VAMOS TODOS DANÇAR:


Fonte: [+] [-]
Original: Mad Hot Ballrooom
País: EUA
Direção: Mariilyn Agrelo
Elenco: Documentário
Duração: 105 min.
Estréia: 28/07/06
Ano: 2005


Só os filhotes animais têm que lutar para não serem comidos


Autor: Cid Nader

Talvez por ser de origem de cubana – onde as coisas não são fáceis, onde as dificuldades brotam do chão o tempo todo, onde se dá valor às pequenas oportunidades como se fossem as únicas ou últimas - a diretora Marylin Agrelo tenha conseguido captar e repassar pequena sutilezas nesse seu documentário, “Vamos Todos Dançar”, que escaparão aos olhos dos menos sensíveis ou atentos. Ao optar por aceitar tal empreitada, a diretora acabou por entregar um produto que extrapolou o inusitado assunto em questão; um produto que não se ateve ao fato concreto e aparente, recheando-nos de possibilidades interpretativas muito mais ricas e interessantes do que o superficial aspecto formal, normalmente, faria preponderante.

Tal empreitada, foi a de acompanhar os preparativos de algumas escolas públicas de Nova Iorque – pelo período de um ano –, que visavam chegar à final de um concurso de dança de salão criado especialmente para as crianças dessas instituições. Foi uma idéia – das aulas de dança de salão - surgida em 1994, que obteve rápidos resultados quanto à melhora no comportamento e aproveitamento desses alunos; uma alternativa ao uso do esporte, usualmente a maior arma adotada pelas instituições de ensino públicas de lá, como maneira de inserir a molecada na sociedade, melhorando seu aproveitamento escolar e tirando-a dos caminhos mais perigosos e insinuantes da ruas.

O documentário, em si, já contaria com esse aspecto inusitado da dança de salão para atrair a atenção de curiosos espectadores brasileiros. Não se imagina muito por aqui, tal atividade exercida como algo razoável entre os adultos; imagine no meio infantil. Salsa, merengue, bolero, tango, tudo chacoalhado com molejos muito parecidos, costumam arrancar gargalhadas ao invés de admiração entre o nosso povo. A curiosidade que poderia ser gerada nesse aspecto em “Vamos Todos Dançar” vai caindo por terra com o decorrer do tempo; com o avançar da película. Aspectos muito mais fundamentais afloram e tomam conta do ambiente. É certo que boas gargalhadas serão arrancadas da platéia em alguns momentos; mas não serão gargalhadas jocosas e sim, de prazer. Alguns moleques e suas atitudes naturalmente infantis e espontâneas, sua maneira de dançar, seus questionamentos, suas expressões enquanto dançam, garantirão o riso puro e singelo.

Outro aspecto, o que versa sobre os “benefícios” causados a crianças “rebeldes”, ou mais complicadas, toma uma parte do filme; é pertinente – afinal esse é o maior objetivo da terapia. Mas o que mais sobressai, o que mais emplaca, é a sensibilidade da diretora que, sem gestos ousados ou didáticos demais, deixa transparecer todo um aspecto que remete a garotada ao mundo da competição pela sobrevivência. Parece duro demais pensar assim, mas vai ficando nítida, com o decorrer das ações e a repetição de reações, que a meninada encara tudo aquilo, em alguns momentos, com o peso e a dramaticidade que se impõe, no mundo selvagem/animal, aos filhotes que, instintivamente, sabem que são alvo em potencial de predadores; que para outras espécies nada mais são do que comida e que o mundo é, naturalmente, extremamente competitivo; quem bobear será comido.

Nada sanguinolento acontecerá com os petits dançarinos, mas a urgência e o aspecto competitivo afloram, e se tornam bastante evidentes, por seus comportamentos e reações a partir de algumas situações. Avaliar as implicações disso tudo demandaria mais tempo e canais específicos de discussão, mas o documentário pode se tornar um aporta aberta para que tais situações ocorram. Por outro lado, a vitória sempre surge como aquela coisa que nos tira do patamar terreno, elevando-nos a outros níveis, sempre superiores, colocando-nos muito mais próximo do que imaginamos como a perfeição – pode ter conotação divina ou “super-heroística”. A dramaticidade da competição, aos poucos, vai tomando conta do trabalho de Marylin Agrelo. A adrenalina surgirá também na platéia e passaremos a tomar partido na disputa; vibraremos e nos emocionaremos.

E aí reside mais uma das virtudes da diretora. Ela não camufla em nenhum momento o fato de que somos humanos, mas que nos momentos cruciais agimos, basicamente, motivados por instinto – ou algo muito mais próximo disso. Deixa livre a possibilidade de vibrarmos a favor de um dos grupos de moleques, deixando que transborde o lado que se aliviará após finda a batalha pela sobrevivência. Enfatiza a reação da garotada, as declarações de algumas delas durante todo o processo de construção documental, os seus medos, as suas duras realidades, o contraponto aos mais bem sucedidos “socialmente”, e o aspecto de epopéia ao final do transcurso da película. E tudo isso se faz suficiente para validar a experiência e aplacar possíveis problemas de andamento que o filme, eventualmente, contenha.
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