SUPERMAN - O RETORNO:


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Original: Superman returns
País: EUA
Direção: Bryan Singer
Elenco: Brandon Routh, Kate Bosworth, Kevin Spacey, James Marsden, Parker Posey, Frank Langella, Sam Huntington, Eva Marie Saint.
Duração: 154 min.
Estréia: 14/07/06
Ano: 2006


Superfilme de Amor


Autor: Cid Nader

Várias altas expectativas me faziam aguardar, ansiosamente, o novo filme do único sobrevivente de Kripton, "Superman - O Retorno". Portanto, várias avaliações tentarei fazer, e várias quebras na minha linha de raciocínio se farão presentes nesse meu texto. Lembrar do homem que tem mil capacidades a nos excitar e despertar desejos que vêm desde a infância, como: a capacidade de enxergar através de objetos sólidos (com a horripilante exceção daquele material asqueroso e sem graça que é o chumbo); a força sobrenatural, que não teme nada e subestima qualquer peso ou força (basta lembrar que, por amor a Lois Lane, o rapaz chegou a reverter o giro da Terra); o poder resistir, sem respirar, seja debaixo d'água ou no espaço sideral; ou então, a apropriada dádiva de escutar qualquer conversa em qualquer lugar e a qualquer distância. Mas, além de todos esses benefícios, há um, sem dúvida, que mais atiça, que mais nos causa inveja e admiração, que nos faz realmente fãs ardorosos do super-herói: é o poder do vôo; aquele anseio que persegue o ser humano desde e o início de sua existência, incitando-o a romper barreiras e fronteiras tecnológicas, fazendo-o desenvolver todo um estudo de simbologias que deflagraram - ou no mínimo constituíram grandes componentes - a psicologia, junto com a criação dos mitos e dos deuses. Voar, capacidade que hordas trocariam, dando em escambo até o intelecto desenvolvido, sem receios, e que faz de Kal-El o super-herói dos super-heróis, o mais admirado, o que mais nos remete à infância - conseqüentemente ao intuitivo.

Portanto, rompida a expectativa de ver Superman novamente na tela grande, apresenta-se uma outra: a que nutri, ansiosamente, numa aposta forte na capacidade do diretor Bryan Singer em produzir um grande trabalho. O diretor, que surgiu com "Os Suspeitos", ganhou minha credibilidade quando ingressou no mundo das super-criaturas através da saga dos X-Men - fez dois filmes, sendo que atingiu quase a perfeição no segundo -, mostrando que compreendia muito mais a essência contida no âmago desses personagens do que a vil e rasa forma exterior; sem, contanto, deixar de evidenciar as características plasticamente estupendas de todos esses egressos das graphic-novels - principalmente da DC Comics -, utilizando para isso os mais rebuscados efeitos da computação gráfica, aliado a gastos estupendos na construção de cenários gigantescos. Mas a real razão de ser, as dúvidas que constroem personalidades e angustiam defensores da Terra, essas, normalmente - existem as honrosas exceções dos recentes "Hulk" e "Homem Aranha 2" -, são relegadas ao quinto plano, por diretores que não enxergam além do nariz mais do que lutas sangrentas, explosões dolby-digitalizadas e transformações sob efeitos de alta-definição. Singer observa com carinho a formação psicológica de seus personagens, diminuindo o ritmo da ação para mostrar sua importância. Fez novamente isso em "Superman - O Retorno", e não me decepcionou; não quebrou as minhas expectativas; manteve-me um ser crente nas boas idéias, nas boas expectativas, no bom aguardo.

”Superman – O Retorno” vai além de uma obra que aposta em mostrar as angústias e buscas do travestido repórter do jornal "Planeta Diário", Clark Kent, que volta à Terra, após cinco anos de ausência, de uma viagem pelo espaço, onde buscou resquícios de sua formação, de seu passado, de sua origem - a reentrada em cena do super-herói é espetacular e divertidamente desastrada, quando sua nave, incandescente, passa raspando por cima da casa da mãe adotiva, Martha Kent (Eva Marie Saint), estatelando-se com alarde e explosão no milharal da família. O trabalho do diretor ultrapassa os já complexos meandros existenciais do personagem e nos é apresentado como um estupendo filme de amor; um grande filme de amor - filmes de amor são difíceis, são trabalhosos, tendem a beirar o "piegas", a invadir o campo "meloso". Brian Singer construiu uma obra na qual o super-herói volta e busca, instantaneamente, a antiga paixão, Lois Lane (Kate Bosworth); a quem descobre com um novo noivo e um filho pequeno. O primeiro momento de interação entre os dois, após o pouso "auxiliado" de um avião em pane, é constituído apenas por olhares que conseguem passar a exata dimensão de uma relação somente adiada. O diretor faz do eixo central do filme as tentativas de aproximação e de recusa entre os dois. Superman conduz seus atos durante o transcorrer da história por amor à humanidade, sim - aliás a grande carga que o personagem, criado em 1938, tem que carregar, numa indubitável transferência do mito do esperado Messias, criado à imagem do pai ... Realiza salvamentos, comete as boas ações aguardadas, é saudado por todo o planeta mas, mais do que nunca, demonstra nos entrechos dessas atitudes que muito do que faz é por Lois; para ser notado por Lois; por ciúmes do noivo de Lois.
,br /> Lex Luthor está presente – naturalmente - numa composição correta do antigo companheiro de Singer (Os Suspeitos), Kevin Spacey. O anti-herói está mais para um ser humano qualquer - um tanto mais ambicioso, logicamente, e usando métodos mais, digamos assim, pesados -, que requer somente o seu quinhão de direito. Arma um plano para conquistar "sua parte", antevendo a interferência do super-herói e armando-lhe uma tremenda arapuca, com direito a Kriptonita e tudo mais - há uma cena amedrontadora que desestabilizará nossas convicções, onde um super-homem, extremamente humano e enfraquecido, nos fará contorcer de raiva e medo nas cadeiras. O personagem de Kevin tem sarcasmo, maldade infantil e um certo ar trapalhão bastante bem-vindos.

Não sei qual será a reação do público mais "urgente" quanto ao filme. A primeira transformação de Clark Kent se dá lá pelos 20 minutos de película transcorrida, e as cenas de ação, lutas, explosões e algo mais, não são o principal mote condutor do filme – apesar de estarem lá, esplendidamente bem realizadas. Ouvi reações negativas de parte da crítica; não consigo entender. Além do mais, Singer fez um filme homenagem, recheando o trabalho com um pouco mais da sensibilidade característica do autor. Os flash-blacks nos quais Superman relembra as últimas palavras do pai, Jor-El, são totalmente "Superman - O Filme", onde tal papel era interpretado por Marlon Brando. O próprio ator principal (Brandon Routh) - em seu primeiro papel - lembra em seus traços o original dos longas cinematográficos, Cristopher Reeve. A mulher com quem Lex Luthor se casa após a saída da prisão - e de quem herda fortuna e iate, apropriadamente -, Gertrude Vanderworth , é Noel Neill, atriz que representou o personagem de Lois Lane em dois episódios da década de 1940 e nos da década de 1950. A mãe adotiva de Clark, a lendária Eva Marie Saint, foi protagonista em "Intriga Internacional" e "Sindicato de Ladrões". Isso para não falar do septuagenário Frank Langella, no papel do dono do Planeta Diário, Perry White.

A expectativa do novo ator a representar o super-herói não constitui o grande trunfo do filme, mas também não é coisa horripilante que dizem alguns. Lois Lane retornou linda e emocionante. O filme, como obra de ação, também está justo, adequado, correspondendo ao que eu - ao menos eu - esperava. Os efeitos utilizados por Singer, antes de simplesmente passarem sinais puramente estéticos, cumprem funções "emotivadoras": o vôo do Super-Homem, por exemplo, é leve, sem barulhos desnecessários ou solavancos - em alguns momentos ele flutua levemente e observa sua amada ou a Terra, como se fosse uma figura santificada. Sua angústia se manifesta quando reclama que ouve o que não gostaria, que ouve os lamentos de dores, súplicas, pedidos de ajudas, e sente obrigações; manifesta - mesmo que implicitamente - que desejaria ser humano. Percebe-se que trocaria tudo pelo amor de Lois, mesmo sabendo que sua função será sempre dura, divina. Bryan foi sensível o suficiente para homenagear seu - e meu - super-herói de predileção.

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O homem é de aço. O filme, não.