ZUZU ANGEL:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Sergio Resende
Elenco: Patrícia Pillar, Daniel de Oliveira, Luana Piovani, Leandra Leal, Alexandre Borges, Ângela Vieira, Ângela Leal, Flávio Bauraqui, Paulo Betti, Nélson Dantas, Regiane Alves, Fernanda de Freitas, Caio Junqueira
Duração: 110 min.
Estréia: 04/08/06
Ano: 2006


Falta ousadia a "Zuzu Angel"


Autor: Cesar Zamberlan

“Zuzu Angel” chega às telas com uma pretensão: dialogar com o grande público. O que não é pecado, pelo contrário, todo cineasta, mesmo o mais experimental e autoral, sonha com isso. Pecado é subestimar a capacidade do público, falsear a matéria e forma do filme para forçar esse diálogo, apelar de todas as maneiras possíveis para que as pessoas vejam o filme, ofendendo a inteligência do espectador e sucumbido, por exemplo, ao modelo narrativo das novelas da TV Globo, vício flagrante do nosso cinema recente.

Quando se critica, portanto, o cinema mais comercial; a crítica, na verdade, recai sobre o “vale tudo” para fisgar o espectador: pescaria com rede de arrastão e, não, a pescaria mais sofisticada: com a isca apropriada com malícia e arte. Fisgar o espectador exige estilo e é apenas isso que se cobra. Impossível desconsiderar que o cinema é uma industria e como tal precisa de um público que pague para ela existir. Daí a importância de um diálogo, de bom nível, é claro.

O filme brasileiro que mais se aproximou desse diálogo com o espectador, que melhor o fisgou até agora, usando como baliza temporal a dita retomada, foi, sem dúvida, “Dois Filhos de Francisco”. Um filme gostoso de assistir - mesmo para os que odeiam música sertaneja - porque contava bem uma história, tinha bons personagens e bons atores. Um filme que respeitava a inteligência do espectador, tanto que conseguiu atrair mesmo aqueles mais refratários a esse gênero musical tão insosso.

No sentido oposto, existe “Olga”, uma aberração enquanto cinema e uma falsificação histórica que se apropria de um mito - de dois, se pensarmos também em Prestes - para tentar emocionar os mais desavisados, em algo que é mais chantagem emocional, disfarçada de melodrama barato, do que cinema. Um filme que tratava os espectadores como débeis mentais e não por acaso encontrou um bom público.

“Zuzu Angel” fica entre esses dois filmes, mas sejamos justos: está muito mais próximo de “Dois Filhos de Francisco” que de “Olga”. O grande crime do filme é seu excesso narrativo. Tudo é muito explicadinho como se o espectador fosse incapaz de entender o mais simples flashback. A impressão que se tem com o filme é que é necessário segurar a mão do espectador o tempo todo, conduzindo-o do primeiro ao último minuto da projeção, como se assim não houvesse risco de perdê-lo. Outro ponto passível de crítica, e de aproximação com “Olga”, é o uso da música incidental para acentuar, desnecessariamente, a carga dramática do filme.

Tirando essas duas questões e uma terceira, bem mais discutível, relacionada ao discurso de esquerda de Stuart e sua namorada, vivida por Leandra Leal, que soa infantil demais, “Zuzu Angel” vai muito bem e entra para o rol, pequeno, de filmes indispensáveis para se entender o que foram os anos de chumbo, como foi a resistência à ditadura e o que significou a tortura e assassinato de milhares de pessoas.

“Zuzu” trata de maneira sóbria o tema e sua época, forma nesse sentido com “Cabra Cega” de Toni Venturi e “Quase dois irmãos” de Lucia Murat uma espécie de trilogia de filmes recentes que se ocupam da questão no campo ficcional, recriando episódios históricos da mais alta importância para se entender este país.

O episódio em questão aqui é mais familiar, temos a figura da mãe em busca de notícias do filho que luta contra a ditadura, da mãe que, ao saber do assassinato do filho, batalha, como uma Antígona moderna, para encontrar o corpo e poder enterrá-lo.

Outra questão interessante e que diz muito sobre o período é forma pela qual Zuzu, até então reticente em relação ao que acontecia, começa a entender o momento histórico. Ela, como muitos, recusava-se a acreditar na existência de atos de tortura e excessos e só muda de atitude quando parte em busca do paradeiro do filho. Nesse momento, ela se transforma. Vira militante também e milita por uma cauda muito humana, trágica como a causa de Antígona, luta por um direito natural num momento de exceção, de extrema violência.

Patrícia Pillar constrói com brilhantismo a personagem central e dá matiz bem definida ao seu papel, fazendo, num primeiro momento, a estilista pouco informada e pouco preocupada com o que acontecia à sua volta para se transformar, à medida que vê sua família envolvida com os fatos, numa mulher que afronta o regime, numa mãe furiosa que fará de tudo por justiça.

Alguns momentos do filme são marcantes. A seqüência na qual Zuzu recebe a carta de um amigo do seu filho Stuart, relatando a tortura e a morte dele e que alterna a reação dela ao ler a carta e cenas de tortura é bem forte. Outros dois momentos magistrais são: a seqüência em que Pillar contracena com Nelson Dantas, sapateiro e pai de um colega de Stuart, quando o silencio diz mais que qualquer diálogo, não vou estragar a surpresa, contando o que acontece depois; e o outro, na cena final do filme, quando o policial tenta desligar o toca fitas que toca uma música que Chico Buarque compôs diante do momento político, mas não consegue.

Um belo filme sobre um momento importante da nossa história, pena que o diretor Sergio Resende e demais envolvidos na produção não tenham tido a mesma ousadia da personagem que retratam ao fazer o filme.
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