SOB O EFEITO DA ÁGUA:


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Original: Little Fish
País: Austrália
Direção: Rowan Woods
Elenco: Cate Blanchett, Sam Neill, Hugo Weaving, Martin Henderson, Noni Hazlehurst, Dustin Nguyen, Joel Tobeck, Lisa McCune, Susie Porter, Nina Liu, Linda Cropper.
Duração: 114 min.
Estréia: 28/07/06
Ano: 2005


Cate Blanchet e Austrália, parecia que ia dar certo ...


Autor: Cid Nader

Nadar em piscinas tem significados muito mais profundos do que o simples prazer refrescante. Vai mais além do que a velha máxima psicológica do prazer, ou necessidade, do retorno ao acalanto do útero materno. Filmes e sonhos que contenham em seu conteúdo um nadar sob luz tênue ou difusa, remexem em situações muito mais interiorizadas do que as simples explicações de cartilha podem alcançar. Os desejos mais secretos, algo a ver com necessidades sexuais – mas não obrigatoriamente -; uma retirada estratégica do seco mundo claro e límpido ao visual, mas sujo ao toque; sensações que normalmente desnorteiam e tiram o foco das situações retas e comuns advêm de sonhos em ambientes aquáticos fechados. Ouvir relatos de amigos que recordam grandes momentos de “escapes” e inexplicável prazer com os olhos turvados por águas cloradas, não é raro.

Ao ver a bela e nada ostensiva ou exteriorizada Cate Blanchet em meio a imagens molhadas – como se o mundo humano fosse constituído de água no seu entorno, e não ar -, ao perceber picos oníricos na composição das primeiras imagens de “Sob o Efeito da Água”, ao perceber que a vida dela se desenrola num recanto da distante e estranha Austrália e que o prazer de uma vida simples, recatada, intimista, parecem ser o idealizado para seu personagem, sem questionamentos, sem objeções, placidamente, a idéia de um pequeno/grande filme ganha corpo; promessa de algo bom no ar.

O diretor Rowan Woods, saído do mundo das séries televisivas, aparece nos primeiros instantes com a promessa de que veremos um trabalho independente – na melhor acepção que o termo possa carregar em si. Mesmo com os primeiros desvios de rota que indicam para um filme estranho, porém “da paz”, a partir do momento que passamos a perceber as reais motivações que levam Tracey (a própria Cate) a cultivar o ambiente em que mora com a mãe, o trabalho numa locadora de um chinês muito camarada – aliás, um atrativo do filme é mostrar essa realidade, na qual podemos perceber que os chineses compõem a grande e ostensiva maioria da nova leva de imigrantes que procuram a Austrália como segunda pátria -, os momentos em que curte o ato de nadar como a melhor coisa da vida; a partir do instante em que percebemos que toda essa necessitada paz é decorrente de momentos anteriores na vida de uma mulher de 32 anos que já se viu tremendamente envolvida pelo vício por heroína e no qual o filme passa a lidar com esse passado nada lúdico, a certeza de um grande trabalho continua. As figuras de seu passado passam a invadir o seu espaço: um ex-namorado de origem chinesa, Jonny, que havia viajado para longe na tentativa de se livrar do vício e reaparece, despertando nela sentimentos que havia imaginado extintos; o irmão, Ray, vítima também das drogas e de um acidente causado por elas; ou o atual namorado, Lionel, ex-jogador de rugby, grande celebridade e enterrado quase até o pescoço nas drogas, seus efeitos e seus acompanhantes/cobradores humanos. Aliás, somente a partir de um 40 minutos que explicações – talvez desnecessárias- passam a ser dadas; já ia me esquecendo que no início do filme uma cena mais “punk” que havia preenchido a tela, envolvendo o namorado de Tracey.

Não que o filme passe a perder credibilidade e qualidade por conta da intromissão de outros personagens em cena e com a “sujada” que acontece no ambiente da história. Mas algumas máscaras caem. Uma excessiva ênfase dada à tentativa de soluções monetárias, o desenvolvimento optado para que tal se concretizasse, alguns truques banais para solucionar situações de tensão, enquanto evapora o líquido que umedecia candidamente o filme, começam a passar a impressão de que talvez tenhamos num conto do vigário. Nos vemos envolvidos num “imbroglio” que não imaginávamos existir e, pior, que remete boa parte do trabalho para um caminho de enganos, traições, ameaças, mortes violentas, perseguições e outras cositas mais.

Uma situação que acontece junto a crianças que ensaiam canto, tenta reaproximar a história do idílico inicial. Mas o último momento, quando tudo se encerra ao som das vozinhas infantis, coloca o filme, definitivamente, sobre a tênue linha que separa o inusitado do embuste. Mas Cate Blanchet é emocionante. Emocionantemente bonita e envolvente. Corajosamente bonita quando opta por fazer trabalhos “menores”; “independentes”.
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