PIRATAS DO CARIBE - O BAÚ DA MORTE:


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Original: Pirates of the Caribbean: Dead Man's Chest
País: EUA
Direção: Gore Verbinski
Elenco: Johnny Depp, Orlando Bloom, Keira Knightley, Bill Nighy, Stellan Skarsgard, Jack Davenport, Kevin McNally, Naomie Harris, Jonathan Pryce.
Duração: 143 Min.
Estréia: 21/07/06
Ano: 2006


Ladrões de bilheteria


Autor: Érico Fuks

Diferentemente de “O Código da Vinci”, que teve uma repercussão fria quando chegou ao Brasil, as primeiras impressões dessa continuação de “Piratas do Caribe” foi mais entusiasmada. Os recordes de bilheteria apresentados lá fora ajudaram sua receptividade da crítica e dos curiosos primeiros da fila. Sim, existe uma justificativa de se tentar entender o motivo pelo qual “O Baú da Morte” arrecadou US$ 132 milhões em sua estréia nos Estados Unidos, a maior abertura de todos os tempos da história do cinema. Não é um filme-catástrofe, tampouco adaptação de best-seller. Qual seria então o segredo escondido a sete chaves de “Piratas do Caribe” que não a trilha para o tesouro? O fato de se tratar de uma continuação, com todos os ingredientes de um típico filme de aventura, talvez revele uma vontade latente da maioria do público de se retomar a linha Indiana Jones perdida nos anos 80 e clonada escabrosamente em pequenas produções nos anos 90.

Em primeiro lugar, é bom lembrar que “Piratas do Caribe” é um filme Disney, para o bem ou para o mal. É o mesmo estúdio que criou Peter Pan, um jovem-criança da Terra do Nunca que parou no tempo e vive sendo perseguido pelo vingativo Capitão Gancho, um abominável indivíduo de bigode de Salvador Dali que, ao invés da mão, tem no lugar um cabide pois sua parte humana em questão foi devorada por um crocodilo. Para se adaptar ao gosto do público moderno, ou talvez para introduzir um elemento incoerente ao seu currículo politicamente correto, em “Piratas do Caribe” há uma certa inversão de valores. Aqui o pirata é carismático e não tem em seu caráter dotes malignos de personalidade. Trata-se apenas de um cigano mercenário, um nômade das correntes marítimas em busca de riquezas para seus caprichos efêmeros. Não há nenhum capataz fiel e abobalhado em segundo plano, mas uma horda de desdentados trabalhando em regime semi-escravocrata em troca de promessas de conquista.

É provável que essa caracterização mais atenuada da vilania, moldada e adaptada a certos padrões de comportamento mais liberais, tenha agradado um pouco mais. Jack Sparrow não pertence à extrema direita na convicção de suas políticas territoriais. Por outro lado, não deixa de ser traiçoeiro em nuances da película. Não tem por ideal fazer o mal às pessoas, mas nem por isso evita lances meio sacaninhas, como brincadeiras de criança. Essa composição mais complexa do ideal masculino de herói/anti-herói, desenhada por traços tortos que perambulam entre o poder e a rebeldia, é um achado do filme. O mundo fantasioso de “Piratas” gira em torno do marujo e não da família real britânica, igualmente insossa em relação às fábulas. Sparrow ganha do original Disney ao trazer a sexualidade mais aparente e mais imperfeita, ao contrário do moleque voador do conto de fadas. Esbanja olhares promíscuos e insinua, sem escrachar, pequenas doses de uma lascívia que é permitida na trama. O pirata abre mão da suposta bravura e esbarra em situações embaraçosas, onde exibe hilários momentos de uma fraqueza pueril acovardada. Jack Sparrow é, em última instância, o próprio Peter Pan, numa construção mais dilemática de seu alter-ego.

Não bastasse essa construção arquetípica mais interessante, o que também contribui para o sucesso do filme é o resgate à moda indumentária de seus apetrechos. Todo o aparato visual cênico é cuidadosamente valorizado. A bandeira escura e rasgada com a caveira sobreposta a dois filões de ossos cruzados ganha a sua devida imponência. Bandanas, brincos de baiana, espadas, mapas de pergaminho, tapa-olho, pernas de pau, papagaios, tonéis de rum e qualquer outro objeto de madeira carcomido por cupins ilustram esse festival semi-gótico de encher os olhos. “Piratas do Caribe” é um filme alegórico, que coloca o universo fantasioso em primeiro plano. Um trabalho que prega a convivência entre seus rotos espartilhos e o lado criança do espectador, como se fosse um ingresso de entrada num trem-fantasma de um parque de diversões.

“Piratas do Caribe”, o filme predecessor, caiu no gosto do público meio que por acaso. Claro que o rigoroso padrão Disney e suas estratégias mercadológicas milimetricamente pensadas não deixaram o filme afundar. Mas era uma espécie de azarão dentro da enxurrada de superproduções. Havia sim um cuidado estético nos efeitos especiais, mas o que salvou o filme foram as tiradas cômicas, a integração entre os personagens que parecia fluir para além das telas. Tinha-se a impressão de que o resultado final era um copião dos ensaios, e que as falas decoradas não passavam de improvisos tamanha era a descontração gestual. Esta continuação mantém esse despojamento cênico, mas agora com ares titânicos no que se refere a verbas destinadas a essas gagues. “O Baú da Morte” parece mais ambicioso e caprichado. Ganhou vernizes em seus planos e seus cortes. Até nos detalhes nota-se esse exagero visual. Cada cena, cada ângulo foi pensado e estruturado para vislumbrar até o mais minucioso dos microscópios. Os duelos nonsense permanecem, mas agora o baile desengonçado de esgrima situa-se num confortável e luxuoso figurino. Essa seqüência não deu ponto sem nó; tudo indica que o filme vai abocanhar algumas estatuetas das categorias secundárias do Oscar.

O diretor Gore Verbinski vem aos poucos mostrando suas habilidades para lidar com grandes leões e ao mesmo tempo sua versatilidade em perambular estilos diferentes sem derrapar. “A Mexicana”, seu primeiro trabalho, era uma comédia menor. Depois migrou para o terror “O Chamado”, que guarda poucas semelhanças com este. Seu último trabalho foi o filme-pra-baixo “O Sol de Cada Manhã”, que mais parece um intervalo soderberghiano de sua trajetória artística. “Piratas do Caribe”, o blockbuster, consegue se permanecer dinâmico sem mostrar sinais de cansaço da fórmula. É confuso mas não menos persuasivo. Uma grande produção, no sentido positivo da palavra.

Mas o grande mérito do longa chama-se Johnny Depp. Ele literalmente rouba a cena. Já em sua primeira aparição não poupa suas canastrices interpretativas, fincando aquela cara burtoniana de ponto de interrogação que mais parece esboço de história em quadrinhos. Um trejeito metalingüístico que diz muito mais do que a cena em questão: olhar confuso, como se estivesse acabado de acordar, tentando entender o que o poderoso e destemido Jack Sparrow estava fazendo ali. Igual àquela navezinha de videogame que aperta o botão do hiperespaço e vai parar no meio de um monte de asteróides pouco amistosos. Depp é isso mesmo, um ator que acaba de fazer um nobre pustulento e sifilítico personagem no cinema mas não abdica de suas peripécias comerciais como corsário galanteador, com direito às mesmas olheiras de Don Juan de Marco. Demora pra entrar em cena e, enquanto isso, tem-se a impressão de se tratar de outro filme. Perto de seus tiques meditabundos irresistivelmente patéticos e carismáticos, todo o charme de Orlando Bloom e a exuberância faminta de Keira Knightley ficam rasinhos, rasinhos.

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