VERDADE NUA:


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Original: Where the Truth Lies
País: Canadá/Reino Unido/EUA
Direção: Atom Egoyan
Elenco: Kevin Bacon, Colin Firth, Alison Lohman, Sonja Bennett, Rachel Blanchard, Kathryn Winslow, Kristin Adams.
Duração: 108 min.
Estréia: 28/07/06
Ano: 2005


Realmente, nuas não faltam


Autor: Cid Nader

Um verdadeiro filme noir requer uma boa quantidade de situações enganadoras – truqueiras -, ambientes que evoquem vida noturna e clima de aparente tênue sensualidade rondando o ar; aparente, pois, normalmente, funcionam muito melhor com mulheres muito mais fatais do que apenas sensuais e bonitas carnalmente, e deste quesito o diretor armênio/canadense, Atom Egoyan, não nos privou. Aliás, algumas mulheres bonitas – pra que economizar – e com pouca ou nenhuma roupa por boa parte do trajeto do filme. Egoyan, normalmente, mostra o corpo feminino com muita generosidade, quase como se isso fosse uma demonstração ou desnudamento de uma faceta fetichista do diretor. À parte fetiches ou não, fica óbvio que tal naturalidade com o “tratar o corpo” não poderia – com raríssimas exceções – emanar de trabalhos realizados por diretores estadunidenses, crivados do mau moralismo e da censura ao prazer: “é pecado”.

Realizou “Verdade Nua” baseado num romance de Rupert Holmes, onde duas décadas distintas – as de 50 e 70 – servem como cenário para que se desenrolem histórias de traição, morte, gangsterismo ... Nos anos 1950, Vince Collins (Colin Firth) e Lanny Morris (Kevin Bacon) se transformam na maior dupla do showbiz nos Estados Unidos. São conhecidos por todo mundo, têm a proteção e predileção essencial de um chefe de gangue, Sally San Marco (Mauryn Chakin), um mordomo perfeito, Reuben (David Hayman) e o assédio de diversas e belas mulheres, prontas a se entregarem a uma noite de prazer – sendo que o preferido, por sua impetuosidade e carisma é Lanny; um verdadeiro arrasa corações. Quinze anos depois da dissolução litigiosa da dupla, entra em cena a jornalista Karen O’Connor (Alison Lohman) que por um milhão de dólares – oferecidos a Collin - tenta escrever um livro sobre o auge, a decadência e a separação da dupla; mas tendo como principal objetivo elucidar a misteriosa morte da bela empregada de hotel, Mauren (Rachel Blanchard), encontrada morta numa banheira do quarto da dupla.

Montadas todas as armadilhas, o próximo passo é tentar perceber se foram suficientemente bem dispostas para que resultasse disso um bom filme. Egoyan, sabidamente, entorna o caldo que já parece amornado e emplaca uma reviravolta. E isso por algumas vezes no transcorrer do filme. O truque consiste em não deixar que pistas que já pareciam desvendas pelo público sejam simplesmente a última cartada a ser dada. Num vai e vem constante entre as duas décadas escolhidas para que trama se desenvolvesse, o diretor construiu um filme-noir que, se não chega em nenhum momento a arrancar suspiros por ousadia no roteiro ou na maneira de desenvolver o trabalho, também não fica devendo por pobreza exagerada de imaginação ou descuido estético.

Justamente, no tal quesito estético talvez resida a grande virtude do filme. O diretor de fotografia Paul Sarossy – que já trabalhou com Atom em outras oportunidades – bolou um esqueminha bem bacana para diferenciar as épocas. Quando filma a década de 50, as cores são mais vivas, as tomadas são mais “quadradas”; há todo uma conjunção de esforços para que tais momentos passem a impressão de terem sido realizados com o uso da técnica do “technicolor”. Já nos anos 1970 os planos são mais abertos, as cores mais esmaecidas – por vezes parece sépia – e luz esbranquiçada e chapada; não me perguntem a razão, mas naquela década se valorizava demais os ambientes externos que emolduravam personagens mais distantes do close-up, e as películas já chegavam às salas de exibição com cores mais amenizadas – principalmente quando comparadas ao excessivo colorido das três décadas anteriores.

Egoyan não é um dos maiores cineastas de sua geração. Cobrar dele coisas a mais do que ele conseguiria realizar me parece jogar duro demais contra quem não tem tanta ginga. “Verdade Nua” não é obra-de-arte, concordo. Mas também não é ruim. Quem se dispuser assisti-lo encontrará alguns bons motivos para não sair arrependido do cinema.
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