SEPARADOS PELO CASAMENTO:


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Original: The Break-Up
País: EUA
Direção: Peyton Reed
Elenco: Jennifer Aniston, Vince Vaughn, Joey Lauren Adams, Shelby Bakken, Vincent D'Onofrio, Jon Favreau, George Glynn, Mary-Pat Green, Cole Hauser, Judy Davis.
Duração: 106 min.
Estréia: 30/06/06
Ano: 2006


Um casamento que não deu certo


Autor: Érico Fuks

O que faz um filme funcionar não é apenas o namoro entre roteiro, elenco e direção. É a afinidade de um conjunto de fatores, um casamento perfeito entre quem interpreta, quem filma e quem paga, dentro de um contexto extracinematográfico favorável. Pode até haver bons partidos em contrato, mas se no dia-a-dia não existir a conhecida mágica do amor, o resultado pode instigar o público ao divórcio.

“Separados pelo Casamento”, filme que andou desbancando os Leonardos e os Wolverines da liderança de bilheteria em sua semana de estréia nos Estados Unidos, parte de uma premissa anti-romântica com uma série e concessões que aos poucos vão enfraquecendo seu cheiro de novidade e colocando o trabalho nos lugares-comuns. Rompe mitos idílicos sobre este nobre sentimento e afirma de modo prosaico que os opostos se repelem.

Tendo como protagonista Vince Vaughn, que também é responsável pelo roteiro e co-produção, é decorrência natural que a câmera-ególatra gire em torno do eixo deste comediante. Ator e personagem se fundem na figura de Gary Grobowski, que fala mais do que a boca. Ele está na arquibancada de um estádio de beisebol (que o cinema norte-americano tem adotado como um ótimo campo para definir seus personagens), de olho na ensimesmada Brooke Meyers (Jennifer Aniston), acompanhada de um janotinha cafona. Após um forçado e colesterólico hot-dog, o fanático seduz à sua maneira a comportada e finalmente o casal nada a ver consolida matrimônio. Mas as cenas felizes são mostradas apenas em fotos, ainda como pano de fundo aos créditos iniciais. O filme propriamente dito centra-se nas brigas e desentendimentos, desta vez dividindo-se mais o centro das atenções com a ex de Brad Pitt em iguais proporções ao astro.

Mesmo partindo de um princípio que se sustenta pela oposição (o anti-amor), a construção da narrativa apóia-se em convenções consolidadas pelo cinema e não em tabus. Isso não chega a contradizer suas intenções, mas deixa o caldo aguado e as encenações chochas. Gary é animado, trabalha como um guia turístico de Chicago e consegue sua aceitação profissional aos gritos. Já Brooke trabalha numa galeria de arte, um ambiente tão sofisticado quanto silencioso. Ganha a vida com as gordas comissões sobre os altos valores de quadros modernos, o que supostamente lhe dá um ar de superioridade em relação ao cicerone de velhinhas e orientais. Gary é um típico “macho”, por assim dizer. Gosta de esportes, freqüenta o bar com amigos e quando chega em casa não dispensa uma cervejinha. Acha que em seu apartamento (o único vínculo material que faz o casal não se separar) falta uma mesa de sinuca. Brooke é mais ligada ao lado onde as explicações não são tão simplórias. Neste mesmo apê, deve haver 12 limões (nem 11, nem 13) para a perfeita decoração fengshuiana do ambiente. Esse contraponto já serve de um grande indício da caracterização mais primitiva e sexualizada de Gary em relação ao frio e intelectualizado personagem de Brooke.

Se o roteiro parasse nas mãos de Nancy Meyers, por exemplo, provavelmente seria mais dinâmico. A diretora de “Alguém Tem que Ceder” não tem medo de assumir uma posição mais convencional em relação a seus personagens e ao desfecho de seus dilemas. Já o novato Peyton Reed (diretor do musical “Abaixo o Amor”) não teve coragem de inovar na fórmula que o argumento sugeria. Na intersecção dos planos e contraplanos, apesar dos bons diálogos, sobra um material gasto, calcado em estereótipos. Toda a briga começa quando eles têm que decidir quem vai lavar a louça. Quando assumem que estão juntos mas separados, Gary apela para shows particulares de strip tease, enquanto que Brooke sai à procura de metrossexuais com um estilo de vida mais sofisticado. A cena em que ela tenta seduzir o ex-marido passeando nua pela sala beira o constrangimento. “Separados pelo Casamento” é um filme indeciso, que procura fugir dos padrões cinematográficos mas não sabe o que fazer sem eles.

Reed parece ter encontrado dificuldades em somar duas metades tão distintas inseridas em um texto frágil. Vaughn vem se firmando em comédias e conquistando simpatia do público. Se estivesse ao lado de sua trupe do gênero, como Ben Stiller, os irmãos Wilson e Will Ferrell, talvez encontraria um terreno mais confortável para exibir a marca registrada de seu humor, algo mais imediato, mais grosseiro e de conotações farrelianas. Aniston também parece pouco à vontade fora de sua praia na linha do seriado “Friends”. Em suas aparições-solo, os atores mostram que têm talento. Mas no intercâmbio cênico, faltou química ao casal.

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