O LIBERTINO:


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Original: The Libertine
País: Inglaterra
Direção: Laurence Dunmore
Elenco: Richard Coyle, Johnny Depp, Rupert Friend, Tom Hollander, Cara Horgan, Shane MacGowan, John Malkovich, Maimie McCoy e Samantha Morton.
Duração: 116 min
Estréia: 07/07/06
Ano: 2003


“O Libertino” – heresia e redenção


Autor: Cid Nader

Toda vez que um novo filme de época aporta cá por nossas bandas uma cisma eterna começa a galgar degraus no cérebro, até chegar às camadas mais superficiais e se manifestar: “ih, lá vem mais um daqueles trabalhos com restituição cênica, de cabelos e de roupas, sem nenhum interesse a mais que não o de mostrar qualidade estilística e o quanto foi consumido de dinheiro para se alcançar tal intuito”. Incomoda, a ponto de criar trauma, a expressa mania que diretores e estúdios têm de carregar com tintas fortes alguns tipos de espetáculo, esquecendo-se – quando existe – da essência da história, em benefício de um exercício absurdo e desnecessário de “estilismo”.

Quando vi, então, que “O Libertino” era o primeiro trabalho na direção de Laurence Dunmore, gelei. Quando vi – pior ainda – que ele era pessoa tremendamente bem sucedida no mundo da publicidade e do vídeo-clipes, petrifiquei. Imaginar um filme de época, recheado de possibilidades como o uso da luz difusa, da câmera na mão maluca e agitada, dos cenários “fakes” e afins, não criava boas perspectivas; não atiçava a curiosidade. Muito ao contrário, parecia gritar: fuja! Mas preconceito é manifestação a ser execrada e exilada por quem se interesse e se arroje a analisar trabalhos de outros. Não é cabível colocar farinhas nos mesmos sacos, sendo que procedem de variados moinhos.

E Dunmore até que provou não ser farinha do mesmo saco. Seu filme carrega alguns cacoetes em sua apresentação final, porém, justamente esses, são o que fazem ganhar pontos. A luz – eterno problema no cinema realizado por publicitários e congêneres – é de suma importância para passar credibilidade a um momento histórico que emergia da era das trevas; da idade média. E ela é utilizada com sabedoria pelo diretor, que consegue momentos de escuro/claro, luminosidade/difusão, num país ainda em processo de transição, que se estatelava no chão enlameado mas pronto a ser replantado com novos conceitos; que virava o fio – principalmente no teatro, maior e mais prestigiado rancho de difusão de idéias, à época – e se entregava à promiscuidade, permissividade sexual e lascívia, como manifestação ostensiva contra o enclausuramento dos tempos recém-extintos; que tentava manter novos relacionamentos de paz com inimigos ancestrais. O uso do assustador recurso câmera na mão se faz presente, mas com um requinte poucas vezes observado: Laurence consegue uma aproximação interessante junto a seus protagonistas, criando uma intimidade algo rara no cinema atual – por alguns instantes, logicamente – e, longe do treme-treme usual, consegue viradas exatas de câmera que se encerram, normalmente, em takes pertinentes e de grande qualidade, quase sempre com “algo a dizer”.

A história se passa no século XVII, em meio ao processo da Restauração Inglesa. Conta um trecho da vida de John Wilmot (Johnny Depp), o Segundo Conde de Rochester, o tal libertino, que era conhecido por suas façanhas sexuais, sua liberalidade, e por ser um escritor de prestígio e criador de peças “bastante avançadas” – que se encaixavam perfeitamente ao novo espírito transgressor dos costumes que se instalavam na excitada nova sociedade. Wilmot era protegido pelo rei Charles II (John Malkovich) – também produtor do filme – que o considerava uma espécie de filho adotado. Charles II tinha uma gratidão eterna ao Conde de Rochester (o pai), que o havia salvado num momento anterior da história do país, e passou a proteger o libertino, tornando-o seu confidente e dando-lhe espaço para que se tornasse um dos maiores – e menos respeitosos realizadores teatrais. Outro personagem importante do filme é a atriz de teatro Elizabeth Barry (Samantha Morton), por quem Wilmot se apaixona e a quem dedica seus últimos momentos de lucidez, na tentativa de fazê-la grande – ela acabou por tornar-se a maior atriz do reino. Justamente ele, um grande sedutor e um tanto pervertido, que se rende de maneira mais fiel a ela ao mesmo tempo em que “procura” a “salvação” ou a paz na religião – nada como a proximidade da morte.

O filme aposta muito pouco na suma importância dos figurinos – eles estão lá, sim – e suja-os com a lama das ruas, com a poeira do teatro, isto é, lhes dá vida e função de verdade. A caracterização de Johnny Depp é correta e sem excesso de “estrelismo” – um perigo que sempre acompanha o ator, já que atua no limite, quase sempre interpretando personagens que vivem na fronteira, o que facilmente pode tornar-se armadilha. A de Samantha Morton é bem decente, contida, apropriada; fazendo jus à figura da atriz, de beleza cândida, tranqüila, daquelas que não parariam o trânsito. John Malkovich aparece pouco e, aparentemente, isso também é um ganho para o filme, pois representa o personagem mais caricatural – principalmente pela maquiagem – e excede um pouco nos momentos em que aparece. Se o conjunto das atuações for mérito do diretor, mais um ponto a favor.

A música é de Michael Nyman, o que quer dizer que você já terá ouvido algo muito semelhante antes. Ele é um dos músicos mais procurados por uma fatia dos diretores de cinema – aquela que se situa um tanto à parte dos que trabalham para os grandes estúdios, normalmente composta por diretores europeus, mas que não abdica de “uma certa qualidade”, um “certo requinte”, na hora e finalizar seus trabalhos. Incomoda menos do que poderia se esperar, mas está lá, presente o tempo todo. No final do filme – na hora dos créditos – ela compõe grande equilíbrio com um “poema”, (If), de redenção, de purificação, de aceitação e temor da morte escrito por Jonhn Wilmot. Cria um grande fechamento para o trabalho, passando uma sensação de que ele talvez seja melhor do que o é na realidade.
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