OS SEM FLORESTA:


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Original: Over the Hedge
País: EUA
Direção: Tim Johnson e Karey Kirkpatrick
Elenco: Animação
Duração: 83 min.
Estréia: 07/07/06
Ano: 2006


“Os Sem Floresta” – tradição, família e falta de propriedade


Autor: Cid Nader

O mundo da computação gráfica parece não ter limites. A DreamWorks, esse braço computadorizado-graficamente da grande indústria do cinema, não nega fogo e continua tentando alcançar qualidades inimagináveis na história do desenho – vá lá, animação – desde que esse começou a ser utilizado pelo cinema. Uma das informações mais acachapantes vinda da produção da investida dá conta de que “mais de 15 milhões (!) de horas combinadas” foram gastas desde o início do trabalho em busca da concretização e “Os Sem Floresta”. Inacreditável? Produto de valorização dos marqueteiros de plantão? Sabe-se lá. A única certeza é de que cada vez “soa” mais “natural” a aparição de bichinhos e paisagens nesses produtos configurados e realizados através do uso da informática. Se isso é relevante ou não, é outra discussão. Se isso tem mais valor do que aqueles primeiros desenhos feitos em aquarela, à mão, sobre chapas de vidros, também é questionável. Viver remoendo e chorando um passado mais lúdico pareceria saudosismo gratuito, já que a tecnologia não impede a utilização de modos “antiquados” para a confecção de novos trabalhos – há até exemplos recentes de desenhos (!) feitos à antiga. O que não pode jamais deixar de ser citado e observado é que o resultado “empírico” de tais aventuras sirvam apenas para externar técnica aos nossos olhos, soterrando quaisquer possibilidades de ludicismo, de ternura, “esdruxulices” ou motivações mais, digamos assim, nobres.

Os trabalhos da DreamWorks caminham um pouco na contra-mão daqueles realizados pela Pixar, por exemplo. Eles até concedem espaço para situações bizarras – “Shrek” é recheado delas – mas sente-se no ar uma certa vontade de terminar tudo “muito família”. O que eles ousam na hora do uso da tecnologia e na concepção de idéias mirabolantes recebe um freio com cara de “família americana” e/ou politicamente correto, ao final. A idéia da família é muito arraigada em setores da sociedade ianque e sobrepõem-se, pior, impõem-se, de maneira abrutalhada e desnecessária a alguns tipos de manifestações artísticas – logicamente aquelas que aceitam isso. Nessa animação de cunho politicamente correto – aqui louvável, pois o ataque é direcionado aos que destroem o meio-ambiente, aos que imaginam os outros animais como “insetos” indesejáveis -, quando tudo de bom se apresenta para que a boa mensagem seja devidamente passada, surge uma insistência careta e deslocada de colocar todos os animaizinhos, que lutam pelo seu modo de vida restaurado, dentro do mesmo círculo co-sangüíneo; dentro do mesmo núcleo, como uma família. Ora, besteira! O efeito desejado seria tranqüilamente alcançado se todos eles fossem colocados na categoria de amigos. Fantasia por fantasia, “amigos” soa menos opressor e menos sufocante do que “família”

Seguindo o mesmo padrão de “bom comportamento” há o bom e sábio líder da trupe de recém-hibernados, Verne (uma tartaruga), que tem de enfrentar o sabichão e desesperado guaxinim (RJ) num embate para a definição de quem liderará o grupo de “coletores” na aquisição de suprimentos para o próximo inverno. O ser humano é o vilão, por egoísmo, da animação; “vilanice” que se estende ao pobre urso – coitado, por que cargas d’água o pobrezinho tem de fazer o papel do único dentre os participantes da história, que não tendo o dedo polegar opositor recebe a pecha de ser “do mal”. Um monte de sacadinhas inteligentes desfilará durante o transcorrer da película; algo que é praxe nessas animações. Há várias piadas inspiradas, situações bem pensadas: fingir de morto renderá boas gargalhadas, dirigir um furgão como se fosse um vídeo-game em busca de bônus ocasionais é bacana, lamber as partes íntimas para agradar aos humanos é genial; produto de muita observação e conhecimento da psicologia humana e das reações animais. È sempre notável o apurado trabalho de pesquisa e seu bom aproveitamento nesses produtos computadorizados. Quase sempre com bons resultados. Acontece, porém, que a DreamWorks é um tanto mais conservadora e adepta dos bons costumes, e pisa no freio quando a aceleração está interessante.

“Os Sem Floresta” acaba por ser esplendidamente bem produzido, caretamente correto, ecologicamente louvável, e família demais. Feito para atingir um público mais infantil do que “Shrek”; mais na faixa etária almejada por “Madagascar”. Se fosse um pouco mais ousado seria antologicamente infantil – no bom sentido. E, por favor: tem gente que gosta mesmo dessas dublagens? Sinceramente?
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