SAMURAI DO ENTARDECER:


Fonte: [+] [-]
Original: Tasogare Seibei
País: Japão
Direção: Yôji Yamada
Elenco: Hiroyuki Sanada, Rie Miyazawa, Nenji Kobayashi, Ren Osugi, Mitsuru Fukikoshi, Kanako Fukaura, Hiroshi Kanbe.
Duração: 129 min.
Estréia: 23/06/06
Ano: 2002


“O Samurai do Entardecer” – é duro ser homem


Autor: Cid Nader

Estamos diante de Yoji Yamada. Diante do respeitável cinema japonês. Não que Yamada possa ser classificado como um dos cinco – ou dez - maiores da sétima arte nipônica. Entrou na Shochiku na mesma leva em que estava Nagisa Oshima, por exemplo, mas ao contrário desse não tomou partido de grandes movimentos estéticos que moveram e fatiaram os grupos de cineastas de lá, como a Nouvelle Vague, entre outros, mas ao criar a série “É Triste Ser Homem”, a maior do cinema mundial - 48 episódios transcorridos em 26 anos e interpretados pelos mesmos atores – ganhou status e marcou de maneira bastante carinhosa seu nome na retina dos que apreciam as obras da terra do sol nascente. Quem teve a oportunidade de acompanhar alguns desses episódios em retrospectivas apresentadas aqui pelas nossas bandas – ou mais raramente durante o período em que a sala da Shochiku funcionou no bairro da Liberdade, SP – percebeu um cinema que, abdicando das possibilidades esteticamente engajadas, se fixou e marcou pela “ludicidade” de tema, isto é, apostou na trajetória de um ser humano qualquer, errante e engraçado, de vida sem arrojos ou arroubos, muito próximo da gente comum que acorre às salas e nem sempre encontra semelhantes; próximos.

Pouco conhecido por outros longas, isoladamente da série – a não ser para alguns afortunados que tiveram a oportunidade de acompanhar uma retrospectiva de suas obras há cerca de 4 ou 5 anos –, ganha nova oportunidade com a estréia de “O Samurai do Entardecer”. Retrata com rara felicidade de reconstituição de época e alusões elípticas que remontam, ou simplesmente constatam, as semelhanças entre o Japão feudal e o atual, num filme que teria muitas possibilidades de ser uma obra de destaque ou diferencial positivo em sua carreira, não fosse a opção suicida e desnecessária do uso da “muleta” da narração “em off”. É quase que unanimidade o desacerto que o uso de tal recurso deixa como marca indelével na carreira de um filme. O fato, normalmente, vem imbuído da pretensiosa dedução de cineastas ou estúdios em não acreditar na capacidade de compreensão - ou dedicação de atenção - do público quanto ao andamento de um filme. Para “facilitar” a vida dos inocentes espectadores se opta por uma ajudinha “bê-a-bá”, e perdem-se as várias possibilidades de nuances de entendimento, as várias matizes que enriqueceriam a obra – como que tornado-a monocromática. No caso mais específico de “O Samurai do Entardecer”, agrava ainda mais a situação o que o andamento do filme nos faz pressupor e que se concretizando na cena final. Algo como que a crônica de uma morte anunciada, bobinha e desnecessária, algo como dar cara corpo à já desnecessária voz “em off”.

Mas pensando o filme como se ele não tivesse tido o azar desta opção a acompanhá-lo em uma de suas bandas sonoras, o que Yamada poderia nos ter entregado não estaria muito longe de ser classificado como uma obra-prima; um clássico. Fala da vida de um ex-samurai de segundo escalão do clã Unasaka, Seibei Iguchi (esplendidamente interpretado por Hiroyuki Sanada), que tendo gastado todas as economias por conta da doença da mulher e em seu posterior enterro – que teria de ser rico e ostentoso para honrar as tradições -, passou a dedicar-se de maneira integral à obrigação da criação e sustento das filhas. Trabalhando no setor de contabilidade de uma fábrica, recusa-se a sair com os companheiros de trabalho após o expediente para as tradicionais bebedeiras que fazem dos metódicos, obedientes e disciplinados japoneses, seres mais comuns; mais parecidos com a normalidade errante que é a humanidade. Essa recusa se dá por economia, pela necessidade de contenção de gastos, fato que o aproxima mais das filhas – mais do que o comum na sociedade nipônica – e o torna alvo de chacota por parte dos colegas que assam a apelidá-lo de samurai do entardecer. Num dado momento uma ex-namorada, Tomoe (Rie Miyazawa) volta a cruzar indiretamente o seu caminho, recém-separada, através do contato de seu irmão com o samurai e o destino acaba pos colocá-lo, após longo período, diante de uma batalha por honra, da qual tenta desvencilhar-se; a qual tenta evitar a todo custo. Seibei é uma pessoa atormentada, que tenta fugir de seu passado, mas é homem num Japão que está para se extinguir e ainda cobra suas dívidas.

Filmado como um velho faroeste crepuscular, Yamada mostra o ocaso de uma época. Constrói seu filme na fronteira que tira o Japão dos tempos feudais – momento em que os clãs estão em seu crepúsculo, fim dos shoguns – e coloca-o, de maneira traumática, nos tempos modernos e “ocidentais”. Tudo se passa durante a revolução Meiji, final do século XIX. E o mais interessante é notar as semelhanças que persistem no país absolutamente extremo-oriental da época e o que veio sendo construído no decorrer dos últimos 140 anos. O diretor foi bastante feliz ao construir imageticamente essas semelhanças: os homens que trabalham, falam de mulheres e se excitam ante a possibilidade de se embebedarem; as meninas que estudam “Confúcio” – aliás é lindo vê-las delicadamente recitarem suas “rezas” – numa antevisão da mudança da postura feminina na sociedade; um vendedor de vassouras que passa na rua – lembrando coisas inclusive de São Paulo dos anos 1960 e 1970; pequenas atitudes do dia-a-dia ...

Poderia ser um filme memorável; tem beleza e alma para isso. Mas incomoda e atrapalha bastante no resultado final a opção infeliz de pontuá-lo; como se fosse uma história que necessitasse ser narrada oralmente.
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