CONSUMIDOS PELO ÓDIO:


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Original: Chi to hone
País: EUA
Direção: Yoichi Sai
Elenco: Takeshi Kitano, Hirufumi Arai, Tomoko Tabata, Odagiri Joe, Kyoka Suzuki, Mihoko Suino, Shigemori Matsu, Yuko Nakamura.
Duração: 144 min.
Estréia: 14/07/06
Ano: 2005


“Consumidos pelo ódio” – Um exercício de contemplação


Autor: Liciane Mamede

A saga de um personagem que transpassa parte relevante da história de um país ou de um povo. Esse é o mote de muitos grandes filmes, basta lembrar do ultraclássico “...E o vento levou”, de Victor Fleming ou de “Era uma vez na América”, de Sérgio Leone, talvez o maior de todos os filmes do gênero já realizados. “Consumidos pelo ódio”, de Yoichi Sai, tem também uma saga e um personagem marcante como mote, além de ser um filme tão intenso que, algumas vezes, consegue ter a proeza de lembrar Leone.

A primeira cena da briga entre pai e filho numa ruazinha com uma trilha instrumental de fundo, apesar de extremamente violenta, não deixa de ser emocionante, tamanha referência a “Era uma vez na América”.

Quando um filme delimita seu espaço temporal numa vida inteira, a trajetória do personagem, na maioria das vezes, soa triste e nostálgica. Acompanhar a juventude sendo consumida aos poucos pelo sofrimento imposto por um contexto histórico, quase sempre traz ao filme um tom melancólico. A julgar pelos relatos do cinema, a trajetória de uma vida pode ser extremamente triste porque é sempre uma história de degradação, de consumação, uma constatação de que um homem nunca sobreviverá ao tempo.

Shunpei Kim é o personagem cuja trajetória será esmiuçada em “Consumidos pelo ódio”. Não apenas convivemos durante mais de duas horas de filme com sua trajetória, mas também com os efeitos que ela fará ressoar na vida de outras pessoas.

O coreano Shunpei Kim deixa seu país natal numa onda de imigração para tentar a sorte no Japão. Sua vida é contada em flashback por um de seus filhos, Massao. Logo de início, pelo tom da fala do filho, somos levados a crer que os feitos negativos de Shunpei deixaram profundas marcas na vida de todos aqueles que o rodearam.

Depois saberemos que ele estuprava sua primeira esposa, mãe de Massao, batia sem receio nos filhos e funcionários. Não havia outra linguagem possível para Shunpei que não a da violência, essa era sua única forma de comunicação com o mundo. Uma forma, entretanto, altamente destrutiva. As tragédias geradas por suas formas de agir repercutiam também contra si mesmo.

Depois de criar uma situação insuportável, simplesmente abandona sua primeira família para tentar constituir outra. É uma fuga dos problemas, mas também pode ser encarada como uma fuga de si mesmo. Quando a segunda família não dá certo – graças à violência do marido, a segunda mulher acaba sofrendo um traumatismo na cabeça que a deixa vegetando –, uma terceira tentativa acontece. Como a causa real do problema, ou seja, a índole não só violenta, mas também cruel, de Shunpei não muda, ou sequer desvia, sua trajetória de fracasso e tragédias parece determinada.

A personalidade do patriarca ecoa tanto no filme e em seus personagens, que as afeições, na maioria das vezes, limitam-se a breves olhares. A violência, a frieza e a crueldade estão tão impregnadas na vida daquelas pessoas que, mesmo quando distantes, não conseguem superá-la. É o caso, por exemplo, da filha mais velha de Shunpei. Quando casada, não consegue reagir à violência do marido. A passividade é o único recurso a que teve acesso na convivência opressiva com o pai.

Apesar das claras referências ocidentais, “Consumidos pelo ódio” consegue estabelecer um forte diálogo com as tradições orientais. Além de abordar parte importante da história do Japão, também foca muito de perto as tradições do cotidiano, incluindo a relação entre vizinhos, amigos, mãe e filhos. Apesar da forma expansiva com que Shunpei age para praticar sua violência, é um filme rico em detalhes sutis a respeito de seus personagens. Pode parecer paradoxal, mas há muito para se contemplar em “Consumidos pelo ódio”.

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