FACTOTUM - SEM DESTINO:


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Original: Factotum
País: EUA / Noruega
Direção: Bent Hamer
Elenco: Matt Dillon, Lili Taylor, Fisher Stevens, Marisa Tomei, Didier Flamand, Adrienne Shelly, Karen Young, Tony Lyons.
Duração: 90 min.
Estréia: 30/06/06
Ano: 2005


Histórias americanas


Autor: Cid Nader

Matt Dillon está se tornando um ator necessário para o bem do cinema norte-americano, diferenciado, a partir do momento em que, nitidamente, despiu-se da aura de jovem galã, para encarar de frente e naturalmente o avançar da idade - não é velho, deve estar na faixa dos 40 - que deixa rostos com expressão mais cansada e marcada e o corpo mais pesado, um tanto quanto mais "forte". Aparece, também, mais maduro em seus desempenhos - já podia-se notar tais transformações em “O Americano Tranqüilo”, no muito ruim “Crash” - ganhador do Oscar de melhor filme (!) - e nesse “Factotum”. Ao emprestar sua cancha, sua bagagem, ao diretor Bent Hamer, emprestou também muito mais credibilidade, angariando a empatia e necessária confiança do público, facilitando o trâmite entre o marginal Bukowski e os que estão sentados em frente da tela e que não conseguiriam engolir mais um personagem calcado, copiada e “esteriotipicamente”, na fantasiada imagem do rebelde "homenageado". O cinema americano é pródigo em estragar histórias baseadas em personagens reais, por manter um certo ranço teatral na composição de figuras mais incomuns, mais espetaculares, esquecendo-se que a imagem filmada e repassada tem uma proximidade maior e mais ampliada ante a visão do espectador, ao mesmo tempo que mais artificial. Artificial pois é repassada através do truque da captação e da revelação, ampliada e retocada, fatos que fazem com que a "impostura artificial interpretativa" executada no teatro -necessária pelo não uso de microfones ou "ampliadores" de figuras - soe mais natural e necessária, executada em um meio - o palco - que necessita - muito mais do que o cinema - da overdose do ator em sua criação.

Juntamente ao excelente desempenho de Dillon, que faz o papel de Henry Chinaski - um ser repetidamente utilizado por Charles Bukowski -, o diretor Bent Hamer, do maravilhoso “Histórias de Cozinha”, realizou um belo trabalho, nos moldes do cinema independente americano - apesar de sua origem nórdica, leva o filme como os diretores mais descompromissados das regras dos grandes estúdios -, com um interessantíssimo e exclusivo domínio da técnica. Em seu filme anterior, rodado em sua terra natal, já demonstrava que enxergava o meio por outras óticas, com outros olhos, com uma sensibilidade diferenciada. Criou, então, um filme que retratava uma situação incomum, com seres que vivem isolados - no sentido mais compreensivelmente comum imposto pelo mundo "aglutinador" ocidental - num país que por natureza já "incentiva" o isolamento - frio e cinza. Mostrou, com uma lentidão de andamento apropriada, singularidades, diferenças e convergências, reações aparentemente indiferentes mas intrinsecamente declaradas por pequenos gestos muito carregados de humanidade. Surgiu como diretor que iniciava caminhada na contra-mão do pressuposto, sem arroubos melodramáticos e procurando na essência o que imaginava ser necessário transmitir. Agora, felizmente, resolveu num mundo um tanto maior - os Estados Unidos e sua exportação de cultura supérflua, mas que também exporta das mais importantes, como a do movimento beatnick - exercitar essa sua aparente veia não normal, não conformada, não comum.

Baseado em alguns contos do marginalíssimo e genial Bukowski, a história nos apresenta um escritor, Chinaski, bêbado e perdido no mundo - obviamente pelos padrões normais, afinal estamos caminhando pela maravilhosa marginalidade surgida nos anos 1950 em terras de Tio Sam - por opção, que trabalha em qualquer tipo de emprego que apareça, "e que o aceite". Dá-se mal o tempo todo, sendo que isso é o que busca, realmente, o tempo todo. Apaixona-se por várias mulheres, mas encontra o verdadeiro par em Jan (Lili Taylor) - numa composição humanamente sensual, fazendo par, também, à grande criação de Dillon - que criou um personagem emocionante ao extremo, linda, insegura e amparo ao mesmo tempo - o ser humano é, em essência, carente, procurando sempre um porto seguro, um abraço, companhia, mesmo que seja tomado por um "fracassado". E Hamer soube o que fazer para não estragar desempenhos de tamanha sensibilidade. Sutil como em seu filme anterior, negou a possibilidade "junk" estarrecedora que se apresentava e produziu, com câmera levemente invasiva, um pequeno trabalho de aparência; enorme em sua intenção e sua conclusão. Foi comedido como deveria ser, pois estaria enxergando uma camada absolutamente superficial na obra de Bukowski, se agisse de maneira mais vil e suja na conclusão de seu trabalho. Entregaria obra caricata se pisasse pesado no acelerador, como também estaria Matt Dillon se utilizasse o "método" usual normalmente exigido e aplaudido por parte dos estúdios e também da crítica.

P.S.: a cena em que Chinaski, entra num carro à procura de ... Veja, não vou comentar, é genial pois traça, ali, todo o seu caráter; demonstra todo o pouco de que necessita.
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