SENTINELA:


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Original: The Sentinel
País: EUA
Direção: Clark Johnson
Elenco: Michael Douglas, Kiefer Sutherland, Eva Longoria, Martin Donovan, Ritchie Coster, Kim Basinger, David Rasche, Kristin Lehman, Raynor Scheine.
Duração: 108 min.
Estréia: 04/08/06
Ano: 2006


Imperdoável


Autor: Cid Nader

Pensar em Michael Douglas produzindo um novo filme, onde o papel principal é seu, encarnando um típico americano com a honrosa missão de proteger o presidente do país, como função diária; normalmente não soaria como algo alentador a favor de uma boa obra cinematográfica. E se o tal guarda-costas for uma celebridade nacional, por já ter tido a "honra" de salvar um outro presidente, em tempos passados, interferindo no caminho de uma bala certeira com o próprio, abnegado e profissional, corpo? Se tal filme apregoar a extrema necessidade que o "mundo livre" tem pela saúde íntegra do máximo mandatário ianque, e se o diretor imaginar, ainda, um roteiro recheado de intrigas e planos maléficos que têm como objetivo principal eliminar essa entidade, encarnada, que apresenta-se como a maior defensora da liberdade e dos anseios de justiça? Para piorar essa impressão de que nada de bom sairá de tamanha empreitada, vale a pena lembrar,ainda, que tal filme foi construído com um roteiro baseado em obra literária – escrita por Gerald Petievich - comprada antes de ser publicada; isto é: "eu posso escrever o que você imaginar que eu deva escrever, desde que eu seja recompensado justamente". Não soa mal a ouvidos um tanto recatados?

Partindo para essa empreitada já com todos esses maus antecedentes nas costas, até que o diretor, Clark Johnson, tenta enganar, preservando situações originais do livro que atenuariam um pouco do ranço moralista da obra cinematográfica. Na obra escrita, o presidente é traído pela esposa justamente com o segurança/herói que, apropriadamente, não trata o caso apenas como uma baita pulada de muro, se apaixonando "verdadeiramente" pela primeira-dama, e mostrando-se arrependido por ter atropelado rígidos preceitos de conduta, por exemplo. Durante a trajetória da película, os egos de alguns sobrepõe-se ao pragmatismo que deveria exercido por profissionais tão importantes ao bem estar das autoridades da maior potência bélica da Terra – isso quer dizer, que o famoso espírito rigidamente exercitado em um país de origem protestante e seguidora da insensibilidade cega das leis é posto em cheque por motivos passionais: é o caso das reações não tão racionais de David Breckinridge (Kiefer Sutherland) nos momentos em que se entrelaçam o seu destino e o do agente do serviço secreto – o sentinela – Pete Garrison (o personagem de Michael Douglas).

Mas o embuste engendrado pelo diretor cai rapidamente por terra: surge, então, o filme que quer ser vendido para os espectadores. Com cortes e montagem frenéticos e que usa algumas “muletas” computadorizadas para imprimir dinamismo e enfeitar algumas passagens de cena. Há a ressurreição da KGB e aquela velha idéia de que o mundo todo gira em torno dos USA – justo a KGB que já não ia muito bem das pernas quando o império soviético ainda botava banca, mesmo no mais profundo dos buracos financeiros. Começam a se impor os atos de heroísmo que se sobrepõe a toda e qualquer manifestação mundana de simples mortais não americanos. Soluções típicas de reles filmes de ação são adotadas e executadas sob ilusórias encenações de complexidade organizacional do super serviço secreto. Os momentos de culpa e queda, de esperança numa redenção surgida do martírio imposto pelo erro vil cometido por alguém que deveria estar acima de toda e qualquer fraqueza humana, enfim, toda e qualquer tentativa de sujar a “divindade” emanada por esses “verdadeiros defensores” dos terráqueos, vão ganhando verdadeiro ar de enganação com a aproximação do fim da história.

Seria chover no molhado continuar a citar os problemas e a má índole embutida na idéia pré-concebida para a concepção de “Sentinela”. Mas se algum momento mais específico pudesse ser utilizado para resumir toda a “engenhosidade” calculada para o desenvolvimento de tal projeto, ressaltaria e sugeriria uma atenção especial para a seqüência do tiroteio final, que chega a ser, no mínimo, patética pela sua exagerada e mal desenvolvida resolução cênica: presidente se protegendo de tiros disparados por vários atiradores de elite atrás de um único escudo humano – quem seria? - e sua mulher, Sarah Ballentine (Kim Basinger), correndo em direção ao amante baleado. Um pouco pior: se visto apenas como thriller policial, o filme falha no principal quesito: qualquer um, um pouco mais atento, perceberá desde cedo quem é o grande suspeito da trama. Imperdoável.
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