A PEQUENA JERUSALEM:


Fonte: [+] [-]
Original: La Petite Jerusalem
País: França
Direção: Karin Albou
Elenco: Fanny Valette, Elsa Zylberstein, Bruno Todeschini, Sonia Tahan.
Duração: 99 min.
Estréia: 30/06/06
Ano: 2005


"A pequena Jerusalem" - Grande filme.


Autor: Érico Fuks

Entende-se por reduto um espaço ao mesmo tempo discriminado e preterido por um conjunto social maior e, paradoxalmente, uma célula onde se podem praticar hábitos peculiares e idiossincráticos com maior distanciamento e liberdade. É mergulhando nessa ambivalência de restrições e segurança na perpetuação de valores que a diretora Karin Albou constrói o universo de seu primeiro longa-metragem “A Pequena Jerusalém”, Seleção Oficial – Semana da Crítica do Festival de Cannes 2005. Trata-se de um recorte do recorte, um microcosmo de personagens expostos que, junto com o expectador, vão descobrindo sua relação com o mundo. Não são anões de circo retratados de maneira restrita e caricata, tampouco iscas de uma ideologia panfletária que prega igualdades e emancipações libertárias. São apenas indivíduos instalados na vacuidade de um espaço orgânico que procuram entender seu valor social através de seus conflitos.

Sem estabelecer maiores relações didáticas e noticiosas com o conjunto, Albou fecha seu cerco em Sarcelles, um bairro da periferia parisiense chamado de Pequena Jerusalém por abrigar algumas famílias de judeus ortodoxos imigrantes. Toda a genealogia da trama ramifica-se e desenvolve-se a partir de Laura (Fanny Valette), 18 anos, que oscila entre sua educação religiosa e seus estudos de Filosofia. Nesse embate percebe-se uma certa inquietude da protagonista, que abstrai seus conhecimentos através de uma doutrinação conservadora e simbológica familiar, onde se nota a continuidade dos valores religiosos como forma de sobrevivência e de perpetuação da espécie do povo nômade hebreu. Mas é na sala de aula que Laura busca expandir seus horizontes em questões mais existencialistas e onde identifica-se com visões de mundo diferentes. Não é à toa que Kant, que apoiou-se nos fundamentos religiosos para formular suas idéias, é citado várias vezes. A figura da mãe (Sonia Tahar), egressa da Tunísia, com seus misticismos esotéricos e suas crenças cabalísticas pouco ligadas à razão, serve para apimentar ainda mais este nicho repleto de contradições.

Laura mergulha neste universo de dúvidas quando se apaixona pelo argelino Djamel, algo que vai contra os princípios religiosos. Nesta confrontação com seu desejo, traça um paralelo com o relacionamento de sua irmã Mathielde (Elsa Zylberstein), casada com Ariel (Bruno Todeschini), que desconfia que está sendo traída.

Este retrato hassídico de uma comunidade minoritária finca diálogos com a obra de Amos Gitai, especificamente “Kadosh – Laços Sagrados”. Em ambos nota-se a entrada de uma partícula de um elemento novo no ambiente, capaz de desestruturar a ordenação lógica deste organismo. O antigo e o atual fundem-se através de um choque traumático, e não por meio de adaptações regulares e paulatinas. Mas Gitai é mais mão pesada, usa de uma certa truculência cinematográfica em prol de sua tese ideológica pouco republicana. Seu modo de filmar é mais frenético, sua câmera em eterno movimento mostra a inquietude e o inconformismo do diretor com o estado das coisas que rege o mundo. Em “Kadosh”, ele aponta para um alvo e atira em outro. Traz à luz com suas metonímias, sem qualquer tipo de remorso, um casal em crise no relacionamento conjugal para provar a fragilidade do matrimônio e dos rituais ortodoxos inseridos na comunidade como um todo. Já Albou não é tão perversa assim. Mostra o ser humano de maneira respeitosa. Sua câmera não grita, não esperneia e não chora, mas dá aos personagens o tempo suficiente que eles precisam até encontrarem esse choro gutural escondido. “A Pequena Jerusalém” não despe seu povo, mas observa, sem qualquer tipo de promiscuidade e voyeurismo, esses filhos de Israel se desnudarem em busca de um contato mais íntimo com suas crenças.

Embora haja laços mais aparentes com Gitai em seu conteúdo, “A Pequena Jerusalém” traz no aspecto formal uma similaridade maior com o trabalho da argentina Lucrecia Martel (“O Pântano”, “A Menina Santa”). Coloca a religião como um fator intrínseco que permeia as atitudes. Sem ser tão libertina e pecaminosa quanto a referida portenha, e abrindo mão dos autorais batimentos cardíacos e detalhes sonoros em primeiro plano da cisplatina comparada, Albou também percorre espaços em busca do conhecimento deixando o sentido de seu trabalho o mais aberto possível. Os preceitos judaicos são questionados em imagens, e o filme encontra sua verdadeira expressão da liberdade e do desejo em seu próprio trajeto. Mesmo confinados em um núcleo semita claustrofóbico, os personagens encontram um vasto campo para suas angústias no olhar da diretora. Os closes nas peles e nos corpos, mostrados de maneira frágil e delicada, não servem para ridicularizar suas crias ou seduzir quem assiste, mas permitem uma reflexão maior em torno da questão existencial sobre o etéreo (a alma) em detrimento do que é observado, algo mais concreto, físico e perene.

“A Pequena Jerusalém” mergulha em dicotomias como fatores naturais à sociedade, sem tirar proveito de seus conflitos ou trazer conclusões simplórias e precipitadas. A cena inicial, um ritual fúnebre, não dá indícios de se tratar de um trabalho mórbido, mas abre campo para questões sobre a própria vida. A mikvah (banho de purificação feminino, tomado após o período de menstruação. Os judeus ortodoxos acreditam que a mulher, nos dias de infertilidade, seja considerada “impura” por carregar em seu corpo células mortas e, durante este prazo, são evitados os contatos mais íntimos), recorrente no filme, torna-se um lugar de descobertas. Nos diálogos com a tutora do estabelecimento, Mathielde aprende que a religião judaica não repreende nem pune o prazer, mas incentiva essa prática. É como se o organismo morto levado pela corrente de água pudesse ceder lugar a um sentimento mais vivo. Nesse sentido, o filme é amplo em suas sutilezas: a reciclagem dos conceitos encontra paridade na reciclagem citológica.

Albou valoriza silêncios, evita trabalhar didaticamente suas incertezas. Em uma cena em que Ariel chega em casa e observa a esposa, basta uma frase para registrar o olhar cúmplice da traição e ao mesmo tempo toda uma bibliografia sagrada em que se molda o Judaísmo: “Me perdoe”. Difícil encontrar nas telas uma comprovação maior da crença no ser humano do que essa.
Leia também: