NO MEIO DA RUA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Antônio Carlos Fontoura
Elenco: Guilherme Vieira, Cleslay Delfino, Flávia Alessandra, João Antônio Jamaica, Tarcísio Filho, Maria Mariana Monnerat, Leandro Hassun, Marcelo Escorel, Christina Ferro, Samuel Melo.
Duração: 89 min.
Estréia: 23/06/06
Ano: 2006


Nossa imagem distorcida


Autor: Fernando Watanabe

“No meio da Rua” parte de uma premissa simples: a de que os pobres são felizes enquanto os ricos não o são. Um velho clichê que, não só o cinema, mas principalmente a televisão brasileira cansaram de esgotar. Discutir em uma crítica a validade de tal idéia, a meu ver, parece ser fora de propósito, já que tal discussão deve se dar com critérios sociológicos, que com certeza são importantes mas não devem ser as coordenadas dominantes para a crítica fílmica. Logo, a única razão para se debruçar sobre o filme de Antônio Carlos Fontoura é tentar abordá-lo em termos cinematográficos, utilizando seu conteúdo social como origem da forma estética; do estilo.

Que estilo? A abertura do filme se dá com os créditos desenvolvidos em um sofisticado trabalho de computação gráfica de animação, e de cara oferece pontos importantes que ecoarão durante todo o restante do trabalho. Na intenção, tal abertura claramente quer dialogar com a atualidade das crianças da classe média alta que, nascidas já na era da informática e Internet, parecem – segundo o cineasta – ter o cotidiano dominado pelo videogame e jogos eletrônicos. Mas, vendo o projeto do filme como um todo, essa abertura significa algo mais perigoso: a virtualização da realidade. O gesto do diretor em pegar o real e manipulá-lo de acordo com aquilo que ele quer dizer. E o que ele quer dizer é velha idéia pré- concebida de que a verdadeira felicidade está no povo, nos pobres. Aí está um problema que se repete cada vez mais na safra contemporânea da produção brasileira, a criação de uma realidade virtual que pretende confirmar o real, apenas para levar o espectador a concluir o que ele já sabe: “nossa, realmente é assim”.

“Coisas de Mulher”, “Mulheres do Brasil”, “Depois daquele baile” e “Gatão de Meia Idade” (também de Fontoura) são exemplos dessa imagem virtual muitas vezes equivocada. Mostrar o mundo como ele é, não é, necessariamente, um problema, pelo contrário, se a idéia da realidade não for equivocada, haverá sempre bastante material para os cineastas criarem em cima. E aí está o problema maior de “No meio da Rua”, não há criação cinematográfica baseada na realidade que ele pretende mostrar, ou melhor, refletir. Porque o filme se pretende um espelho da classe média alta urbana carioca; fato natural, uma vez que o cineasta vem desse meio, e, portanto, tem bastante propriedade para discorrer sobre. Apenas para termos um parâmetro do cinema contemporâneo, vamos pensar um pouco nos que melhor sabem fazer filmes calcados numa tese social, os franceses. Claude Chabrol também se utiliza do espelho, mas seu reflexo da burguesia francesa é mais sutil, irônico, atento aos detalhes. Um olhar mais apurado. François Ozon é outro, mas suas imagens são achatadas, simplificadoras. Fontoura está mais para Ozon do que para Chabrol. Para termos parâmetros brasileiros (o que é mais interessante à discussão), pensemos no cinema de Arnaldo Jabor e suas gaiolas onde os ratos de laboratório burgueses eram desmascarados e ironizados até a exaustão. Goste-se ou não de Jabor, pelo menos em sua obra se sente um pouco de cinema, há uma busca estética que concretiza as idéias do cineasta, sejam elas pertinentes ou equivocadas. Em “No meio da Rua” constata-se uma enorme preguiça cinematográfica.

O cuidado destinado à abertura, bem que poderia ser também dedicado ao resto do filme. A decupagem é pobre e os enquadramentos nunca dizem nada, parecendo que o conteúdo do filme já basta e a câmera se limita a enquadrar o “assunto”. Ela denuncia a agilidade da filmagem motivada talvez por barateamento da produção, pois vemos quase sempre a câmera na mão, numa instabilidade incômoda para um filme feito para a família. Melhor funcionaria se fosse clean, ou seja, decupagem clássica no tripé, fotografia bem clara e bonita, ou seja, tudo que tradicionalmente melhor confecciona a virtualização pretendida. Essa câmera instável se adequa bem à favela, onde os personagens são mais livres e alegres, muita gente corre pra lá e pra cá, o dinamismo das relações é maior. Mas, no apartamento da família esse comportamento da câmera incomoda, uma vez que os personagens são presos aos clichês anteriormente existentes a eles e, portanto, não possuem a liberdade nos gesto, nas palavras. O que resulta num descompasso entre a câmera na mão livre e os personagens estereotipados, a decoração clichê e a iluminação clássica clara. Se é para se fazer o clichê, que se faça por completo, pelo menos.

O inferno. O apartamento de classe média alta, onde vive uma família típica. Um pai afogado no trabalho que gira em torno de negócios; uma mãe dedicada aos filhos porém moderna e trabalhadora (dona de uma loja); Renata, uma filha pequena no modelo “criança sabe tudo”, que de acordo com sua enorme sabedoria e esperteza, sua função parece ser a da premonição dos fatos da narrativa, de reiteirar informações e interpretar fatos; um robozinho a serviço do roteiro, que deveria (se optasse pela sutileza) comunicar tudo isso de forma visual ou ao menos por diálogos entre duas pessoas. Renata vê e monologa sobre ela mesma, nunca interage com os outros. É ela quem revela aos pais uma das informações mais importantes da história, a de que Leonardo fugiu da escola. Uma criança vidente, não no sentido de que vê melhor (como as crianças do neo-realismo italiano ou os meninos de Truffaut), mas no sentido de que ela sabe tudo do roteiro antes dos personagens.

Já Leonardo, o herói da história, carrega o fardo de representar toda uma geração de crianças. Sufocado pelas obrigações impostas pelos pais, tem todas as vantagens que eles não tiveram: boa escola particular, curso de inglês – a cena da aula de inglês é uma das poucas graciosas no filme -, informática, e além de tudo tem de ouvir do pai à mesa de jantar: “se eu tivesse a formação que você está tendo filho, ninguém me segurava!”. Ele é a projeção de sucesso dos pais, pois sua mãe diz inúmeras vezes que ele é “meu campeão”, e “te amo mais do que tudo”. Na idéia social do filme, por ser ainda criança ele ainda não está corrompido, e isso fica claro na primeira cena do carro parado no farol. O motorista da família obviamente grita para o moleque de rua Kiko desencostar do carro, enquanto Leonardo o acolhe com carinho e inocência. E é no farol que fica evidente a autoconsciência do filme em relação ao seu conteúdo social delicado. Quando Kiko e seus amigos vão pedir dinheiro nos carros, a reação dos motoristas é simetricamente variada entre o medo e o sorriso, entre o desprezo e a entrega da esmola. Essa variedade poderia ser positiva, se o projeto do filme buscasse um questionamento social e suscitasse dúvidas. No entanto, só há certezas. Ou melhor, uma certeza. Tal variedade nessa cena busca suavizar a idéia social de mão única na qual o filme se basta para depois confirmá–la. Há um nítido esforço em se sair um pouco do clichê fácil que seria mostrar todos os motoristas fechando o vidro, e isso porque a visão de Fontoura é a da esperança, que se confirma ao final do filme, quando Leonardo sorri e acena para as crianças pobres da rua, celebrando um congraçamento ideal e utópico. Essa dose de esperança tão desconectada da realidade não esconde o cinismo que permeia a idéia do filme; apenas a traveste com uma fantasia infantil palatável.

O paraíso. Apesar de tudo, os pobres são mais felizes. É isso que se vê na favela de “No meio da Rua”, onde tudo que se imagina que aconteça numa favela está acontecendo, mas não é explicitamente mostrado. Ao contrário, virtualiza-se mais uma vez. A depravação entre Baratão e sua “namorada” é mostrada de forma grosseira (ela não para de repetir “eu não te guento, Baratão”). O tráfico é sugerido quando Kiko fala sobre o meninos- foguetes, aqueles que avisam quando a polícia está chegando. A esperteza e malandragem materializam-se na dupla Russo e Tião que roubam o videogame. Conclusão: estranhamente, tudo de ruim acontece na favela, enquanto no mundinho perfeito da classe média o dilema resume-se à procura existencial do afeto e da felicidade. Um artificialismo simplista simbolizado pela cena na qual Leonardo, estando na favela trazido pelo amigo Kiko, ela pára, olha para o céu e diz “nunca estive tão feliz na minha vida!”.

Sendo um filme feito para a família de classe média alta (o público que hoje tem condições de pagar por um ingresso), é normal que a opção seja a de se usar os clichês sociais, o didatismo narrativo e a bem intencionada mensagem de esperança ao final. Nessa categoria de filme, a prioridade é comunicar, criar situações e diálogos que supostamente pertencem a todas as pessoas que assistem ao filme e que deverão se identificar com os dramas existenciais da procura da felicidade de seus personagens. “No meio da Rua” deseja que vejamos nossa imagem refletida na tela. Essa imagem é distorcida. Não só pelo descuido cinematográfico empregado, mas principalmente pela simplificação dos problemas inerentes aos seres humanos pertencentes a essa classe. Prefiro acreditar que há algo mais do que isso. Prefiro acreditar que as pessoas são mais do que isso.

Nota: Esse tema da relação entre ricos e pobres é recorrente na cinematografia nacional. Sérgio Bianchi e Ugo Giorgetti trabalham nesse terreno perigoso. A diferença é que eles problematizam o tema, enquanto Fontoura se limita a expor a realidade supostamente como ela é e, num ato grave de incoerência, resolve a questão ao final com uma esperança de função atenuadora. Mas, é bom observar que os dois primeiros possuem objetivos distintos de Fontoura, fazem filmes restritos que se preocupam em dizer o que precisam sem ter a bilheteria como objetivo primeiro e, se isso é bom ou ruim já é outra discussão. “No meio da Rua” é simplesmente um filme feito para a família, então toda essa especulação social e estética de que falei até agora pode parecer um exagero de reflexão diante de um filme cujo sucesso ou fracasso é praticamente determinado pelos números da bilheteria. Na sessão que eu assisti, na sexta-feira de estréia do filme (23/06/06), só havia eu.
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