagrou Jordan com 6 indicações ao Oscar e cuja história também envolve um protagonista travesti e os conflitos bélicos na Irlanda –, a comparação entre os dois filmes não poderia ser mais equivocada. Enquanto a obra mais conhecida de Jordan é construída como um noir, que gira em torno do que está oculto, das dissimulações e segredos guardados pelos personagens, “Café da Manhã” é um filme luminoso, onde tudo está exposto de maneira aberta e sem nenhum constrangimento.

Ainda que possa levar o filme a ser enquadrado em uma aparente onda de produções cujos protagonistas trabalham as mais diversas identidades sexuais (como “Capote”, “Transamérica” e “Brokeback Mountain”), a orientação sexual de Kitten está longe de ser uma questão importante para o personagem. Com uma atuação perturbadoramente precisa – que, auxiliada pelo ótimo trabalho de maquiagem, leva o espectador após um determinado momento a não ser mais capaz de reconhecer se trata-se de um homem ou uma mulher interpretando o papel –, Cillian Murphy constrói, sem resvalar no caricatural, um personagem seguro de sua individualidade que, por trás de uma aparente futilidade e otimismo poliano, mostra-se na realidade um pragmático na busca por sua mãe.

Sua constante recusa em abordar com seriedade as situações com que se defronta deve-se menos por não reconhecer a importância de tais situações do que por rejeitar que outros lhe imponham suas escalas de valor. Para Kitten, sua inocência não é vinculada a uma possível alienação, mas sim a uma aposta consciente na imaginação como forma de se reinventar, um modo de subverter uma vida aparentemente fadada à dor e melancolia e transformá-la numa crônica do absurdo. Seu maravilhamento diante do mundo é quase uma postura política em tempos de guerra.

Apesar do tom picaresco da narrativa, Jordan não deixa de tratar de questões importantes para sua filmografia. Uma cena em particular, magistralmente filmada, resume bem essa questão: a do encontro, entre Kitten e o padre que a recolheu ainda bebê, numa cabine de peep-show (numa interessante inversão da cena no confessionário no início do filme). Com o doce balanço de Kitten belamente fotografado, Jordan reúne numa única cena, de maneira simples e direta, seus principais questionamentos de ordem religiosa, social e sexual, sem a necessidade de grandes discursos ou divagações.

Em alguns momentos o filme parece se estender demasiadamente e em outros apela para soluções artificiais para fazer a história andar (o famoso deus ex machina, como no caso dos amigos de Kitten aparecendo subitamente em Londres ou o policial que antes a havia torturado encontrando-a na rua e cuidando de sua segurança). Apesar disso, Neil Jordan consegue construir, sem cair em estereótipos ou caricaturas, uma bela obra em sua excêntrica doçura.
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