ESTAMIRA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Marcos Prado
Elenco: Documentário
Duração: 115 min.
Estréia: 28/07/06
Ano: 2006


"Estamira" - falemos das funções de um documentário


Autor: Cid Nader

O documentário Estamira vem a público carregado de opiniões divergentes entre os que já o assistiram. Há acusações de manipulação por parte do diretor Marcos Prado, de abuso de confiança, de exploração de momentos, desnecessariamente. Dizem que em entrevista ele declarou ter comprado um barraquinho para que Estamira se estabelecesse, por “dó” da catadora de lixo, e que também estaria bancando uma pequena mesada para ajudar em seu sustento. Em reportagem veiculada no Fantástico, da Rede Globo, as informações eram divergentes: dizia a própria Estamira que morava numa casinha advinda de recursos próprios auferidos de sua eterna função no lixão, recursos que seriam também suficientes para garantir seu dia-a-dia. Outra acusação refere-se a uma espécie de maquilagem da miséria adotada pelo diretor ao optar pela fotografia “mais glamorosa”, meio que no caminho adotado pelo aclamado fotógrafo Sebastião Salgado. Dizem, também, que o filme seria sensacionalista, abusando do direito de usar imagens de momentos de escape, num ser que não teria como se opor a tal situação por seu estado “mentalmente marginalizado”.

Outra “pinimba engatada” contra o trabalho refere-se ao discurso vazio, sem nexo ou objetivos claramente definidos quando proferidos por uma pessoa reconhecidamente esquizofrênica – discursos esquizofrênicos criam uma aparência, sempre, de que são oralizados por pessoas que poderiam estar em outro estágio da evolução: como se fossem seres abençoados e não acometidos por mazelas mentais. Justamente nesse ponto começarei a emitir a minha opinião sobre o que imagino do trabalho de Marcos Prado – e acredito que estarei emitindo, também, algo da opinião de outros defensores do documentário. No início da projeção - e até um bom momento de seu trajeto percorrido – incomodava bastante a postura agressiva de Estamira, principalmente pelo tom de seu discurso, e que a maneira como tudo parecia estar sendo conduzido na tela me fazia acreditar que o diretor estava embalando um trabalho a ser oferecido para aquelas pessoas que adoram comprar a ideia do tal ser superior, que emana da aparente desconexão com os trâmites usualmente defendidos pela sociedade estabelecida e seus conceitos caretas. Até que, num dado momento, o documentário sofre inesperada guinada e mostra sua verdadeira cara: sua verdadeira linha condutora. Revela-se então um trabalho de cunho jornalístico/Investigativo, enfatizando declarações de parentes e colegas da catadora, criando um painel elucidativo quanto ao passado dela. O diretor sai da trilha que parecia ser a via principal adotada, e “constrói” as razões do comportamento de Estamira; revela como surgiu esse ser – perturbado(?), esquizofrênico.

Nós somos produto de nosso meio – nada mais aceitável -: Estamira, também. As declarações obtidas e ajuntadas dos que a cercam revelam um passado no qual ela foi, eternamente, vítima de pauladas morais e físicas. Cria-se aos nossos olhos o ser que estamos vendo, e o mérito de Marcos reside na paciência exercida como método de trabalho – o documentário foi rodado por vários anos, acompanhando a dura vida da personagem no seu cotidiano no Aterro Sanitário do Jardim Gramacho, Rio de Janeiro. E toda essa construção passa a nos revelar situações mais próximas do que imaginamos como “comum”.

Uma breve consideração: realizar documentários significa poder contar com várias linhas de conduta, ou melhor, várias opções de interesse, podendo ser um documentário de teor revelador, histórico, educativo - até opinativo. Pode ser também um que objetive o resultado jornalístico/investigativo – na minha opinião o de motivação mais nobre e resultados mais espetaculares. Penso que fica evidente a grande força que esse trabalho ganha quando observado por esse viés.

Imagino que alguns dos que criticam violentamente o trabalho, ou tenham dormido ou tenham debandado da sala de projeção antes do final da projeção. Caso contrário, não consigo imaginar como seria possível sustentar a opinião de que o discurso de Estamira teria servido apenas como maneira “esperta” de o diretor sustentar o insustentável. Quanto ao fato de dizer que é inapropriado o pagamento de cachê em tais casos, caberia ressaltar que o mestre Eduardo Coutinho tem como mecânica de procedimento tal atitude: ele paga aos seus entrevistados após as entrevistas como maneira de compensar o tempo perdido, ou pelo direito do uso de imagem. No jornalismo convencional, a prática de “comprar exclusivas” não é vista como algo sujo ou condenável. Além do mais, não vi em nenhum lugar que o dia-a-dia dela, hoje, seja patrocinado pelo diretor. Quanto à fotografia elaborada, é sabido que se extrai beleza visual impactante das situações mais estarrecedoras, do meio da miséria, das imagens de guerra e conflitos. O documentário cria um aspecto factual com a utilização, em alguns momentos, de imagens que têm evidente cuidado na questão da luz, dos ângulos, das matizes. Não senti, sinceramente, o desejo puro e simples da exploração de tais aspectos em benefício de causas escusas; reclamamos, constantemente, da falta de melhor acabamento estético em produções nacionais; além do mais, seria imaginar a impossibilidade de apreciação ou vislumbre de beleza, por parte desses abandonados, em meio às mazelas de seu cotidiano; seria não entender que coisas belas podem - e certamente isso ocorre – surgir do meio do lixo, do meio de seu campo, de seu habitat... de suas “pessoas!!!”.
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