O ARCO:


Fonte: [+] [-]
Original: Hwal
País: Coréia do Sul
Direção: Kim Ki-Duk
Elenco: Jeon Sung-hwan, Han Yeo-reum
Duração: 90 min.
Estréia: 11/09/2006
Ano: 2005


“O Arco”: a beleza zen de Kim Ki-Duk


Autor: Cesar Zamberlan

“O Arco”, 12º filme do coreano Kim Ki-duk, é um filme exageradamente belo e poético e talvez resida aí seu maior problema: essas belas imagens podem parecer, e muitos o criticarão por isso, tão deslocadas no mundo e do mundo quanto o barco, único cenário do filme. Uma estética new age, como já ouvi um crítico dizer. Essa beleza precisaria estar ligada a uma narrativa que a justificasse, a beleza pela beleza seria engodo. A quem critique “2046” de Wong Kar Wai por isso. Não vou comparar ambos os filmes, porque “2046” é bem mais resolvido e é muito mais cinema que “O Arco”, mas não concordo com a idéia, é preciso ser mais tolerante com a beleza. A beleza das imagens de “O Arco” sustenta algo muito mais interessante.

A questão, ao meu ver, ao aceitar ou não o contrato de leitura, usando um termo mais da literatura que do cinema e embarcar ou não nessa história de amor e de resignação para com a vida e morte que parece ser o tema de Kim Ki Duk de uns tempos para cá, é que esse contrato revela muito mais de nós mesmos, cinéfilos ou críticos, que do filme em si e aí somos, muitas vezes, injustos com filmes que de forma honesta mostram o que são e para o que vem. Nos vemos no filme e não vemos o filme. Por mais difícil, ou impossível, alguns diriam, que isso seja, é preciso separar as coisas ou então assumir um texto em primeira pessoa a disfarçar uma isenção que não existe.

Voltando a Kim Ki-duk, ele se celebrizou em São Paulo após a exibição do visceral a “A Ilha”, Mostra do ano 2000, passou a fazer, a julgar pelo contemplativo “Primavera, verão, Outono, Inverno ... e Primavera” e por “Casa Vazia”, um cinema mais focado nas relações do homem com a sua natureza, trabalhando com elementos do budismo. E ao mesmo tempo em que esvaziava seus filmes de elementos cinematográficos e mesmo de diálogos, os enchia de metáforas e símbolos. Transformou a narrativa de seus filmes num jogo, aberto ao espectador, cheio de lacunas e sentidos a serem preenchidos. Essa mudança de postura parece estar bem retratada na cena em que a garota de “O Arco” enfia na boca os mesmo anzóis que em “A Ilha” provocariam uma das cenas mais fortes do cinema recente.

Confesso que não consegui embarcar na “beleza” de “Casa Vazia”, mas o respeito e gosto muito de “Primavera...”. Já em relação a “O Arco”, acho o filme arrebatador, até mesmo em seus exageros, em sua deliberada fantasia e poesia.

Ao comentar “A Ilha”, Kim Ki-duk falou que os coreanos viviam entre extremos. O mesmo pode ser aplicado a esse filme, só que aqui o extremo é de outra natureza. O amor do marinheiro que prepara a noiva durante anos e depois luta contra o tempo para apressar uma celebração de casamento que fica entre a vida e morte, é uma prova desses extremos ditados pelo correr do tempo.

Talvez o excesso poético, a música, o balanço da menina entre o navio e o mar, tirem um pouco o foco daquilo que o filme traz de mais belo que é a resignação com o tempo, resignação que leva o jovem a esperar, como o mais solitários dos homens, o desfecho de um casamento que ele não sabe qual destino terá, sobrando-lhe apenas como opção dar uns tapas na cabeça do galo, como ele à deriva no barco, e esperar.

A flecha disparada e os belos acordes produzidos pelo arco partem da mesma vibração, da mesma corda, da mesma mão; assim é o velho, assim é a menina, assim é o jovem, assim somos nós. Essa idéia é o que há de mais belo em “O Arco” .
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"O Arco" - e a flecha. Mas errou o alvo.