TRANSAMÉRICA:


Fonte: [+] [-]
Original: Transamerica
País: EUA
Direção: Duncan Tucker
Elenco: Felicity Huffman, Kevin Zegers, Fionnula Flanagan, Elisabeth Peña, Graham Greene, Burt Young, Carrie Preston, Verida Evans, Jon Budinoff.
Duração: 103 min.
Estréia: 14/07/06
Ano: 2005


“Transamérica”: um filme transgênero e uma outra América


Autor: Cesar Zamberlan

“Transamérica”, que venceu o Globo de Ouro na categoria melhor atriz e teve duas indicações ao Oscar, trabalha com um tema bem conhecido do cinema norte-americano: o da superação. Trata da jornada de um transexual, em busca de uma nova identidade, uma operação de mudança de sexo que corrigiria um problema genético. Mas, não é só em relação à indefinição do sexo ou gênero do herói que “Transamérica” embaralha coordenadas tão comuns a esse tipo de cinema, o filme de Duncan Tucker é praticamente um “filme transgênero”, pois faz uso de gêneros, road-movie e melodrama, e estruturas bem conhecidas e estudadas para mostrar algo que não é nada comum a esse tipo de filme ou cinema: usa a forma, mas muda o fundo; usa a estrutura e critica a sociedade que pariu esse modelo, mostra uma América ao avesso, daí o nome “Transamérica”.

Nesse sentido, o filme soa tão estranho quanto um filme de Lynch e de Cronemberg, principalmente aqueles que parecem mais normais e não o são, caso de “História Real” e “Marcas da Violência”, filia-se a uma série de filmes que mostram uma outra América, mas o faz de forma sutil, sem ridicularizar seus personagens, mostrando-os apenas, sem julgo de valor, sem criticá-los, sem menosprezá-los.

Não é fácil assistir o filme de Tucker, produzido por William Macy, marido da premiada Felicity Huffman, num trabalho realmente magistral. O filme é muito frio com seus personagens, os apresenta como são, sem qualquer tipo de constrangimento ou pudor. Se em determinado momento do filme, sentimos que Tucker explora os personagens, é porque nós, espectadores, é que nos sentimos constrangidos com o que vimos; o cineasta não. Tucker constrói o filme com um estranho desapego para com os personagens, conformando uma visão de mundo e de ver o mundo. Nesse sentido, não poderia ser mais honesto com o que quer retratar.

Uma outra curiosidade em relação ao filme, é que ele, às avessas como já foi dito, retoma uma questão bastante presente em outros filmes recentes que é a volta ao passado e o reencontro com um filho, que o protagonista nem sabia que existia, para uma espécie de acerto de contas com o passado e com a construção de um novo presente e futuro. Vimos isso em “Flores Partidas” de Jamursch e “Steve Zissou” de Wes Anderson, ambos com o ator Biil Murray.

Aqui, o reencontro com o filho vira uma condição da psicóloga para autorizar a operação de troca de sexo e a agravante, sem usar a palavra como julgo de valor, é que o pai agora é uma mulher que espera a operação para confirmar sua decisão de ser outra pessoa. Como esconder isso do filho recém saído de uma instituição para menores marginais que imagina que a mulher que o tirou de lá é uma assistente social e não o pai a quem procura é a questão a ser solucionada, se é que há solução possível para uma trama tão embaralhada como essa. E diante do imbróglio, o diretor não sucumbe a possíveis destemperos, pelo contrário, joga o filme na estrada - a viagem de volta a Los Angeles, não por acaso a terra do cinema, e outra aspiração do menino -, num road movie, terreno tão típico a descobertas, recheado de citações a formação daquele solo e sociedade e repleto de personagens “estranhos”, como a família dela, tão tipicamente americana, seres que moldam essa nova América, a transamérica do filme.
Leia também:


Transamérica, um legítimo filho do cinema independente americano