CARROS:


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Original: Cars
País: EUA
Direção: John Lasseter
Elenco: Animação
Duração: 128 min.
Estréia: 30/06/06
Ano: 2006


Virtuosismo técnico e caminho previsível, como numa corrida em circuito oval


Autor: Fábio Yamaji

Saindo da sessão de “Carros”, tive um misto de sentimento de euforia e decepção. Euforia pelo espetáculo visual em cores, formas e movimento gerados em ambiente virtual e transformados em sequências empolgantes e de pura graça. Decepção por constatar que estas sequências servem a uma história previsível e esquemática demais - mesmo para um filme de animação infantil – e principalmente por se tratar de uma produção da Pixar, que tem como grande diferencial a qualidade e a originalidade de seus roteiros. Dela, nos habituamos a manter as expectativas lá em cima – reflexo da imbatível série de sucessos que culminou na obra-prima “Os Incríveis”. De qualquer maneira, “Carros” se mantém acima da média geral - o saldo é positivo. E, felizmente, da Pixar continua intacto o capricho na elaboração de cada personagem, que aqui consistiu em transpor figuras do nosso dia-a-dia em carros falantes.

Relâmpago McQueen é a mais jovem promessa da temporada de corrida de carros. Ousado, corre a prova decisiva de maneira impecável mas deixa escapar a vitória isolada pelo excesso de confiança, cruzando a linha de chegada em inédito empate triplo - com o desleal Chick Hicks e o veterano O Rei. Armadilha da inexperiência. A definição do campeão fica adiada para uma nova corrida, em Los Angeles, dali a sete dias. É nesta semana que separa as duas provas que McQueen ficará isolado, contra a sua vontade, na pequena Radiator Springs – cidade esquecida à beira da Rota 66 – e terá a chance (forçada) de se transformar em alguém mais sensível e responsável (e por tabela trazer benefícios ao local).

É uma trama digna de filme de Tom Cruise dos anos 80. Arrisco dizer que “Carros” seja uma combinação de “Dias de Trovão”, “Ases Indomáveis” e “A Cor do Dinheiro”. O primeiro pelo cenário de corridas e seu aspecto comercial, o segundo pela garota que o rivaliza à altura e o atrai, e o terceiro pela figura de Paul Newman, que repete aqui - como Doc Hudson - o seu papel de macaco-velho cansado que dá uma lição no moleque arrogante e cabeça-dura. E claro, todos esses três filmes destacam o jovem, habilidoso e imaturo protagonista que se encontrará em situação redentora e aprendera na marra lições de respeito, moral e companheirismo. Tudo se copia.

O que se aproveita, com fartura, de “Carros” são as incríveis cenas de ação nas pistas e os hilariantes personagens caipiras de Radiator Springs. Mas, as grandes sacadas estão nas caracterizações dos bichos em automóveis: são geniais, por exemplo, as soluções de “design” para os mosquitos e as vacas. É também muito divertido procurar, dentro do cenário, referências a outros filmes da Pixar, como os pássaros do curta “For the Birds”, as formações rochosas no formato da nave de Buzz Lightyear ou a insuspeita marca dos pneus de McQueen. Fora que no final do filme temos aquele bônus já clássico durante os créditos finais (e uma cena extra no final de tudo, que quase ninguém fica pra ver).

Do ponto de vista de profissional de animação, destaco a impressionante profundidade de campo ao longo do filme, nas seqüências dentro autódromo, na estrada e no deserto, todos com elaborados movimentos de câmera. É um trabalho descomunal compor digitalmente um ambiente tão amplo. Também merece atenção o respeito dado à física mecânica, quando os bólidos desgovernados impactam-se seguindo rigorosamente as Leis de Newton - todas as três (a lembrar: inércia, gravidade e ação e reação). O timing correto de elementos em movimento é algo que tem sido negligenciado mesmo em grandes produções animadas. E a riqueza de detalhes, a quantidade de elementos se movimentando no quadro - papeizinhos picados caindo, “público” na arquibancada comemorando, árvores carregadas de folhinhas, reflexos na lataria dos carros – deixam o mais experiente dos artistas em CG (computação gráfica) de queixos caídos. São centenas de horas de trabalho e cálculos matemáticos para se atingir este resultado. É realmente especial, e marca mais uma vez o passo à frente que a Pixar Animation promove no cinema de animação.
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