BANDIDAS:


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Original: Bandidas
País: EUA/França/México
Direção: Joachim Roenning e Espen Sandberg
Elenco: Penélope Cruz, Salma Hayek, Steve Zahn, Dwight Yoakam, Denis Arndt, Audra Blaser e Sam Shepard.
Duração: 93 min.
Estréia: 07/07/06
Ano: 2006


Roubaram a beleza


Autor: Érico Fuks

Espen Sandberg e Joachim Roenning estão para Robert Rodriguez assim como o cinema pornográfico está para o amor sincero. Os diretores noruegueses que foram para Los Angeles filmar comerciais publicitários de grandes anunciantes chamaram a atenção do produtor Luc Besson para trabalharem em conjunto no primeiro longa-metragem da dupla. Tirando as convenções cinematográficas que caracterizam o país de Calderón, como a cor dourada das areias desérticas que ganham um contraste com a cor de terra das pessoas, o ruído do crocitar dos corvos solitários que bica o silêncio do ambiente, as cascavéis e as esporas, os sombreros e o bangue-bangue ao som de bandolins e dos estridentes trompetes, resta muito pouca semelhança com o consagrado apadrinhado de Tarantino. Quente mesmo, só a temperatura. “Bandidas” é um filme quase tão gélido quanto as montanhas do país nórdico de origem dos publicitários.

Estamos em 1878, época em que os magnatas de grandes ferrovias norte-americanas estão se estabelecendo do México e expandindo as estradas de ferro, durante o regime do déspota Porfírio Diaz. Cidadãos de bem estão sendo desapropriados de suas terras por meio de pagamento de apenas um peso mexicano e a quitação de dívidas. Caso se recusem a entregar as propriedades em troca dessa aviltante quantia, são mortos à queima-roupa pelos capangas do tirano Tyler Jackson (Dwight Yoakam), um negociante que tem muito interesse nessa emancipação estadunidense. Maria Alvarez (Penelope Cruz) é uma mulher do povo, pessoa simples e durona, politizada e inconformada com esse massacre. Já Sara Sandoval (Salma Hayek) é culta porém mimada, vaidosa, nasceu em berço de ouro, uma espécie de patricinha latina. Esses opostos de personalidade se encontram no momento em que o pai de Sara, um homem de respeito no país, está negociando com Tyler. Por uma estranha coincidência, o pai morre por uma causa desconhecida durante a reunião fechada em que se assinam os contratos. São essas diferentes motivações (igualdade social por um lado, vingança familiar por outro) que unem as guerrilheiras calouras, que passam a roubar bancos para devolver o acúmulo de riquezas ao povo e distribuir as verdinhas a quem verdadeiramente merece.

Daí pra frente, “Bandidas” tenta se aproximar de Butch Cassidy e Sundance Kid. Ganha um tom meio de comédia com pano de fundo social. Retoma o assunto trabalhado em Robin Hood, desta vez com um pouco mais de tabasco. Mas tanto dinheiro envolvido na história não tira o filme da pobreza. A crítica à ganância resolve-se pelos meios e não pelos fins. O filme traz uma questão recorrente nos dias de hoje dentro de um contexto mais antigo. A presença de Quentin Cooke (Steve Zahn), um detetive especialista em impressões digitais que se deixa seduzir pelas duas forasteiras, serve de paralelo a tantas CPIs a que assistimos. Ele cumpre o papel de um fiscal do Tesouro, guardadas as devidas proporções. Mas “Bandidas” não é um filme político. E na intenção de reproduzir o modelo de um novelão um pouco mais contido e sem as lágrimas que caracterizam o gênero, não funciona.

Sandberg e Roenning aproximam-se de Rodriguez apenas na maquiagem. O diretor de “Balada de um Pistoleiro” explora até a exaustão as imagens do ambiente, mas isso serve apenas para contextualizar suas parábolas e deixá-lo mais à vontade no exercício criativo de sua ficção. Forma e conteúdo se fundem na reprodução fantasiosa de suas idéias, muito mais mirabolantes porém de entendimento bem simples. O exagero do artifício contribui para esse retrato freudiano mais onírico, mais pueril. Portanto, Rodriguez tem maior liberdade de assumir suas hipérboles fabulares. Já os noruegueses usam o formato Cidade do México como um personagem, mas não saem dele. Fincam suas câmeras em longos planos descritivos, como que para expor didaticamente que estão caracterizando seu texto. Mas aí tudo fica caricato demais. “Bandidas” dá a seu figurino um aspecto circense, em que a reprodução exagerada da realidade não acrescenta nada ao trabalho senão um inchaço visual. Falta malemolência na condução da câmera, falta timing, falta capricho cênico. As imagens são coordenadas de modo tipicamente celta: duro e bárbaro. Talvez o máximo que sua seca areia do deserto consiga é empoeirar o filme nas nossas retículas, embaçando todo o seu potencial.

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