DOIS ANJOS:


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Original: Two Angels
País: Irã / França
Direção: Mamad Haghighat
Elenco: Siavash Lashkari, Mehran Rajabi, Sharareh Dolat Abadi, Golshifte Farahani, Hassan Nahidi, Fahimeh Rahimnia.
Duração: 75 min.
Estréia: 23/06/06
Ano: 2003


Faltaram asas ao diretor


Autor: Érico Fuks

Parece que o cinema iraniano chegou à sua adolescência. Abandonou aquelas criancinhas correndo atrás do objeto-título em terrenos paupérrimos e empoeirados, cujo percurso em si era a própria representação das dificuldades pelas quais o país dos aiatolás passa. E como todo adolescente do mundo inteiro, abre mão dos balões de gás, dos sapatos e dos cadernos escolares para se auto-afirmar no mundo adulto e para gritar por seus ideais, mas a troca de hormônios ainda o faz caminhar a passos desengonçados e a falar desafinado.

“Dois Anjos”, dirigido por Mamad Haghighat, conta a história de Ali, um garoto de 15 anos de uma cidade sagrada do Irã. Ali recebe uma educação rígida de seu pai, que lhe leciona o ofício de trabalhar no forno de pães de seu estabelecimento e transmite ao mancebo os ensinamentos conservadores voltados para a religião. O púbere leva uma vida monótona, traduzida pelo continuísmo e pelo tradicionalismo sem graça. Foge para um orfanato e, nessa caminhada, entra em contato com um universo desconhecido que o encanta. Conhece um camponês cigano que usa uma flauta para tocar seu rebanho e se apaixona por este instrumento musical precário.

“Dois Anjos”, como o nome sugere, constrói-se na duplicidade de se entender a vida. Não há maiores considerações dialéticas e paradoxais nesse registro. É tudo muito pão, pão, coalhada, coalhada. É o moderno em confronto com o tradicional, o material rejeitado pelo espiritual, o artístico em choque com o pragmático. Esteticamente o filme também segue um roteiro que não deixa margens para dubiedades estilísticas. Nas cenas em ambientes fechados, principalmente as do interior da mesquita, há uma nitidez de imagem que chega a ser rara em boa parte da produção do país. Tudo é brilhante e ornamentado. É como que se ali dentro houvesse uma luz divina e translúcida para, literalmente, clarear os pensamentos confusos e pecaminosos do pai, afastá-lo do demônio e aliviá-lo da culpa e de assumir posicionamentos mais emblemáticos. Já nas cenas em ambientes abertos, notadamente os céus da cidade, há o retrato desgostoso da situação com uma imagem opaca e acinzentada que ofusca a beleza do templo religioso. É ali que se percebe a crueza da realidade. Não há engodos imagéticos, o espelho pictórico feio é a transparência da miséria pessoal e social de Ali.

Sem muitos malabarismos cenográficos, “Dois Anjos” mostra este mundo dividido. Haghighat é esquemático nos cortes que semanticamente representam a transição dos universos paralelos. Mais do que simples, “Dois Anjos” chega a ser simplório. Há um vigor dramático e uma intensidade narrativa nos monólogos epistolares do pai, ritmados pelo silêncio do espaço. Mas o fio condutor da trama beira a ingenuidade. A adoração pelo camponês, talvez o verdadeiro profeta arcângelo e enigmático do texto, soa como uma rebeldia sem causa na fase da juventude transviada marcada pelas acnes. Se a proposta é traduzir na construção de imagens o ideal libertário transgressor embelezado pela música, falta a “Dois Anjos” um fortificante capaz de corrigir a rouquidão juvenil, bem como um maestro mais rigoroso e apaixonado.

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