MOACIR. ARTE BRUTA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Walter Carvalho
Elenco: Documentário
Duração: 75 min.
Estréia: 23/06/06
Ano: 2005


"Moacir, Arte Bruta" - só a arte bruta já bastaria


Autor: Cid Nader

Aclamado e reconhecido diretor de fotografia, Walter Carvalho envereda, por vezes, na complexa e maior função que é a de diretor de filmes. Já havia feito, há alguns anos, razoável sucesso com o interessante “Janela da Alma”, onde "ouvia", com suas câmeras, depoimentos de pessoas conhecidas, do mundo das artes e da política, com defeitos de visão, que usavam desde modestos óculos para miopia ou com cegueira quase total.

Como o diretor de fotografia mais aclamado do Brasil - ao menos pelos setores menos engajados e ranzinzas - tem angariado uma inegável fama de dono do pedaço na maioria dos filmes que fotografa. Alguns diretores, indubitavelmente, se aproveitam da personalidade meio que dominadora de Walter deixando com que ele interceda bastante em seu trabalho final - isso, quando não imprimem aos seus rebentos toda uma engenhosidade mal disfarçada que intenciona, ao final, aproveitar-se da mão segura e egocêntrica dele. Dizem alguns que trabalham com ele, tratar-se de pessoa bastante exigente e até chata - quanto ao exigente, nenhuma dúvida, obviamente notado pelos resultados obtidos. Mas também já ouvi, de outros, que é bastante atencioso - alguém o classificou, inclusive, com o singelo adjetivo de "anjinho" - no trato com os "subalternos".

É óbvio que entende a arte na qual trabalha, mas mantém alguns vícios estéticos - típicos daqueles que exercem a fotografia como sua principal função - que poderiam por a perder esse seu novo documentário, "Moacir Arte Bruta". Talvez o maior mérito do filme, a grande sacada de Walter, o que faz com que o documentário tenha seu lado "bom trabalho", seja o próprio personagem retratado, Moacir, e seus familiares - com mérito especial ao seu pai. Walter Carvalho deixa Moacir falar e "fazer" seu documentário - ponto a favor.

O tal do Moacir é uma espécie de artista "naif", com características psicológicas maluquinhas e trabalho de resultados impressionantes. Esse seu jeito "meio maluquinho" de ser é tremendamente explorado por Carvalho que, inclusive, incentiva-o. Na edição final o que ele nos apresenta é alguém que tem uma história muito própria, engraçada, inusitada, mas que, a título de informação jornalística documental, nos é passado sem questionamentos um pouco mais contundentes, que tornariam óbvia, a quem não está a fim somente de maravilhar-se, uma certa carga fantasiosa imprimida pelo tal. No filme podemos ver as suas versões - absolutamente inspiradas - e dos outros entrevistados, sobre a razão do seu modo de ser e sobre sua arte. Tudo bastante engraçado e emocionante; efeitos obtidos pela simplicidade e inocência de todos que o cercam. Seu pai revela-se figurinha carimbada como poucas vistas na telona, com seus óculos escuros pouco ou nada a ver com o entorno, suas frases e histórias sempre beirando uma inocente galhofa. Acompanhado por um sorriso matreiro de Moacir compõe os grandes momentos do trabalho.

Só que - e aí percebe-se, sorriso matreiro, óculos espetacularmente escuros - com um certo ar de impostura discretamente anunciado pelos próprios personagens - uma oportunidade interessante se abre como mais um caminho possível a ser explorado pelo diretor, que renega-a, talvez imaginando que o público brasileiro seja absolutamente racionalista no seu modo de compreender e não entenderia o documentário como documentário. Aparentemente, Walter imagina que verdades não podem ter várias facetas e que lorotas não possam resultar trabalhos "compráveis" - ponto contra.

Desnecessariamente - e aí revelam-se os vícios de fotógrafo - impõe interferências em passagens onde a própria arte seria suficiente, por si só, para desenvolvê-las. Quando filma os trabalhos do matuto resolve que mais "alma" é necessária; e isso resolve no momento da edição. Muda velocidades, texturas, impõe modernidade desnecessária. O Walter "acusado" por alguns entrega-se aos acusadores. Um encontro entre Siron Franco e Moacir poderia ter sido evitado; não acrescenta pedagogicamente, revela distâncias que nunca serão encurtadas e acaba por compor uma passagem constrangedora no filme. Em suma, o trabalho tem lá seus muitos méritos, por conta dos investigados, e deméritos, quando Walter Carvalho tenta imprimir sua assinatura de maneira definitiva - ele não precisa disso; sua rubrica já tem bastante valor no mercado.

P.S.: Numa discussão com amigos que não gostam da fita, houve uma referência ao fato de Moacir e seu pai terem as suas falas legendadas. Segundo alguns isso significaria mais uma interferência, ou tentativa de condução, do diretor, na capacidade de se fazerem entender, pai e filho - uma espécie de "versão oficial da história". Dúvidas no ar.

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