A PESSOA É PARA O QUE NASCE:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Roberto Berliner
Elenco: Documentário
Duração: 84 min
Estréia: 03 de junho
Ano: 2003


Nasceu uma coisa e virou outra


Autor: Érico Fuks

Não diria que é cego, mas talvez seja um filme vesgo. Há muito de ambíguo neste documentário que tenta ser Eduardo Coutinho mas se parece mais com Conspiração Filmes. A começar pelo título determinista que o trabalho sugere, muito embora se firme nele uma tentativa de quebrar este axioma estamental. A busca pelo tom misericordioso muitas vezes se dá pelo sensacionalismo. Daria pra afirmar que é um filme que afaga, mesmo através de seus choques.

A Pessoa É para o que Nasce, que nasceu de um projeto de continuidade e extensão de um premiado curta-metragem homônimo, conta a história de três irmãs, Regina, Maria e Conceição Barbosa. Pobres e cegas de nascença, filhas de trabalhadores rurais sem-terra, passaram boa parte de suas vidas ganhando o sustento cantando e tocando ganzá nas feiras de Campina Grande, interior da Paraíba. Elas foram encontradas pelo diretor em 1997, durante as filmagens de uma série de TV sobre músicos anônimos. Ele e seus assistentes tiveram a oportunidade de conversar com as três, e daí surgiu a idéia de um trabalho maior.

Diretor de documentários, videoclipes e filmes publicitários, Berliner não escapou aqui de deixar sua marca mercadológica oriunda de seu expertise profissional. A Pessoa... resvala na estética publicitária, num dilema interno de conflito e de conivência. Há nuances que lembram, de leve, produções de uma O2 ou Conspiração da vida, mesmo que dê pra perceber categoricamente que não se trata de um filhote de nenhuma das duas megaprodutoras. Embora não seja um ícone do gênero, o filme se deixa permear por um filtro de embelezamento típico de trabalhos carimbados por essa certidão de nascimento.

Uma das primeiras cenas, em que a lente “procura” o trio, mostra uma ótica e uma livraria, pra depois a câmera descer e encontrá-las sentadas à calçada do prédio de tais estabelecimentos comerciais. Ou seja, Regina, Maria e Conceição estão inseridas num contexto urbano ao qual elas não têm acesso. Há uma espécie de sadismo velado e subliminar nessa parte: o deficiente visual completo não tem a capacidade de leitura de um livro convencional, tampouco a necessidade de visitar um oftalmologista. Mas o que mais agride o espectador é essa noção de exclusão social. Em suas casas elas têm vida própria mas, na sociedade, estão literalmente na sarjeta.

Há um pouco de ironia em A Pessoa... O diretor foi achar um trio musical competente nos cafundós de um estado pobre, cantando músicas que quase ninguém das metrópoles conhece. Seria uma maneira de mostrar que a cegueira está inserida é na elite intelectual burguesa? Estaria o diretor levando às últimas conseqüências o bordão popular “o pior cego é aquele que não quer ver”? Ainda que em braile, esta leitura do filme talvez seja para decifrar que seu objetivo é curar a indiferença sem pancadaria à la Sérgio Bianchi, mas com uma pitada de açúcar que os mestres do “reclame” sabem fazer muito bem.

Apesar desse tapinha de leve que não dói, o filme não mergulha nas crises sociais. Ele tem sim as agulhas pontiagudas mas, ao invés de espetar, faz acupuntura ao público. O filme tira proveito de uma série de situações “gostosas” e engraçadas. É inegável que a escolha da matéria-prima fílmica foi mais do que acertada. As irmãs são comunicativas, simpáticas, cativantes. E o tratamento dado a elas como elemento integrante da película causa uma sensação muito confortável e distante à platéia. Talvez esse seja o grande mal dos fazedores de comercial de sabonete. Apoderar-se de um discurso que não pertence a seu espectro e trazer esse material orgânico ao laboratório de pesquisa dos estudiosos consumidores de plantão. Não se trata de furto, pois as cancioneiras foram devidamente remuneradas em troca da aparição pública de sua imagem. Espelhinhos? Não, não, de nada adiantaria a elas. As três foram compensadas com novos instrumentos musicais, uma nova oportunidade de voltar ao ofício da arte sonora. E isso está claramente documentado no filme.

Esse é o grande erro de A Pessoa... O registro da verdade através do artifício. A sobreposição da representação em relação à aridez. Berliner nesse sentido é bem lavoisieriano em seu trabalho: tudo se transforma. Até a trilha sonora, que seria mais coerente se interpretada pelas vozes originais do trio, é recauchutada em versões dos mais notórios representantes do pop-cabeça de cordel: Lenine, Zeca Baleiro, etc.

Assim, as três Barbosas passaram a servir mais de cobaia do que de elemento de indignação. Animais de circo extraídos de seu cativeiro para dar show ao respeitável público. Ganharam notoriedade, foram pra televisão, ficaram famosas. É impressionante, mais uma vez voltando à lógica do caminho enviesado da ambigüidade do filme, a sensação que a cena do show com o Gilberto Gil traz. Sim, tem o lado contestatório, indicando “como assim, o Brasil inteiro conhece as Três Ceguinhas, só você espectador que não”? Por outro lado, a passada de mão do atual Ministro da Cultura na cabeça das humildes é quase vexatória. Ele, no show, está bem à vontade com elas, e tem todo o direito para tal. Mas, tirado do contexto e projetado ao filme, soa hipócrita. E confirma a hipótese de que o longa é um anestésico, em sua busca incessante de acariciar o espectador.
Leia também: